terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Outro


Quem sou eu? Corpo, alma, sonho, desejo, ou simplesmente um reflexo tênue  no fundo dos olhos alheios? Sou eu o desacordo entre o que penso e o que sinto, ou o que pensão e sentem de mim?
Minha pífia personalidade é como uma sombra por sobre a desfalecente luz do crepúsculo, que a qualquer momento pode desaparecer deixando o Vazio que ecoa no silêncio da noite obscura e profunda...  
Quem sou eu se não o Outro? Meu oposto semelhante, que me exige e assombra. Prova material de minha existência externa, espelho que me revela, opaco, translúcido ou invisível, que me encanta e aterroriza como o canto de sereias que esconde o naufrágio.
O que querem de mim os olhos vorazes que me cobram, as bocas sedentas que me invocam, as mãos impiedosas que me agarram e repelem?
O que são essas sombras que me povoam, esses reflexos disformes, essas imagens inconsistentes? Serão simulacros do meu pequeno e insípido Ser, ou do grande Ser do mundo, fantasmas da imaginação, cacos de memórias perdias, Tempo compactado ou disperso? Tudo o que não sei, tudo o  que busco desesperadamente saber!
Quem é o Outro? O que quer ele de mim?! ...O que quer...ele? de mim...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Os tempos da melancolia


    É comum no mundo da arte, encontramos pintores ou poetas que sofrem desse antigo mal do espírito, a melancolia. Ou será ela um estado excepcional de sensibilidade que enriquece a produção artística? A palavra melancolia se associa facilmente a tristeza, apatia, tédio, desalento, meditação, morte, mas afinal o que é esse sentimento misterioso, como ele se deu na história dos homens, como ele se da hoje?
    As teorias pré-modernas ou pré-freudianas que tratam da melancolia a definiam como uma espécie de mal-estar que denunciava o desajuste de alguns membros de uma determinada sociedade as condições do laço social. O melancólico da Antigüidade até o Romantismo  era representado como alguém que perdeu seu lugar frente a sua  versão imaginário do Outro. Consumido em ruminações, arrependimentos, dúvidas e investigações, o melancólico se sente deslocado de seu mundo e de seus semelhantes, e busca uma solução para o enigma do que o Outro espera dele.
    Na Antigüidade, Hipócrates atribuía o caráter excepcional do melancólico ao excesso de bile negra, responsável pela predominância dos ventos sobre outros elementos que compõem o corpo (teoria dos 4 humores). Isso explicava a inconstância, o abatimento e a predisposição a “sair de si”  que apresentava o melancólico. Para Aristóteles todos os homens que exceleram em qualquer domínio eram melancólicos. Ocorre que pela volubilidade do caráter do melancólico, sua capacidade de “tornar-se outro”, que predispõem à arte poética por seu talento para a mímese, faz  dele um indivíduo instável, que oscila perigosamente entre a genialidade e a loucura  (estados da alma  que só se diferenciam por grau).
    Na Idade Média a melancolia associava-se ao pecado capital da acídia, mais tarde substituída pela preguiça. Para Tomás de Aquino a acídia era o enfraquecimento da vontade o que prejudicava a resistência do  homem diante das tentações do diabo.
    Só no Renascimento a melancolia readquire um certo prestigio. De acordo com o pensamento antropocentrico, o homem era convidado a encontrar em si mesmo a medida de suas próprias escolhas e construir seu lugar no universo. A melancolia vinha então da angústia diante da escolha e da descoberta de si. Ao mesmo tempo o desenvolvimento científico do período  renascentista levou a um desencantamento do mundo e a um ceticismo agudo que também pode levar ao abatimento melancólico do homem que busca resposta sobre o universo, mas não as encontra.
    No Romantismo o sentimento de melancolia atinge seu auge, pois era o próprio símbolo da genialidade e sensibilidade romântica.  Visto também como uma desarmonia entre o homem e o mundo, desta vez voltado para a perda de uma união idílica com a natureza e a eterna busca por completude amorosa com Outro. 
