quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Arte de Protesto?

A arte em suas múltiplas funções sociais ao longo da história assumiu muitas vezes o papel de instrumento de protesto. Independente da linguagem adotada a arte pode sempre servir como uma forma de critica, seja na pintura, no desenho, na música ou na poesia, algo que mecha com as estruturas e valores de uma sociedade, que desconforte e faça pensar ou mesmo que escandalize.
    Exemplos históricos não nos falta. No inicio do século XIX  Daumier foi preso por ridicularizar o imperador francês com  sua caricatura Gargântua, no mesmo século e na mesma França décadas depois, Baudelaire foi multado e teve os exemplares de seu livro Flores do Mal apreendidos pela lei. A antiarte desenvolvida pelos Dadaísta no inicio do século XX  era tipicamente uma arte de protesto radical, que mais tarde foi herdada pelo movimento Fluxos, já na década de 60. A luta por liberdade dentro de uma sociedade burguesa e conservadora era o mote que movia a criatividade desses artistas revolucionários e rebeldes. Daí surgiam todos os tipos de afronta aos “bons costumes”, performances e happening eram os novos instrumentos de ação político-artística, feito em lugares públicos, o objetivo era afetar as pessoas diretamente, tira-las de sua aparente confortabilidade, chocar, chamar a atenção, invocar a dúvida e a critica. Não podemos esquecer do Brasil nesse contexto, em plena ditadura militar os artistas queriam mais é protestar, canções e peças teatrais tentavam levar a critica ao governo até o público.
    Mas frente a atual situação socio-política e artística do mundo globalizado a pergunta que surge ao se pensar em arte de protesto é, como faze-la? Em um contexto onde tudo se torna produto e moda, e onde em meio a diversidade, o conformismo e a quotidianidade as pessoas estão totalmente anestesiadas e preparadas para ignorar complemente qualquer coisa que aparentemente as desconforte ou simplesmente encara-las com uma normalidade mórbida. Hoje em dia a força das mídias se ampliaram tanto que mais do que nunca, guerras, misérias e atentados se tornaram reality shows que se pode ver enquanto se toma uma coca-cola no sofá. A enorme diversidade proposta pela globalização e distribuída  pela Internet  parece tornar tudo convencional. O grande paradoxo de nossos tempos é mesmo a globalização internetica, que torna a própria diversidade um padrão. Como protestar sem cair no clichê e ser absorvido pelo sistema onde tudo se torna mesmice?
    Na abertura de uma exposição em grande museu brasileiro, em meio ao coquetel com mesa de quitutes e vinho em um clima formal de artista, especialistas e estudantes de arte, uma mulher surge com cara de zangada, e sem pronunciar uma só palavra arranca rapidamente todas as vestes, se colocando nua, e num pulo sobe sobre a mesa de quitutes e começa a se lambuzar bizarramente neles. Ela chuta com certa ira os copos, pratos e bandejas, fazendo uma bagunça. Depois da cena de poucos minutos ela sai andando entre os convidados, que a pesar do aparente espanto continuaram a comer e beber e até esboçaram algumas palmas para a artista performance tão “ousada” e “rebelde” (assim como a boa e vela  juventude dos  anos 60 e 70!). As pessoas acharam que tudo foi só mais um show como os da TV! Os “intelectuais” e “artistas’ presentes acharam lindo a jovem artista se expressando! Os mais desenformados  apreciaram suas belas formas femininas e riram da bagunça! O que aconteceu com o protesto, com desconforto e com a critica?! Será que se tornou impossível em nossa sociedade tocar verdadeiramente as pessoas através da arte? Será impossível criticar as coisas sem parecer ou um fundamentalista radical ou um piegas? Será possível fazer alguma coisa realmente criativa em meio a massificação globalizada? Dentro das relações de poder que estratégias devemos tomar para não sermos engolidos pelo sistema, pela mesmice e pelo conformismo? Concerteza não podem ser as mesmas estratégias das décadas passas! A nostalgia de uma época de engajamento social tem levado a atual juventude a cair em clichês, não que hoje falte coisas a serem criticadas, o problema é que o mundo já não é bipolar, já não há vilão e herói, já não há ditadura (pelo menos não tão descarada como antes), e por isso a crítica na arte precisa ser refazer, e ser mais delicada e minuciosa do que foi em outras épocas. Por fim, a verdade é que a tal performance até chegou a chocar algumas pessoas, claro que não os convidados, que devidamente alimentados saíram como se nada tivesse acontecido, mas sim os garçons  que tiveram que limpar tudo e recolher todos os cacos de vidro do chão. Esses devem ter se queixado: “Os artistas fazem arte e a bagunça quem limpa é a gente!” 
