Aqui nesse espaço metafísico, tão irreal quanto à própria vida, regurgito em forma de palavras tudo que meus olhos comem e bebem do universo ao meu redor. Pensar pesa-me, por isso despejo aqui um pouco de minha Vaidade mascarada de Loucura. Minhas reflexões desconexas, minhas especulações surreais, minhas abstrações cotidianas, minhas elucubrações e devaneios, toda a minha mais vã filosofia...!
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
O oco do mundo ecoa no fundo, no fundo de mim... E os ecos do tempo, vazio como o mundo, pungente e profundo habitam o por vir.
Tudo começa com uma belíssima sinfonia de Wagner, da ópera Tristão e Isolda, um prelúdio do fim. Uma cena em câmera lenta (mesmo recurso utilizado por Von Trier no inicio do filme Anticristo) mostra os menores detalhes dos movimentos, os corpos humanos, o vento nas árvores, as cenas em sequencia parecem um tipo de sonho profético, que mostra um contexto calmamente assombroso e catastrófico. Uma noiva imergindo em um rio, pássaros caindo mortos do céu, uma mulher correndo no campo com uma criança no colo, um cavalo negro caindo pelo chão. Um segundo que se estende ao infinito, como se esse fosse o último segundo de vida. Do espaço sideral, no ritmo da sinfonia de Wagner, a primeira imagem do sublime se faz aos olhos do espectador, um gigantesco planeta se choca com a Terra em uma colisão mortal. Pode-se ver a destruição espalhar-se como uma onda por toda a superfície do pequeno planeta em processo de pulverização. Esse é o fim do mundo!
O cineasta Lars Von Trier apropria-se do tema apocalíptico do fim do mundo, tão na moda por causa das ditas profecias andinas sobre 2012. Mas afasta-o totalmente dos chiches de ficção cientifica hollywoodianos e cria uma metáfora para explorar sua visão trágico existencialista sobre a condição humana, trazendo a tona a questão da melancolia na sociedade contemporânea e mais uma vez (como já tivemos a oportunidade de assistir nos filmes Dogville e Manderlay) desenvolver sua mordaz crítica ao capitalismo de consumo e as instituições que o apoiam, como a ciência e a religião. Associando assim a tragedia cósmica da extinção de um planeta ao micro cosmos de uma família e seus conflitos, representados pelas irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), que nomeiam os dois capítulos do filme e revelam dois polos opostos de visão de mundo que ao longo do filme vão se transformando, dando espaço para a emersão da visão do diretor.
Melancolia, primeira manifestação:
Em algum lugar do planeta, realiza-se um luxuoso casamento em uma suntuosa mansão, isolada em um campo de golfe. A noiva Justine repara curiosa no céu uma estrela vermelha distante. O casamento organizado sistematicamente por Claire e patrocinado por seu marido milionário, o cientistas especialista em astros John, não se desenvolve como o esperado, mas porque afinal? Justine arrumara um bom partido como marido, receberá uma promoção na empresa de publicidade que trabalhava, e o marido já havia comprado um terreno para construírem suas vidas, presenteará com a foto do local onde plantariam árvores de maça e se amariam sobre sua sombra, todo o futuro parecia previamente planejado para a perfeita felicidade. Mas de repente a noiva e ataca por um mal estar súbito, aparentemente sem motivos. Ela se torna sonolenta e desanimada, seu desconforto é latente, o sorriso para os convidados é como uma máscara que não encaixa em seu rosto. Ele encontra todo o tipo de desculpa para se ausentar da festa, o que logo passa a indignar sua irmã e o marido, muito preocupados com as aparências e com o cumprimento dos rituais sociais do casamento. Nada mais parece fazer diferença para Justine, o casamentos, os convidados, a família, o emprego, o marido, tudo se torna inútil e cansativo. Justine caim em uma profunda melancolia.
Para a psicanalista Maria Rita Kehl (no livro “O tempo e o cão”) , a melancolia surge ai como um sintoma social, a perda dos laços sociais provoca um profundo desalento do sujeito frente as exigências do outro. Justine começa a perder em seu imaginário suas principais figuras simbólicas de autoridade, a figura paterna e a materna. Ao revelar para mãe que estava apavorada e sentia dificuldades para andar, como se as pernas estivessem atadas por um fio, não recebe da mãe, amarga e pessimista, nenhum acalanto, mas sim seu frio concelho desesperador de, “de o fora daqui'. Quanto ao pai, mulherengo e fanfarão, ela recebe o total abandono, ele se retira escondido, mesmo depois que a filha quase lhe implora para ficar. Em uma cena emblemática, John tomado por Von Trier como simbolo do capitalismo contemporâneo, cobra de Justine, ainda confusa com seus próprios sentimentos melancólicos, que todo o dinheiro empregado no casamento (“os olhos da cara”) confirme sua felicidade. Assim vemos uma sociedade do consumo onde se vive o que o filosofo Pascal Bruckner denominou como título de seu ensaio “A euforia perpetua”. A obrigatoriedade da felicidade pautada no consumo desregrado de futilidades efêmeras e enganosas é o ponto principal da critica do filosofo que afirma: “nós constituímos provavelmente as primeiras sociedades da história a tornar as pessoas infelizes por não serem felizes”(Bruckner - A Euforia Perpétua). Impelida a um pseudofelicidade que não era capaz de sustentar, Justine acaba por desistir de tudo, frustrando os planos da irmã e se entregando a um profundo sentimento melancólico, que em crises lhe impedia até mesmo de se erguer da cama e andar. Incapaz de se virar sozinha Justine acaba sobre os cuidados da irmã e seu marido. Revelam-se então as personalidades do filme, de um lado Justine a irmã estérica, melancólica, doente, de outro Claire, a irmã, sensata, resolvida e equilibrada, e ainda sobra John, cientista milionário, hipocritamente feliz e seguro. Todos passaram por transformações e reviravoltas que revelaram seus verdadeiros temperamentos quando a morte surgir inevitável no horizonte de expectativa.