    Enfim na Modernidade a melancolia assume a imagem do poeta Charles Baudelaire, que em suas poesias intituladas “Spleen” denunciava o tédio e o vazio da vida burguesa nas grandes metrópoles industriais, o isolamento em meio as multidões, o individualismo e a perda dos laços sociais. Parente da doce melancolia romântica, o spleen  conjuga gozo e desencanto, misantropia e gosto estético pelo mal. Somente depois das teorias de Freud é que a melancolia passou a ser vista como um distúrbio psíquico ligado ao complexo de castração, afastando-se de vez das representações ligadas ao sublime e a genialidade. Hoje a melancolia é associada a depressão, entre doença e sintoma social, o que se sabe é que sua ocorrência tem crescido e que as tentativas de combate-la também, criando-se envolta do tema um grande mercado de consumo, desde livros de auto-ajuda, religiões de todos os tipos, antigas ou recentes e medicamentos e terapias.
    Destaco duas questões que me intrigam sobre a melancolia. A primeira retoma a proposta estética de Baudelaire, presente em Flores do Mal. Assim dizia o poeta em seu prefácio: “Há muito já que poetas ilustres partilharam entre si as províncias mais floridas do domínio poético. Pareceu-me divertido, e tanto mais agradável quanto mais difícil era a tarefa, extrair a beleza do Mal” Enfim perdura a questão, o mal, o melancólico, o tenebroso, podem ser fontes do belo? A resposta e sem duvida difícil e polemica, e por isso tal reflexão nunca se esgota com o tempo, ao contrario, enriquece-se com seu passar. Quanto a mim encontrei o que necessitava nas páginas de Baudelaire! E sempre que torno a le-las sinto todo meu mal se transmutar.
    A segunda  questão é uma problemática mais contemporânea, e de cunho sociológico, que envolve a nossa forma de lidar com o tempo e nossa busca desesperada pela felicidade. Em uma sociedade do espetáculo e do consumo, onde o que predomina é o imperativo do gozo, do prazer intenso e instantâneo, da felicidade proposta em cada propaganda de TV e compacta em cada mercadoria banal, ainda há espaço para se sentir melancólico, ou tudo que se relaciona a tristeza é visto como anomalia e deve ser extirpado o quanto antes com drogas antidepressivas? O homem contemporâneo em seu regime industrial de alta produtividade e sua febre consumista terá ainda tempo para pensar nas tristezas da vida, nas perdas , e na morte, ou mesmo  para se questionar no que consiste a   verdadeira felicidade? Antes de tudo o tempo do melancólico, seja em qualquer época, é um tempo muito mais lento e subjetivo do que o tempo do relógio e do trabalho, será que podemos nos dispor desse tempo dos dias de hoje?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O soberano

Um dia desses qualquer, sentei-me em um boteco desses que ficam na parte de traz da comercial das superquadras. Era um lugar pequeno, simples e com um estética undergroud de abandono e imundice. Porém, as mesas postas em baixo de uma marquise, ficavam de frente para a uma área bucólica, um grande jardim repleto de belas arvores, o que criava uma paisagem calma e agradável. Poucas mesas estavam ocupadas, de um lado um casal, do outro um grupo de velhinhos jogando cartas, mas não pude deixar de reparar em uma mesa ao fundo, no canto, a figura de um homem sentado sozinho. Era um senhor de barba grisalha, grandes óculos quadrados e uma boina tipo francesa.  Em cima de sua mesa uma garrafa de cerveja e um copo com uma generosa dose de cachaça, de cor amarelo escuro como um veneno forte. O homem fumava um cigarro como se fosse um imortal para quem o tempo não existe. As longas e profundas tragadas que cobriam seu semblante de fumaça dando-lhe um ar misterioso, denunciavam o prazer e a dedicação a ação. Os olhos por de traz das lentes pareciam dois peixinhos dourados perdidos em um aquário. Ele mirava resignado o Nada, e voltava toda a sua atenção para o além do além, para o vago, o abstrato. Tudo ao seu redor eram inúteis banalidades, e sua solidão parecia infinita. A face rija não transparecia paixão ou desespero. O homem era pura melancolia. E imerso nessa melancolia ele parecia um soberano, altivo, nobre e intocável, como se nada nem ninguém pudesse abalar seu humor introspectivo. Ele ergueu como que uma torre de marfim, e isolado nas alturas observava o mundo dos homens como se fosse um enorme formigueiro, tão belo quanto insignificante.