  

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nostalgia do não-Ser

As vezes ouso das profundezas obscuras do Ser, ecos de vozes do além, que ecoam clamando por tempos imemoriais, tempos antigos provindos de antes dos tempos, que reclamam a nostalgia do não Ser. De que falam esses espíritos estranhos e sem rosto, que brotam das rachaduras da existência como um antigo e inominável mal?  Como posso traduzir uma linguagem sem palavras de gritos sem som e desejos sem vontade?  Não sei o que são, mas sei que existem no fundo dos meus olhos e espreitam silenciosos os labirintos de minha alma insólita esperando a hora incerta e abstrata donde salta o Lobo. A saudade do que não foi, e do que um dia voltará. Saudade sem nome, sem encontro ou despedida. Saudade do insondável principio fim. O que existe antes da vida é o mesmo que depois dela?! É daí que vem minha mórbida saudade ancestral! Como uma parte tão minúscula pode desejar um Todo tão incompreensível que o olhar nem alcança? O outro lado do Ser me chama, mas como responder se minha memória curta perdeu o caminho de volta para Deus? ...
Não é a Morte que desejo, mas seu irmão de essência o Êxtase!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sobre a morte ou minha vida sem mim:



A morte é sem duvida um dos maiores medos humanos, ela traz a tona a percepção da temporalidade, da transitoriedade e da finitude da vida. Pensar na morte leva necessariamente a se perguntar de que vale realmente estar vivo. Mas é exatamente por estar intrinsecamente ligada ao problema da vida, que o problema da  morte é tão complexo e paradoxal. Ambos os termos são correlativos e inseparáveis, são opostos complementares, não se pode pensar uma coisa sem pensar a outra, mesmo que indiretamente.  A forma como  interpretamos a morte influencia a forma como interpretamos a vida e vice e versa. E por isso, me parece que esse duplo problema da vida e da morte é no fundo a origem e a finalidade de todo o conhecimento, de toda a filosofia, de toda a ciência, de toda a espiritualidade e de toda a arte. Pois parece que de uma forma ou de outra, tudo que o homem cria esta impregnado de vontade de tentar resolver esse problema, de tentar provar para nós mesmo que a vida pode vir a ter algum valor positivo mesmo frente a inviabilidade da morte.     
    O filme de  Isabel Coixet, intitulado “Minha Vida Sem Mim” é mais uma das inumeráveis obras de arte que abordam essa problemática como ponto central de sua trama. O titulo do filme, sagaz e sugestivo, até carregado de um certo tom de humor negro, é na verdade o resumo do argumento filosófico  desenvolvido através da narração da história de Ann. Uma jovem mãe de família, com uma vida cotidiana atarefada e cheia de responsabilidades ante o marido e as duas filhas pequenas, morando no quintal da casa da mãe e trabalhando como faxineira,  levando assim uma vida dura e simples, mas que ainda guardava uma última revelação trágica do destino. Ann com apenas 23 anos descobre de repente que tem um câncer que a matará em mais ou menos 3 meses. Toda a história se desdobra sobre os resultados dessa triste revelação na vida de Ann. Descobrir a própria morte, e é engraçado falar assim pois a morte é nossa única certeza absoluta, provoca modificações profundas na postura, nas escolhas e nos valores de Ann. Aparentemente nada muda nas praticas cotidianas da garota, ela continua dedicada ao trabalho e a família, o que mudam são os valores que guiam essas praticas e sua postura ética frente a vida.