A melancolia, segunda manifestação:
No segundo capítulo do filme a melancolia, que antes surgira como manifestação subjetiva e abstrata em Justine, torna-se cada vez mais concreta. Um gigantesco astro batizado de Melancolia aproxima-se da Terra, sua gradativa aproximação trará a à tona nos personagens o medo arquetípico, o que está na origem de todos os medos humanos,o grande tabu, o medo da morte. Dizem que quando o ser humano tomou consciência da morte é que nasceu a filosofia, pois surgiu a necessidade de refletir sobre os porquês e para quês de uma vida finita (é claro que esse assunto também diz muito respeito as artes). É nesse tema que Lars Von Trier ira explicitar sua visão existencial de cunho nietzschiana sobre a condição humana. Assim três opiniões aparecem no filme. Jonh, acredita na razão cientifica, e afirma que Melancolia não atingirá a Terra, tentando assim acalmar sua mulher e filho. Claire, a pesar da confiança no marido, expressa o temor da incerteza. Se pensarmos bem, veremos que um dos aspectos mais paradoxais da morte é exatamente o fato de que ela é certa, não há dúvida de que todos morreremos um dia, mas esse dia e totalmente incerto, e ai nasce o medo, na dúvida. Justine depois de um primeiro momento de depressão e medo, que só depois mostra-se ligado inconscientemente a aproximação do astro, passa a uma mórbida tranquilidade e a um total desprezo por qualquer forma de esperança vã. A personagem antes estérica, vai se tornando serena e consciente. Por outro lado a Claire passa do medo ao desespero, o medo da morte pouco a pouco vai consumindo-a.
Em uma das mais belas cenas do filme, Claire segue a irma durante a madrugada até as margens de um pequeno riacho, onde vê Justine deitar-se nua sobre a luz azulada do grande astro Melancolia, como em um ritual erótico mistico de louvor a morte que se aproxima. Quanto mais Justine aceita o fato inevitável, mais a irmã entra em desespero, a ponto de comprar uma caixa de remédios para um possível suicido. A tensão dramática do filme se estabelece por completo quando Jonh, ao se deparar com a falha dos cálculos científicos, sente todas as suas certezas se dissolverem, deparando-se com o vazio existencial e coma inevitabilidade da morte. Ele caba se revelando como o mais desesperado, o que leva a covardia, e por isso ele se mata com os remédios de Claire, deixando sua esposa sozinha com o filho e a irmã. Nesse personagem a crítica de Von Trier as certezas cientificas é explicita, a razão cientifica assim como a fé religiosa tem a mesma origem e função, tentar dissimular a morte, em uma forma de negação.