    Não sei dizer bem o porque, mas não conseguia parar de olha-lo, algo em sua imagem invocava em minha alma sentimentos obscuros, enigmáticos, insondáveis. Ao contrario do que se pode pensar, sua brutal indiferença a tudo  não me dava a impressão de prepotência, mas sim de um recolhimento integro e sensível, de quem corajosamente encara de frente suas tristezas e coroa sua fragilidade como o que há de mais humano, diferentemente do que o mundo hoje prega. Isso despertou em mim uma profunda compaixão, mas compaixão não no  sentido de piedade, pois em sua imensa dignidade ele não merecia isso, mas sim compaixão no sentido de identificação com a dor alheia, como quem reconhece um irmão de sofrimento. Pois na verdade todos sofremos de uma forma ou de outra, a diferença é que para uns isso é como uma chaga que deve ser coberta, escondida, ignorada, renegada, para outros mais sóbrios sobre a existência, o sofrimento é um preço a ser pago inevitavelmente por se ter uma vida sensível, um mal que não impede que dele brotem flores. Por um instante pensei em aborda-lo, quem sabe dizer-lhe algo ou apenas cumprimenta-lo, mas não. Preferi o silêncio que poupa da tolice. Há coisas que devem ser guardas em segredo, no fundo dos olhos, para preservarem sua beleza rara. Como as bolas de sabão, delicadas a visão e avessas ao toque.
    Em verdade, devo dizer que tudo que vi despretensiosamente naquele velho homem singelo, não poderia ter visto se não fosse tudo um reflexo de mim mesmo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O lugar da Arte

Convenço-me não sem duvidar, de que a Arte é a única coisa que pode preencher o imenso vazio que sinto em meu peito. Vazio esse que nasce dos primórdios da origem do Desejo. A Arte em seu sentido metafísico, diretamente ligado a condição humana, aliada da consciência em sua missão de dissimular a vida, e ao mesmo tempo da inconsciência em sua missão de guardar os mistérios da vida.  Somente ela pode realmente acalentar  meu coração, aquecer minha alma e incitar-me a mover, a fazer, a criar. A dar valor as coisas externas por saber que no fundo as coisas em si não tem valor nenhum, que a vida, esse presente grandioso e irônico dos Deuses, é na verdade gratuita e inútil. E só resta sonhar, cultivar ilusões, que  nunca são totalmente falsas, pois sempre carregam um dose de verdade e realidade. A arte que externaliza o interno e internaliza o externo em um constante processo dialético entre o indivíduo e seu mundo, transformando  para o homem o universo estranho e hostil, em  seu infinito particular. A Arte antídoto contra o Desespero, manto da beleza que cobre o horror da Morte, palavra iluminada contra a escuridão do Nada. Assim entendo a Arte, e como diz o poeta; “a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver”.
    Cabe a um homem sóbrio dedicar-se a uma atividade inútil, e sabendo-a inútil pratica-la com amor e sem pesar, como se nada mais importasse (e não importa!). Nisso consiste a saga do artista, seja qual for sua arte, cientista ou pintor, agricultor, pedreiro ou operário, gênio, louco ou comum, pois no fundo toda atividade essencialmente humana é a principio artística, porque tudo que se faz com Verdade se faz com Arte, e a verdade é a arte de bem mentir.
     Assim sendo, porque não enganar-me?  Fazendo da minha vida uma pintura, opera ou filme, onde eu finja ser grande poeta, e tal como um ator esquizofrênico que entalha as próprias máscaras, representar a tragédia de minha existência, mesmo que eu seja o único espectador solitário de mim mesmo, mesmo que minhas palavras nunca saiam desse quarto, nunca encontrem a luz do sol da realidade, nunca soem aos ouvidos de gente.  Queria que todo o meu Medo, Solidão, Angustia e Melancolia, explodisse em Beleza eterna e vingadora!