    De um filme como esse, que trata de um tema tão profundo, pode-se tirar muitas interpretações, muitas discussões. Pretendo analisar alguns das atitudes tomadas por Ann frente a morte, e assim tentar esclarecer a opinião expressada pela diretora do filme, pensando a morte (e portanto na vida) de uma forma serena e realista, mas sem negar-lhe a beleza trágica e melancólica. Primeiramente, Ann decide não contar seu drama para ninguém. Essa atitude que superficialmente pode ser vista pelo prisma de um certo egoísmo ou mesmo conformismo, ganha na minha opinião um  tom diferente, quase épico.  Me parece que a morte nos garante uma referencia solida para valorarmos a vida, exatamente porque sabemos que ela sempre chega uma hora e que é inevitável. Dessa forma, podemos chegar a algumas conclusões lógicas. Se a vida é finita devemos dar a ela prioridades, valores distintos a nossos desejos e escolhas, e se o tempo urge, isso nos obriga a cada vez mais tentar resumir a vida as coisas mais necessárias e essenciais, a se desfazer de toda futilidade, a dispensar tudo que pode ser dispensado, a simplificar tudo que pode ser simplificado, a buscar a vida menor de que fala a poesia de Drummond. Em uma cena do filme, a personagem faz compras em um shopping enquanto pensa consigo mesma: “ tudo aqui serve para nos afastar da morte, aqui ninguém esta pensado na morte”. Ao enfrentar sua preparação para a morte ( o que teoricamente todos nós deveríamos fazer a cada dia), Ann percebe como as pessoas gostam de se iludir para fingir que a morte não existe, ou que esta muito distante, é uma forma corriqueira de fugirmos ao desespero e ao pavor. O silêncio de Ann parece refletir uma postura estóica e altiva, pois a morte nos leva a nos depararmos mesmo com a solidão, que não pode ser negada se não aceita, ela parece querer evitar toda e qualquer tipo de perda de tempo, como lamentações, preocupações e sofrimento antecipados e desnecessários, pois em nada podem mudar a realidade da morte. Há nisso também uma forte  dose de generosidade, pois a partir  do momento que nos convencemos de que a morte vem para todos, não há porque afligirmos os outros com nossa morte, pois eles terão a deles. Essa generosidade se mistura a uma certa doçura de espírito da personagem, ela controla o próprio medo e desespero da morte  para poupar os outros de sofrimentos inúteis, assim ela aceita corajosamente o caminho solitário e doloroso de sua própria liberdade. 
     Alavancada de sua vida cotidiana onde tudo parecia muito solido e certo, Ann passa a ver as coisas de uma perspectiva mais ampla, isso leva-a a mudar seus valores. Sua primeira atitude é escrever em um caderno as coisas que ela quer fazer antes de morrer. Analisarei três dessas coisas que me parecem ter uma grande importância simbólica no filme. A primeira é gravar fitas de aniversário para suas  filhas até os dezoito anos e para outras pessoas próximas (seu marido, sua mãe, seu amante). Por traz dessa delicada, atenciosa e  singela atitude existe uma ética de afirmação da vida. E é ai que aparece claramente a sugestão vinda do titulo. Ann descobriu e aceitou que a vida continuara sem ela, que tudo continuara funcionando como sempre funcionou mesmo sem ela estar por aqui. As fitas simbolizam uma afirmação da vida, pois Ann demostra com elas que se importa com a vida mesmo depois que morrer, que se importa mesmo sabendo que sem ela tudo continuará, e por isso quer deixar algo para as pessoas que  ama, e que sabe que terão de continuar a viver sem ela.    
    Outro ponto em sua lista de coisas a fazer antes de morrer, era reencontrar seu pai que a anos ela não via porque estava preso em uma penitenciaria.  Falo sobre esse ponto porque imagino que normalmente se pensa que ao nos depararmos com a morte certa, passamos a  nos importar só com o presente, com o instante agora, não acredito que seja bem assim. Na verdade parece que a morte pode provar o quanto a vida é inútil, porém do ponto de vista contrario ela também pode provar que a vida é sagrada e única e por isso dentro dela tudo é valido, tudo deve ser aproveitado, pois bem ou mal tudo acabará por fim. Ann seguindo a segunda interpretação, busca o reencontro com o pai como uma forma de redimir o passado aceitando até mesmo a ausência do pai, mais uma forma de se valorizar a vida, de aceitar mesmo as coisas ruins que a vida lhe proporciona, como um pai bandido  e indiferente. Afinal de contas a vida continuara sem ela, e não há motivo para permitir magoas ou ressentimentos tolos de coisas passadas.