Quando já certa do fim do mundo, Claire vai consultar a irmã, essa lhe diz: “A Terra é má, ninguém sentirá falta dela, estamos sós”. Através da personagem Von Trier emiti, assim como já havia feito em O Anticristo, sua visão de mundo trágica existencialista. A solidão e a insignificância humana frente a grandiosidade do universo, o vazio de todas as nossas conquistas e objetivos e o aspecto maligno da natureza, que é mãe e é madrasta, que caótica faz a vida se alimenta da própria morte e institui seu ciclo. Lembremos que o caráter trágico para Aristóteles envolve sempre um conflito e uma decisão, e termina de um jeito ou de outro conduzindo os personagens ao infortúnio e ao aniquilamento inevitável. Justine, desacreditada com vida, melancólica e pessimista, prepara-se para o fim. Mas na cena final do filme, surge a redenção, a única possibilidade de superarmos, não a morte em si, mas o medo da morte que nos mata ainda em vida. Essa oportunidade nasce da figura da criança (que na parábola nietzschiana contada por Zaratustra, surge como o espírito criativo e lúdico do homem), o pequeno filho de Claire revela seu temor pelo fim. E ao ver refletido no menino seu próprio medo, tomada de compaixão, Justine toma o que eu denominei de postura artística, e cumpre um ato poético-lúdico frente a morte, ao dizer para o garoto que poderia ser construída uma toca mágica que os protegeria. Assim ela e o garoto cortam alguns galhos e fazem precariamente uma frágil toca no jardim, onde os três se colocam para enfrentar a colisão. Ai é que Von Trier revela o aspecto lúdico essencial do espírito humano, nossa maior arma contra o medo da morte, nossa infinita capacidade de sonhar, de imaginar e de simbolizar nossa vasta interioridade. Isso é a arte, como a mentira contada por Justine a seu sobrinho para acalmá-lo, a arte mente para tornar suportável a vida, como afirmava Nietzsche. A arte como a mais doce e delicada mentira! A Mentira sagrada! No gesto de Justine está a mais poderosa resistência do espírito humano frente ao supremo mal, o limite intransponível e incompreensível, a gratuidade da vida. As teorias sobre a arte desde Aristóteles até Freud, sempre falaram do processo de sublimação que a obra de arte pode proporcionar aos piores sentimentos humanos. Desta forma a arte age diferente das religiões e das ciências, ela não nega, mas integra a morte de forma que o medo e o desespero sejam sublimados pela beleza, e assim transformamos o tabu em totem, o supremo mal em supremo bem, em um processo de transvaloração. A arte não pode trazer nenhuma imortalidade (desejo vazio e contraditório), mas pode lançar-nos para além da esperança e do medo que oprimem.
A estética do sublime:
Não é por acaso que Von Trie constrói seu filme sobre a estética do sublime. Para Kant o sentimento do sublime nasce de uma desarmonia entre a natureza e a razão ao se perceber o terrível, o indeterminado. Esse sentimento por mais esmagador que seja gera um estranho agrado. É como se fossemos tomados pela visão de algo que é tão grandioso e incomensurável que vai muito além dos nossos sentidos, que só pode ser apreendido pelo espírito, assim a firma o filósofo: “O que nós chamamos de Sublime é aquilo que é absolutamente grande. Este termo designa aquilo que é grande para além de toda comparação...O sublime é qualquer coisa que, pelo simples fato de ser pensada , revela uma faculdade da alma que ultrapassa qualquer medida dos sentidos” (Kant – Critica do Juízo de Gosto). Dessa forma Von Trier inicia o filme com uma imagem sublime, de um ângulo externo a Terra, no espaço sideral, vemos o astro Melancolia chocando-se com o planeta Terra. No final do filme vemos a mesma cena, desta vez de um ângulo interno da Terra, do ponto de vista dos minúsculos seres humanos. Ambas as cenas invocam imediatamente o sublime, a grandiosidade do Melancolia e a peques da Terra, mais que isso, a grandiosidade da morte que vai muito além de nosso entendimento racional, mas que é sentida na alma, a morte de um planeta inteiro, bilhões de vidas, de seres que levaram bilhões de anos para se desenvolver, desaparecendo em um único instante efêmero. Quantos mundos acabam no fim do mundo? Quantas vezes o mundo pode acabar?Afusão das imagens com a sinfonia de Wagner, o prelúdio de Tristão e Isolda, causa uma especie de catarse visual-sonoro. A presença da música torna-se essencial para a criação do sentimento do sublime, um dos principais trunfos do filme. A intensidade oscilante da música traz uma tristeza profunda, paralisante e hipnótica. É como se a gravidade das imagens na tela do cinema nos atraísse, e também nos arrasta-se para o mesmo final trágico dos personagens do filme. Assim o fim do mundo para Lars Von Trier torna-se uma metáfora para a condição humana, marcada por sua finitude, pela gradativa e melancólica aproximação da morte. Que no fundo não nega a vida, mas molda-a por dentro, instituindo seus parâmetros, e acaba se tornando o motor para a criação do espírito, que não aceita a ditadura do materialismo biológico e se lança na arte e no lúdico, ao infinito.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
(Maria Bonomi - Sappho I)
Se a morte lhe apavora, canta a Morte, torna-a poesia . Assim o tabu vira totem, e do supremo mal extrai-se a Beleza, que regenera toda a existência incontornável.
domingo, 9 de outubro de 2011
(Goeldi - xilogravura)
No alto de minha torre de marfim, sentado frente a janela, contemplo a imagem melancólica da cidade cinzenta la fora, com o som sereno da chuva que cai por sobre as árvores. A fumaça de um cigarro misturado ao vapor de uma xícara de café dissolve os pensamentos em silêncio interior. Me sinto no auge de minha solidão tal como a matriz sólida de uma xilogravura, imóvel no tempo, imagem imemorial, que guarda em sí todas as virtualidades do possível. E assim o fato banal se torna poesia. Despreocupado, tomo o livro de minha vida nas mãos e o folheio sem ordem estabelecida, como em um sonho...
terça-feira, 27 de setembro de 2011
A soma da finitude do indivíduo com a eternidade do Ser, gera o sagrado Sim, que afirma tudo que é bom e que é ruim.