sábado, 5 de junho de 2010

A poética do espaço de Van Gogh


O quarto é pequeno, estreito e simples, desprovido de qualquer tipo de ornamento espalhafatoso que chame a atenção ou se destaque de seu contexto. Os poucos móveis e objetos parecem cada um ocupar seu devido lugar, inertes na eternidade. Os quadros postos na parece por sobre a cama demonstram um cuidado singelo e significativo a estética de um espaço que se propõem aprazível, mesmo sendo rústico. Em um deles, na cabeceira da cama, se vê uma paisagem campestre calma e reconfortante, com destaque central a uma arvore, talvez uma oliveira.  Em outros dois quadros se vê o retrato de um homem de barba e cabelos ruivos e uma mulher loira. Quem sabe sejam um casal de amantes, esposo e esposa, ou talvez uma lembrança de um amor perdido, alguém que partiu, ou ainda uma imagem meramente simbólica, de um amor esperado e não encontrado, de um futuro imaginado que guarde o amor vindouro. As portas e janelas do quarto estão fechadas, por elas não passa nenhuma luz. O quarto esta como que isolado do mundo externo, fechado sobre si mesmo ele constitui um universo a parte, independente das conturbações do mundo lá fora, ele permanece calmo, fixo, intocável, impenetrável e profundamente  íntimo. Que segredos íntimos da alma de um homem pode guardar um quarto, em seus cantos ou gavetas, por debaixo do travesseiro ou da cama, ou quem sabe em um cofre ou passagem secreta? O espaço de uma intimidade não pode ser medido geometricamente, independente de sua altura ou largura ele é sempre profundo em sua vontade de aconchego e proteção. O quarto possui cores diversas e vibrantes, o que evita de tornar seu espaço mórbido ou soturno, apesar do tom de melancólico (tristeza resignada) de solidão e isolamento. As cores parecem concordar plenamente entre si, uma se apoiando na presença da outra, nada se destaca de mais ou de menos. O vermelho escarlate do cobertor parece que ainda guarda um pouco do calor do corpo de quem ali se deitou outrora, e convida ao observador a também se deitar ali para uma boa noite de sono. Se o dono do quarto já se foi, o quarto como entidade espacial parece ainda adormecido, perdido em sonhos distantes e tranqüilos. E o sonho, do quarto e do dono do quarto, parecem ser o principal constituinte da aura dessa pequena morada do Ser, que vive, dorme e habita o espaço.
    Nesse quadro feito por Vincent Van Gogh, por volta de setembro de 1889 na província francesa de Saint-Rémy,  retrata o quarto que foi sua morada por algum tempo dentro do hospício de Saint-Paul-de-Mausole. O fato de sabermos que era o quarto de um hospício cria um forte contraste ou paradoxo entre o ar de intimidade e acolhimento que a obra traz e a realidade um tanto quanto cruel de um hospício. Conhecendo a biografia de Van Gogh, sabemos que sua vida não teve grandes sucessos e reconhecimento. Ele nunca conseguiu se sustentar, dependendo sempre do irmão e vivendo em muitas situações de dificuldade financeira. Além disso teve constantes distúrbios mentais ao longo da vida, crises de loucura, tentativas de suicídio. Tudo isso levou-o a internar-se por conta própria em um hospício. Mas se Van Gogh era assim tão perturbado a ponto de se internar, porque ele retrata o quarto de sua “prisão” com tamanha intimidade, conforto e uma simplicidade aconchegante, se ali ele estava exatamente por causa de seus sofrimentos?
    A obra de Van Gogh se destaca na história da arte por marcar o inicio do processo de independência da representação artista frente ao  compromisso em retratar a “realidade” externa como ela é. As cores e as formas na obra de Van Gogh não mais se prendem as convenções da realidade socialmente compartilhada,  e das correntes artísticas acadêmicas, elas seguem livremente os sentimentos, emoções e estados de espírito pelos quais o pintor passa. Isso nos ajuda a pensar um pouco sobre a obra em questão.  A realidade pessoal vivida por Van Gogh nesse período era delicada e perigosa. Ele estava na imanência de sofrer  um surto de loucura derradeiro, ele temia seu futuro incerto. Mas sua arte sempre foi sua muleta, sua esperança, seu amor. Van Gogh buscava em sua arte a utopia de uma vida melhor. A criação de um espaço pictórico contribuía para a constituição de um espaço imaginário que ajudava a amenizar a dor da vida.  Van Gogh encontrou no hospício de Saint-Paul-de-Mausole, que no passado fora um mosteiro agostinho do século XII,  um lugar de isolamento, proteção e meditação. Pensando dessa forma entendemos um pouco os motivos do artistas ao criar em sua pintura do quarto uma versão afável de um espaço que a principio era opressivo. 