    Por ultimo destaco da lista de Ann o desejo que ela tinha de se apaixonar novamente, e isso não tem nada haver com traição, pois ela demostrava amar muito o marido, mas isso é diferente de paixão. A paixão é como o calor inicial que acende o amor, é um impulso primário poderoso e desconcertante, intenso e inexplicável racionalmente. É o que nos lança ao desconhecido (Outro), ao estranho, a descoberta de si mesmo no outro, a revelação da identidade dentro da diferença. Mesmo amando o marido Ann quer sentir uma ultima vez o impacto da paixão, pois somente esse sentimento parece, mesmo que por um breve instante, destruir o abismo que separa os sujeitos dando a sensação de que podemos ser um só ser, de que realmente podemos compartilhar com o próximo algo de verdadeiro e real, mesmo que intangível e indizível.
    O filme apesar do clima dramático é levemente romanceado por uma serie de coincidências que ajudam Ann a cumprir com seu desejos antes de morrer. Isso juntamente com a personalidade doce, quase infantil de Ann, e sua resignada melancolia, pintam o tema pesado e desconfortante do filme com uma leve tom  poético, triste porém esperançoso. O que até me faz lembrar de uma máxima nietzscheana que diz que devemos afirmar a vida mesmo em seus aspectos mais tenebrosos. Haverá aspecto mais tenebroso na vida que seu fim? “ Minha Vida Sem Mim”, é um exemplo de que para aceitarmos a vida temos de aceitar a morte. Como diz Epicuro: “ Não existe nada de terrível na vida para quem esta perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver”.  O filme consegue ser emocionante, sem ser piegas, sensível, sem ser bobo, profundamente filosófico sem ser excessivamente serio, além de ter uma linda trilha sonora.  E principalmente, por ele  levar inevitavelmente as  lágrimas, mas  não pela vida que a jovem Ann vai perder, mas pela vida que ela soube encontrar.

sábado, 18 de setembro de 2010

Não exijo nada de ninguém, aceito de bom grado o que me vem, e desprezo tudo que me falta.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Figura e Corpo


Para refletir  sobre processo criativo de Francis Bacon, mediados  pela analise de Deleuze, e ao mesmo tempo relaciona-lo a problemas da estética contemporânea que me chamam atenção,  acredito que devemos começar pelo inicio do processo, o que Deleuze chamou de, “a pintura antes de pintar...” O que isso quer dizer? É ilusão acreditar que o pintor pinta por sobre uma tela em branco, a tela nunca esta em branco afirma o filosofo. Ela esta sempre repleta de imagens virtuais, provindas de toda a história da arte, de toda a cultura, de todas as imagens que vagueiam na mente do pintor, que se mostram ao seu redor, na cidade, no ateliê. A isso chama-se de clichê, imagens pré-concebidas  que geram percepções pré-frabricadas. Se levarmos em conta as condições atuais das técnicas de produção e reprodução de imagens, perceberemos que   em nenhum outra período da humanidade nossos olhos estiveram tão sobrecarregados de cores, formas, e informações. Basta pensarmos na televisão com suas muitas propagandas, na Internet, nas revistas, nos outdoors, vitrines de shoppings, panfletos, a febre consumista de máquinas digitais fotográficas e de vídeo, tudo isso gerou um universo visual amplo e poluído. Cabe frente a tal banalizarão das imagens a pergunta; como a pintura, uma arte essencialmente visual, reage a esse realidade? A tentativa para um possível reposta a essa questão, tão cara a atualidade de Bacon quanto a nossa, me parece estar ligada ao entendimento de como Bacon constrói suas Figuras, seguindo um caminho oposto ao do Abstracionismo e do Expressionismo abstrato, mais próximo a proposta de Cézzane da constante luta contra os clichês, da pintura da sensação.
    O processo criativo de Bacon inicia-se com a limpeza da tela dos clichês, para isso ele se serve de marcas livres, traços-linhas e manchas-cores, postos aleatoriamente por sobre a tela para destruir a figuração nascente e permitir o nascimento da Figura. Essas marcas não-represetativas que só dizem respeito a mão do pintor, surgem ao acaso, mas não um acaso inútil, mas sim um acaso manipulável, um acaso que aponta para possibilidades, que gera sugestões.