De roupas negras como em um ritual fúnebre, Adriana Calcanhotto reencarna o samba no palco e toma-o como guia de sua nova criação musical, o Micróbio do Samba. Afirmando-se como “impostora do samba” ela serve-se livremente dos elementos primordiais desse ritmo que é historicamente um dos pilares da cultura brasileira, simbolo de um povo integramente miscigenado. Da força dos batuques (tamborim, agogô, cuíca) de tradição afro-brasileiras (referencias diretas a Mangueira), a levada quebrada e malemolente do violão. Dando continuidade a uma tradição do cancioneiro popular, em suas letras (esse é seu primeiro álbum somente com composições próprias), a crônica dos relacionamentos amorosos entre homem e mulher surge como tema central, seguindo a linhagem de celebres compositores que também narravam as belezas e desventuras do amor na vida cotidiana, das paixões não correspondias, dos abandonos , traições, mentiras e reencontros, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, e principalmente seu conterrâneo do sul, Lupicínio Rodrigues. De quem ela tomou emprestado o titulo do álbum,que se tornou uma perfeita metáfora para sua obra, posto que é samba sem ser samba. É com certeza algo que partiu do samba e foi além, como se o samba surgisse mesmo com um parasita, um corpo estranho que através da permanência no tempo se fundiu a seu hospedeiro em uma metamorfose criadora que gera o novo, ou a reinvenção do antigo. Assim ela pratica um exercício brasileiríssimo e de influencia oswalde-andradiana, a antropofagia. Só que agora já não é exatamente como os tropicalistas, que renovavam sua musicalidade unindo o tradicional da cultura brasileira a elementos externos como o rock e da contracultura norte-americana. Na verdade ela se alimenta do próprio passado cultural brasileiro, uma antropofagia de si mesmo, uma volta do Brasil ao Brasil. Não como no paradigma do maguebeat, de unir o local ao global (como simboliza a capa do primeiro álbum de Chico Sciance, “Da Lama ao Caos”; uma antena parabólica (referencia ao álbum de Gilberto Gil, “Parabolicamará”) ligada ao mangue), mas sim na questão de ligar o contemporâneo ao tradicional, reciclando o Brasil de ontem no Brasil de hoje. Mesmo porque atualmente é difícil classificar o que seria um elemento externo, já que vivemos o auge da globalização, onde tudo está, mais do que nunca, interligado. O problema se deslocou dos espaços (interno e externo/global e local) para a sincronicidade e dos múltiplos tempos.
Como compositora habilidosa, Adriana revê sambas antigos, que criaram a imagem do Malandro (arquétipo da mitologia brasileira), mulherengo,sambista da mangueira, sempre esperando o carnaval e pronto para deixar uma mulher aflita em sua ausência. Mas Adriana inverte a situação e traz a narrativa para o olhar da mulher contemporânea pós-feminista, criando um tipo de anacronismo dentro das próprias estruturas do samba, entre o ritmo e a temática narrativa da canção. Uma ponte entre o passado e o presente. O ritmo mantem-se ligado a elementos do tradicional, enquanto a letra revela as novas condições da mulher (em em uma era onde temos a primeira presidenta do Brasil, ou seja realmente muita coisa mudou para as mulheres). Surge uma nova imagem de mulher, não mais uma mulher ingenuamente apaixonada e entregue a seu homem, querendo agradá-lo de todas as formas para tentar prendê-lo, como canta Chico Buarque: “Com açúcar com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa”. Ou a mulher passiva e amorosa, sempre disposta a perdoar, como se ouve na mesma música: “Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança, pra chorar o meu perdão...ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, como vou me aborrecer...logo vou esquentar teu prato, do um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você”. Ou na música de Ary Barroso, “Camisa Amarela” eternizada na voz de Nara Leão, que conta de uma mulher que corre atrás do marido no carnaval, mas só o reencontra depois da quarta-feira e ainda afirma: “Gosto dele assim, passada a brincadeira ele é pra mim”. Agora o que se tem é uma mulher em pé de igualdade com os homens, independente e decidida. Uma mulher do samba, que larga o homem em casa e vai pra mangueira, como mostra a canção “Ta na minha hora”. Pois agora ela já não depende só do amor de um homem, ela tem outras prioridades, sua vontade é autônoma, e assim ela diz ironicamente: “Não chora, neguinho não chora, o meu coração e verde e rosa”. Uma perfeita inversão da música de Nélson Cavaquinho “Vou partir”, onde o personagem masculino diz: “Vou partir, não sei se voltarei, tu não me queiras mal, hoje é carnaval”.