    Em uma carta enviada ao irmão Théo, Van Gogh descreve o quadro:
“Desta vez trata-se simplesmente de  meu quarto, só que aqui a cor é que tem que fazer a coisa e, emprestando através de sua simplificação um estilo maior às coisas, sugerir o descanso ou o sono em geral. Enfim, a visão do quadro deve descansar a cabeça, ou melhor, a imaginação. As paredes são de um violeta pálido. O chão é de lajotas vermelhas. A madeira da cama e das cadeiras é de um amarelo de manteiga fresca, o lençol e os travesseiros, limão-verde bem claro. O cobertor, vermelho escarlate. A janela verde. A mesinha, laranja, a bacia, azul. As portas, lilás. E pronto – nada mais neste quarto com os postigos de janela fechados. O efeito dos móveis também deve exprimir um descanso inviolável(...) Amanhã eu também trabalharei nele o dia inteiro, mas você pode ver como a concepção é simples. As sombras, próprias e projetadas, foram suprimidas; foi colorido com tintas planas e chapadas como os crepons. ” .
O descanso, o sono, a imaginação, são palavras que se destacam na carta de Van Gogh. Ele sabia que a arte é um livre exercício de imaginação, sabia da força das cores, e sabia que o que precisava naquela situação em que se encontrava era de descanso.
    O filosofo Gaston Bachelard ao tratar sobre as imagens do espaço poético,  afirma que quando tomamos uma nova morada, aplicamos a ela nossas lembranças de todas as moradas que já tivemos, principalmente de nossa morada da infância, o aconchego do primeiro lar. Assim vivemos projeções de felicidade e  proteção. Ao que parece, Van Gogh buscou ao longo da vida na arte uma forma de estar no mundo, de habita-lo em toda a sua intimidade, mesmo frente a uma sociedade que o oprimia e rejeitava. A imagem do quarto pintada por Van Gogh remete-me a imagem poética citada por Bachelard, sobre a cabana do eremita.
“A cabana do eremita é um tema que dispensa variações. A partir da mais simples evocação, a repercussão fenomenológica   apaga as ressonâncias medíocres. A cabana do eremita é uma gravura que sofreria de um excesso de pitoresco. Deve receber sua verdade da intensidade de sua essência, a essência do verbo habitar. Logo, a cabana é a solidão centralizada. Na terra das lendas, não há cabana média. O geógrafo pode bem trazer-nos, de suas longínquas viagens, fotografias de aldeias de cabanas. Nosso passado de lendas transcende tudo o que foi visto, tudo o que vivemos pessoalmente. A imagem nos conduz. Vamos à solidão extrema. O eremita está só diante de Deus. A cabana do eremita é o antítipo do mosteiro. Em torno dessa solidão centrada irradia um universo que medita e ora, um universo fora do universo. A cabana não pode receber a menor riqueza deste mundo. Tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma gloria da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio” .
    O quadro de Van Gogh constitui um espaço pictórico e imaginário que remete a imagem poética citada na passagem de Bachelard, que também  pode ser aplicada a outros quadros de Van Gogh, como por exemplo as cenas das casas de camponeses no interior da Holanda e da França que ele tanto gostava de pintar. Casas cheias de simplicidade material e integridade de espírito. O quarto representa simplicidade e até pobreza do espaço, mas por outro lado revela a busca de um lar perdido, de uma morada segura e confortável, ao mesmo tempo que demostra a situação de carência, solidão e recolhimento de Van Gogh diante do mundo.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A melancolia


A melancolia é uma espécie de tristeza resignada. Sem objeto fixo, sentimento ou lembrança que a retenha ou represente, é totalmente abstrata. Provem de tempos imemoriais , de primitivas tristezas tão profundas quanto as raízes do Ser. E de tão antiga já não se manifesta como estranhamento ou desconforto, é sim como um desalento acanhado e sóbrio de quem mira a existência sem pesar, mas com a fatídica percepção de que tudo é vão. Há nisso uma beleza triste, como a de quem se cansa de ser feliz e deixa a alma descansar em paz, contemplando o ínfimo infinito no olhar perdido para o além.