A questão da retomada de vida da mulher abandonada, já era tratada na canção “Olhos nos Olhos” de Chico: “Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos olhos,quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais”. Porém nela, apesar do eu lirico feminino afirmar estar refeita, e dizer que outros homens já a amaram melhor que o antigo, ainda se sente no tom da música um sentimento de tristeza não sublimada, um leve sofrimento latente. Mais parece na verdade, uma vã tentativa de fingir aceitar a perda de um amor que ainda doí. Há um jeito orgulhoso e dissimulado em suas afirmações. O que dizer então da expressão de desespero da personagem da música “Atrás da Porta”, de Chico, interpretado com uma paixão lancinante por Maria Bethânia: “Quando olhaste bem nos olhos meu
E o teu olhar era de adeus, juro não acreditei, Eu te estranhei, me debrucei, Sobre o teu corpo e duvidei,E me arrastei, e te arranhei,E me agarrei nos teus cabelos, Nos teus pelos, teu pijama, Nos teus pés, ao pé da cama, Sem carinho, sem coberta, No tapete atrás da porta, Reclamei baixinho...” Uma mulher desolada, que não compreende e não aceita a separação. Uma mulher que trai, mas para se vingar do amor desprezado, adorando pelo avesso e afirmando na negação sua dependência: “Dei pra maldizer o nosso lar, Pra sujar teu nome, te humilhar, E me vingar a qualquer preço, Te adorando pelo avesso, Pra mostrar que ainda sou tua, Só pra provar que ainda sou tua”. Mas Adriana retrata outra atitude para situações semelhantes, como na canção “Pode se remoer”, onde a personagem afirma claramente e com segurança sua vingança amorosa bem sucedida e seu desprendimento do antigo amor, agora menosprezado por ter sido facilmente substituído:” Pode se remoer, se penitenciar, eu encontrei alguém que só quer me beijar”. Ou então em em “Beijo sem”, onde a personagem feminina se transforma depois de uma separação, e passa a correr atrás de seus desejos, decidida e sem nenhuma timidez ou empecilho moral, caindo então como antes faziam os velhos sambista, na orgia da noite da boemia: “Eu não sou mais, Quem você, Deixou, Amor,Vou a lapa, Decotada, Viro todas, Beijo bem, Madrugada, Sou da lira, Manhãzinha, De ninguém, Noite alta ,É meu dia, E a orgia, É meu bem”. Essa nova postura das mulheres não aparece só nas letras, está explicita na própria postura de Adriana Calcanhotto. Uma cantora, compositora e interprete contemporânea, não só talentosa, mas bem sucedida no mercado da música brasileira, bem aceita na mídia, e que mesmo assim não se permiti cair na reprodução massificadora, nem no modelo pronto do sucesso fácil, na imagem pública banalizada e satura pela TV. Ela esta sempre se reinventando, cada álbum seu é diferente e inovador. E esse último entrará sem dúvida entre as perolas da MPB, um clássico de nascença. Que segue bem a linha da também renovadora do samba Marisa Monte, que a poucos anos atrás revolucionou com o álbum “Universo ao meu redor”, a contenporanização do samba, também por uma ótica feminina, com canções tão belas como as do Micróbio do Samba, inclusive gravando uma das canções de Adriana, 'Vai saber”. Mas é bom deixar claro que se essas mulheres do samba, que estão mais fortes do que nunca, não são as únicas nem as primeiras, pois temos em nossa história uma linhagem de talentosas cantoras do samba, só para sitar algumas; Elizeth Cardoso, Elza Soares, Nara Leão e muitas outras.
No palco Adriana fez-se performance, sambando em movimentos lentos e caricatos feito um boneco de cordas tipo Arnaldo Antunes (incluindo o figurino que também leva um pitadinha do estilo dele, roupas largas como um pijama, panos sobre panos). E também uniu a performance a vertente experimentalista tão cara a música brasileira, de Hermeto Pascoal a Tom Zé. Ela tocou prato com faca, louça na bandeja, e na era do computador, trouce uma aparelhinho que era uma especia de cuíca eletrônica, modificou a voz com um megafone, criou batidas em aparelhos eletrônicos que ficavam sobre uma mesa, tipo filmes de ficção cientifica. Livrou-se das partituras tradicionais sobre o pedestal com um secador de cabelo (eletro demostênico, antigo simbolo da futilidade feminina, tornado arma), e elas esvoaçaram pelo palco, como o simbolo de um recomeço musical, o fim das amarras e do controle das partituras caretas. Além disso renovou um clássico de Paulinho da Viola, “Argumento”, e utilizou a música em um sentido metalinguístico, quando o refrão diz: “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim, olha que a rapaziada está sentindo a falta de um cavaco de um pandeiro ou de um tamborim”. Nesse caso a letra refece a própria desconstrução musical feita nos sambas de Adriana.
Por fim não poderia deixar de comentar a retomada marcante no álbum, do mito carnavalesco, fortemente presente em toda a história do samba. Mas o carnaval, não no sentido banal de festa da carne, mas em um sentido profundamente existencialista, como uma trégua para o ser humano, frente o inevitável destino de sofrimento e morte, uma libertação da frivolidade tediosa do cotidiano pelo transe do êxtase da multidão, dos batuques, da alegria contagiante e embriagante. Esse é o verdadeiro sentido do carnaval enquanto metáfora de uma existência sofrida e inútil, mas que pode ser absolvida por um único instante fugas e eterno de liberdade, prazer e sonho, como uma tipo de Sim nietzschiano, afirmando a vida. Como diz Caetano Veloso, “carnavalizar a vida coração”. São inúmeras as letras de samba que tratam do tema carnaval, que está presente na música “Tão chic” do Micróbio do Samba, com direito a confete, dedos erguidos ao ar, e ao final, braços abertos ao infinito. A letra diz assim: “Tão chic, tão cheia de sí, tão triste, me ousa, a vida voa, baixinho, se vai ver, já é, eu quero teu amor eterno, até a quarta-feira”. É claro que todo ilusão tem seu fim, e normalmente e mais rápido do que gostaríamos, por isso a quarta-feira é sempre de cinzas, pois marca o fim do êxtase carnavalesco. Assim também diz um samba de Chico Buarque: “Carnaval, desengano, deixei a dor em casa, me esperando, e brinquei e cantei e fui, vestido rei, quarta-feira sempre desce o pano”.
A marchinha de carnaval também é tradição dos carnavais de rua no Brasil. Caetano lançou nos anos 70 um celebre álbum intitulado, “Muitos carnavais”, uma magnifica retomada da marchinha carnavalesca. Adriana também passou por essa tradição, e também inverteu o sentido comum das letras com seu olhar feminino e contemporâneo. Mantendo o tom escrachado e cômico das marchinhas, ela canta na música “Deixa Gueixa” (que já é um trocadilho no título): “Deixa, gueixa deixa, Deixa eu te fazer um chá, Deixa queixa deixa, Deixa eu lavar a louça”. Na canção a gueixa, típica representação da submissão feminina pela tradição oriental machista (que pode facilmente ser aplicado a outras culturas) vem ao ocidente e um homem apaixonado faz tudo para agradá-la, implora quase para lavar a louça (típica função feminina no universo machista e tradicional), e ainda completa: “É assim no ocidente, E eu te explicaria, Tim tim por tim tim pudesse, Nunca mais tu chorarias”. Ou seja, no Ocidente, mais do que nunca a mulher ganhou seu espaço e descobriu sua força sobre os homens, a louça já não é sua obrigação, e é a gueixa agora que e servida com o chá.
É fácil perceber o paradigma de Heráclito, o de que tudo está em constante movimento, por isso, tudo muda, nada permanece se não o próprio ciclo das mudanças. Basta observar as folhas que caem das árvores na calçada, apodrecem, morrem, e novamente nascem. Passando de um verde robusto, a um amarelo pálido sobre o sol, até um marrom seco e moribundo, para enfim tornar-se alimento da terra, e logo, de volta ao topo das árvores no regresso da nova estação. Ou os pêlos do rosto, que cressem desgovernados mesmo quando insistimos em raspa-los, pois não se pode controlar totalmente o corpo, ele também tem suas leis, e se mexe, se transforma, envelhece, adoece. E os mesmos pêlos que crescem viram um dia a cair, com a mesma certeza que temos de que nos espera a Morte por detrás do horizonte. E o rosto está sempre a mudar diante do espelho, como um mosaico que se pode remontar. Da mesma forma o planeta, sempre em um silencioso movimento transformador, de rotação, de translação, de aliteração. Os movimentos internos, o intestino do mundo, as eras geológicas, os dinossauros, depois os macacos, quem sabe logo as máquinas dos contos de Asimov, a evolução, a involução, a mutação. O universo é marcado pelo signo da transitoriedade e da repetição. Essa lei do universo, regida implacavelmente pelo Tempo-Rei, que tudo cria e tudo devora, pode vir a ser perturbadora aos espíritos que sobre ela se deterem em reflexão. O que fazer frente a esses ciclo de mudanças infinitas, esse Samrara vertiginoso nesse globo da morte, que apavora nossa fragilidade e efemeridade com sua monstruosidade inevitabilidade?
E eis que se fez o verbo!
O que se ganha com a palavra é a possibilidade de se elevar a realidade das coisas e dos seres a um novo nível, onde surge um novo campo de ação. Onde nos desprendemos do instante, nos abstraímos do aqui e agora e esquecemos temporariamente a urgência da vida. A linguagem busca um certo controle sobre o real, múltiplo e desordenado. A linguagem vem de um principio organizador, catalogador, virtualizador, que tem como função primordial a organização do trabalho coletivo. A palavra transmite grosseiramente sensações e pensamentos (na verdade ela nasceu gêmea do pensamento) através de associações e generalizações, que parecem gerar um tipo de controle sobre as coisas ao nosso redor e sobre o que podemos fazer delas sem elas saberem. Quando digo gato, me refiro a uma espécie com muitas singularidades e variações entre seus membros. Mas a palavra gato, ao ser pronunciada transforma todo um gênero animal diverso, em signo, que reúne uma serie de características relativamente constantes capazes de invocar pelo som da boca, através dos ouvidos, a imagem que se guarda historicamente de um gato. Pois linguagem é memória coletiva. Ao dominarmos abstratamente a imagem do gato tornando-a em palavra, podemos agora inseri-la como carta em um baralho lingüistico, que nos possibilita agir sobre o gato, sobre o real, coordenar, articular, construir, dar significado e objetivo. A boca que pela primeira vez pronunciou os primeiros sons, ainda desarticulados, prenunciou a cultura.