domingo, 2 de maio de 2010

Impressões de uma viagem



Por conta de minha graduação na universidade e afim de evitar comemorações exacerbadas e festanças desmedidas entre familiares e amigos, o que iria me constranger, pois a universidade muito mais do que um diploma me ampliou o senso critico mostrando-me o quanto minha conquista era importante e ínfima frente aos infinitos e tortuosos caminhos o conhecimento. Preferi optar então por uma singela viagem, que muito melhor do que uma festa me serviria de retiro espiritual, uma oportunidade para refletir sobre as incertezas de meu futuro e sondar a fundo meus mais secretos desejos e sonhos.
Escolhi, não por acaso, a bela cidade de Ouro Preto. Muitos motivos poderiam elucidar minha escolha tão certeira, entre os mais destacáveis posso escolher dois; meu singular gosto por cidades históricas que guardam em sua arquitetura as marcas do tempo como prêmios, e mais parecem museus a céu a aberto; e minha constante e incansável busca e apreensão de valores estéticos e identitários que possam constituir minha alteridade, e portanto, nada melhor que regressar as raízes mineiras de minha família, e buscar no interior desse estado a alma de meus antepassados que muito falam sobre mim. Além de tudo o ar de cidade pequena acalma os nervos e convida ao devaneio. E mesmo repleta de ladeiras íngremes que dificultam a locomoção, aquelas calçadas de paralelepípedo foram a passarela de meu exercício de flâneur.
Tomei um ônibus e a viajem apesar de relativamente curta, não foi das mais confortáveis. Mas ao som de Milton Nascimento preparei meus sentidos para o que me esperava por entre aqueles morros misteriosos de Minas Gerais. Cheguei logo ao amanhecer, o sol anda tímido surgia por entre os morros exuberantes que cercam a cidade. Respirei fundo aquele ar fresco com sabor de novidade e partir para o primeiro reconhecimento da cidade que se me apresentava bela e misteriosa com suas muitas historias escondidas em cada pedra da rua, cada telhado de casa, em cada janela e em cada porta que pareciam dar para um passado distante e ao mesmo tempo presente. As ruas ainda estavam imersas por um leve névoa, o que criava uma atmosfera européia, que se completava com o frio que fazia, muito além do que estou acostumado. Ser forasteiro em uma cidade e saber que absolutamente ninguém ali sabe quem sou ou de onde venho, por isso ninguém exige ou espera nada de mim, isso me dava uma grande sensação de liberdade, pois nenhum verdade factual me aprisionava, pois até mesmo meu nome eu poderia reinventar se assim me apraze-se. As músicas de Milton ditavam o ritmo de minhas andanças pela cidade, e mesmo descobrindo uma novidade a cada passo não demorou muito para me sentir totalmente a vontade naqueles espaços, é claro que a estética barroca da cidade muito contribuiu para essa profunda identificação de minha parte, e cada igreja ou casarão que eu me deparava me deslumbrava em uma novo êxtase estético.
Me hospedei em um pequeno e aconchegante quarto de uma estalagem simples com o nome de alguma santa, toda a cidade exala uma forte ar de religiosidade e espiritualidade. A estalagem era próxima ao centro histórico da cidade o que facilitava minha locomoção, e além disso era em um típico casarão antigo, com longos e estreitos corredores fantasmagóricos de tábuas rangedeiras. Meu quarto tinha uma simpática escrivaninha, onde anotava diariamente minhas experiências e percepções sobre a cidade, seus habitantes e a sobre mim mesmo.