Na palavra apoiamos nossa angústia de um mundo em eterna mutação, em uma vida mareada em um vai e vem cansativo. Onde a única certeza, é que o Ser, parece nunca Ser, parece que esta sempre no que virá. Com a linguagem governamos em um outro mundo que não o mundo que nos governa. A palavra já é simulacro, vive paralela ao real, o qual ela contem apenas em parte. E com isso erguemos nossa cultura, nossa história, nossa tradição, nossa sociedade, nossos hábitos e costumes, nosso dia a dia. Um castelo de palavras! E erguemos a cabeça todos os dias pela manhã, certos de que estamos vivos, e de que faremos no dia o que o dia necessita, tomaremos café, sempre com duas colheres de açúcar, os dentes bem escovados, o transito matinal pela mesma avenida, as noticias repetidas no noticiário da rádio, as pessoas transitando pelas ruas, os comprimentos cordiais, ao porteiro do prédio, a secretária, ao seu Joares da padaria, a fila do banco, as batatas fritas do almoço, a cerveja do fim de tarde, aquela mesma música cantarolada no chuveiro. Tudo para mantermo-nos distraídos do mais obvio e assustador, que a cada passo existe sempre a possibilidade do abismo, e de que o que ficou para traz, sempre regressa diferente.
Começamos a construção de nosso cotidiano na linguagem, nas palavras que repetimos todos os dias e que geram as mesmas situações, repetidas vezes. As palavras que guiam nosso porque e para que. Pronunciamos os signos sociais como chaves, onde portas podem se abrir ou se fechar. Nos transpassa e compõe todos os discursos acumulados da história, os discursos políticos, econômicos, estéticos, morais etc. Tudo contido como DNA da palavra. Nos fazemos entender pela constância dos sons que produzimos, pelos significados compartilhados e registrados, pela palavra do dicionário, nas gramáticas sociais. Nas palavras mais banis, nos gestos mais despercebidos, ai vive nosso cotidiano(olhar para os dois lados da rua como uma lei sagrada) essa repetição que parece recobrir toda a realidade com uma leve película de controle e tédio. Onde tudo parece certo e necessário. Como se realmente pudéssemos controlar o fluxo da vida e alinhar o tempo em nossas categorias cognitivas de passado, presente e futuro, e saber logo o que virá, com a mesma certeza que achamos que sabemos o que se foi. A linguagem inventa o cotidiano, que cria a sensação de constância, de continuidade, de objetividade. Dissimulamos no hábito herdado e construído, a verdade terrível, de que por debaixo dessa crosta de verdades arquitetadas e provisórias, estamos montados sobre o imponderável, o impassível, como se estivéssemos tragicamente atados sobre as costas de um tigre.
A palavra vem então para estabilizar, para sedimentar o conhecimento sobre o mundo em mundo conhecido. Mas a mesma palavra que sustenta nossos sistemas de crenças, também pode ela mesma subverter o próprio sistema, quebrar a cadeia lógica, escapar as regras da gramática, e reinventar o mundo inventado. Na palavra a seta para o infinito desconhecido. Esse é a palavra poética, que ao contrario da palavra dicionarizada, técnica, instrumental, que transforma as coisas em signos vazios, blocos de significados congelados que podemos jogar de um lado para o outro em nossas frases, na hipocrisia da retórica do convencimento. É uma palavra viva, autônoma, rebelde, livre, que diz o indizível (o que nem todos podem ouvir), que busca tocar o âmago das coisas, a gosma da existência intima, que invoca no espírito o imemorial. Não a palavra-controle, mas a palavra-amplidão. As reticências que sobram em cada poesia. O sentido oculto e único que cada sujeito nela pode imprimir. Ai surge a possibilidade da linguagem, pura artificialidade, tocar levemente a superfície do real, e se constituir como parte dele, como sua extensão no coração dos homens, como ponte para o Ser. A palavra que fluí, que não é mas esta em transito, que acompanha o devir do mundo. Não a palavra no papel, estéril, mas a palavra gravida, fértil, semente de girassol, que pula do papel e corre pelo espaço a fora. A palavra bruta, palavra-som, a palavra-pensamento, a palavra-sentimento que se transubistancializa na boca do poeta em palavra-materia, palavra-carne, palavra-mundo. Palavra que navega por sobre as ondas do tempo, na eternidade.
“Dai, no fim da minha vida, esta cinza que me cobre... Este desejo obscuro, amargo, anárquico de me esconder, mudar o ser, não ser, sumir, desaparecer, e reaparecer numa anonima criatura sem compromisso de classe, de família.” (Cora Coralina)
“É no azul que se encontra esta profundidade e, de maneira teórica, jé em seu movimento: 1° - movimento distanciamento do homem; 2° - movimento dirigido para seu próprio centro. O mesmo ocorre quando se deixa o azul agir sobre a alma. A tendência do azul para o aprofundamento torna-o precisamente mais intenso nos tons mais profundos e acentua sua ação interior. O azul profundo atrai o homem para o infinito, desperta nele o desejo de pureza e uma sede de sobrenatural. É a cor do céu tal como se nos apresenta desde o instante em que ouvimos a palavra céu” (Kandisky)
“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança”. (Oswald de Andrade – Manifesto da Poesia Pau Brasil)
"Se Deus existe, então toda vontade é Dele, e fora da vontade Dele nada posso. Se não existe, então toda vontade é minha e sou obrigado a proclamar o arbítrio". (Dostoiévski- Os Demônios)
"...nada no mundo o impedirá de ver, de recolher e reconhecer a Verdade da míseria do mundo. Da miséria dos homens. O intelectual verdadeiro, por tudo isso, sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário, pessimísta, cético e cínico: um fora da lei. (Mario de Andrade)
"Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela". (Epicuro)
"“E longos carros fúnebres sem música nem tambor, Desfilam lentamente na minha alma; a Esperança inteira, Vencida, chora; a Angústia atroz desfralda a dor E despótica implanta no meu crânio a sua negra bandeira.” (Charles Baudelaire)
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte." (João Cabral de Melo Neto)
“Minha condição é muito pequena. Sinto-me constrangida(...)O meu descompasso com o mundo chega a ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e ficou apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição(...) A condição não se cura, mas o medo da condição é curável.” (Clarice Lispector)
"O que se pode prometer - Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que normalmente são consequência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. a promessa de sempre amar alguém significa, portanto: esquanto eu te amar, demostrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo." (Nietzsche)
"Reconheço hoje que falhei; só pasmo,às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa dos loucos...Era lúcido e triste como um dia frio." (Bernardo Soares)
" A cidade não pára a cidade só cresce o de cima sobe e o de baixo desce" ( Chico Science)
"Os mesmos fatores que assim redundaram na exatidão e precisão minuciosa da forma de vida redundante também em uma estrutura na mais alta impessoalidade; por outro lado, promoveram uma subjetividade altamente pessoal. Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado à metrópole quanto a atitude blasé" (George Simmel).
" A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta; a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. E lambelonga, lambelenta, a licorina gruta cabeluda, e , quanto mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu, entre gemidos, entre gritos, balidos e rugidos de leões na floresta, enfurecidos". (Carlos Drummond de Andrade)
"Sobre as constantes divagações provocadas pelo haxixe: antes de mais nada, a incapacidade de ouvir. Por mais que ela aparentemente contrarie aquela infinita condescendência para com os outros, são coisas que estão na verdade profundamente imbricadas. Basta que o parceiro abra a boca para que ele nos inspire uma decepção sem limites. O ele diz soa muito aquém de tudo o que, se ele se calasse, nós lhe atribuiríamos de bom grado. Ele nos decepciona dolorosamente ao desconsiderar aquilo que, no transe do haxixe, constitui o foco de atenção por excelência: nós mesmos." (Walter Benjamin)
"Sem contrários não há progresso. Atração e Repulsão, Razão e Energia, amor e Ódio são necessários à existência Humana. Desses contrários saem o que os religiosos chamam Bem e Mal. O Bem é passivo que obedece à Razão. O Mal é o ativo que vem da Energia. O Bem é o Céu. O Mal é o Inferno." (Blake)
"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo". (Foucault)
" Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada". (Clarice Lispector)
" Não, não é cansaço...É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, É um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo... Não, cansaço não é... É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Com tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais" (Álvaro de Campos)
"Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é o mesmo e nós também não" (Heraclito de Éfeso)
"A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbarndo em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra." (Sérgio Buarque de Holanda)
“Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode” (Sartre)
“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que a explique e ninguém que não entenda.”(Cecília Meireles)
"Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos."(Marx)
"O que é o ser eterno que nunca nasce? Como é aquele que nasce sempre e que nunca existiu?" (Platão)
"Zombar da filosofia é verdadiramente filosofar" (Pascal)
" As vicissitudes de nossa vida semelhan as figuras do caledoscópio: sempre que o fazemos girar, vemos algo diverso, mas na realidade o que temos diante dos olhos é sempre a mesma coisa." (Schopenhauer)
A Força
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"A ação perfeita é devoção". Li em algum livro de ocultismo da Helena
Blavastky, e nunca me esqueci, no meu coração sentia que era a mais pura
verdade. Des...