Os dias em Ouro Preto se sucediam sem a comum descontinuidade que sinto em minha vida urbana cotidiana, pelo contrário, lá cada dia parecia completar o anterior em uma seqüência construtiva, e aos poucos a cidade foi se desenhado em minha memória e constituindo minha narração. Passei os dias a visitar calmamente os museus e igrejas, com longas pausas para conhecer os bares, restaurantes e cafés mais simples, onde degustei avidamente da magnifica culinária mineira, que conheço bem desde o berço e nunca me enjoou. Sempre acompanhado do livro do desassossego, selecionei os mais tranqüilos e isolados lugares para leituras e devaneios (o parque Horto dos Contos era um de meus favoritos), a beleza natural das paisagens de Minas, os morros verdes e o céu límpido e azul cheio de uma luz exuberante e fria contribuíram muito. Passava longas e imperceptíveis horas sentado nos bancos das igrejas barrocas, a adorar a obra de Aleijadinho e seus contemporâneos. O barroco que é a primeira manifestação artística da modernidade que se livra das estreiteza da racionalidade renascentista e aponta para o infinito indefinível, me abalava com suas construções sublimes. Eu me punha a refletir sobre como um símbolo religioso, um altar ou uma coluna entalhada de anjos, podia ao mesmo tempo tocar o divino e flertar tão avidamente com o profano, isso é o barroco, a latente contradição humana, a batalha entre o corpo e a alma, entre Deus e o Diabo no coração do homem! Isso também marcava a vida e a obra de Antônio Francisco Lisboa, mulato, mas filho da nobreza, arquiteto e escultor divino, mas amaldiçoado e deformado por um destino trágico.
Toda a cidade estava muito movimentada por conta do festival de inverno, que envolvia muitas atrações culturais, concertos musicais , peças teatrais etc. Conheci o aconchegante e estilístico teatro de Ouro Peto, onde assisti a apresentação da orquestra municipal. Na praça Tiradentes conferi de perto uma peça sobre a passagem de Ulisses na ilha dos ciclopes, uma encenação magnifica, com figurinos impecáveis e um tom de teatro popular da idade media que me arrancou lagrimas de emoção. O museu da inconfidência chamou minha atenção para esse interessante episódio político-social da história do Brasil, os ideais da revolução francesa, as conspirações planejadas nas casas de intelectuais e artista, a identidade cultural de um país em formação, tudo isso encheu minha imaginação. Logo tive acesso a obra de Cecília Meireles que narra poeticamente a inconfidência, o que desenvolveu em meu espírito uma grande apreço pela história de Minas Gerais, e por mais que eu saiba que o símbolo de Tiradentes foi forjado na época da proclamação da republica por questões político-ideologicas, ainda assim o ideal dos inconfidentes considerado em seu devido contexto histórico revela o que a alma humana tem de mais sincero e profundo, a busca incansável por Liberdade. Simplesmente me cativou! E agora faz parte do que sou ou penso que sou.
Caminhar por aquelas ruas era como voltar no tempo, eu quase podia ver os escravos em seus afazeres diários. E apesar de não ser religioso, e até me considerar anti-clerical, não poso deixar de considerar a imensa beleza das igrejas que ultrapassa os dogmas opressores da instituição católica, e em seu interior convidam a reflexão e a contemplação. Me impressiona cada vez mais o poder da arte e sua presença irredutível na vida dos homens em todas as épocas. Através dela se pode falar de tudo, política, ideologia, ciência, religião, história, filosofia, tudo cabe nela. A arte barroca de Ouro Preto conta com detalhe a vida e a sensibilidade do homem mineiro do século XVIII e XIX, esta lá para quem tiver olhos para ver. Desbravar as ruas e esquinas de Ouro Preto foi como desbravar os recônditos de minha alma, foi como relembrar vidas que não vive, mas que poderia ter vivido, e agora vivi, pelo menos na imaginação. E afinal não é disso que se nutri a história?! Findo minha narração com a frase estampada na bandeira de Minas Gerais por influencia dos inconfidentes. Frase essa que desde que a li pela primeira vez passou a guiar meu ideal de sonhador e de incansável buscador do infinito: “Libertas quase sera tamien” (liberdade ainda que tardia) tirada dos versos de Virgílio por Alvarenga Peixoto.