“Ora, é na manipulação, quer dizer, na reação das marcas manuais sobre o conjunto visual que o acaso torna-se pictural ou se integra ao ato de pintura. Daí a obstinação de Bacon, apesar da incompreensão de seus interlocutores, em lembrar que só existe acaso manipulado e acidente utilizado” (Deleuze) .
    A esse processo pré-pintura se deu o nome de diagrama, uma espécie de esboço inicial, onde o pintor se permite ao irracional, ao inconsciente, ao gesto puramente manual, a livre expressão do que ainda não tem forma ou nome , do que libertará a Figura da figuração, da narração e da ilustração, o impacto da sensação na carne, no corpo. A partir desse ponto podemos pensar no como Bacon cria uma via própria para o problema da não figuração. Ele recusa o puro código pictural dos abstracionistas, que é para ele deveras cerebral, e ainda corre o risco de se tornar uma simples codificação simbólica do figurativo. Recusa também a total irracionalidade dos expressionistas abstratos, que faziam o que Deleuze chamou de pintuira-catástrofe ou pintura-diagrama. Nesse caso o diagrama acaba por tomar conta de toda a tela e se tornando a própria pintura, de certa forma a sensação é atingida, mas permanece em um estado de confusão. Bacon afirma a importância do diagrama, mas também a importância de se controlar o diagrama e mante-lo em uma certa região do quadro, utiliza-lo em certos momentos da pintura.
“O diagrama é uma possibilidade de fato, e não o fato em si mesmo. Nem todos os dados figurativos devem desaparecer, e, sobretudo, uma nova figuração,  a da Figura, deve surgir do diagrama, conduzindo a sensação ao claro e ao preciso”(Deleuze) .  
    Frente ao entendimento do diagrama como técnica, processo ou instrumento de pintura, podemos agora pensar melhor na luta contra os clichês no atual contexto da banalização da imagem. Me parece que a pintura de Bacon é uma reação, consciente ou inconsciente,  a tal banalização. Interpreto como uma resposta da pintura a uma sociedade do espetáculo, que cada vez mais utiliza-se da imagem como uma fachada para discursos indutivos que de uma forma ou de outra estão comprometido ideologicamente e economicamente com o consumo. A propaganda, a publicidade, o marketing, se serviram largamente dos estudos de linguagem desenvolvidos pelas vanguardas artísticas da modernidade em prol de interesses distintos. Por isso é fácil  encontrar hoje propagandas de TV que são quase filmes de Spielberg,  vitrines de lojas que são quase instalações fotográficas, outdoors que em perspectiva  parecem falar diretamente para você. Toda essa nova manipulação das imagens para fins objetivos dissimulados, produz diversas resposta de artistas que também trabalhem com imagens. Respostas não só no sentido de ir contra ou negar, mas também  resposta no sentido de  interação, de  reverberação de efeitos, de exploração de novas áreas descobertas.


Um dos pontos centrais na produção de Bacon que levanta interessantes questões, é sua visão sobre o corpo, suas formas de interpretar esteticamente o corpo humano em pintura. O corpo é a Figura, o corpo apreendido em sua crueza, em sua essência animal, como massa de carne sangüínea e nervosa, viva e pulsante, como nossa ligação intrínseca com a natureza, ou na definição de Deleuze, nosso devir-animal.  Bacon como retratista não pinta rostos, o rosto é a organização de expressões em uma definição espacial, ele pinta cabeças, como sendo parte integrante do corpo. “...a pintura de Bacon constitui uma zona de indiscernibilidade, de indecidibilidade entre o homem e o animal” (Deleuze). Talvez seja exatamente essa fato apontado por Deleuze que gera um forte estranhamento nas obras de Bacon, a dificuldade criada de se distinguir até onde o que se vê  é um corpo humano ou um simples carcaça animal. Um tema recorrente nas pinturas de Bacon é a crucificação, exatamente porque ela mostra a carnalidade do corpo, é no corpo que o “fato” se concretiza, que a sensação se prolifera, é no corpo que parece se revelar ao pintor o drama da vida, latente porém sempre rumo a morte. “Sempre fui muito tocado pelas imagens de abatedouros e de viandas, e  para mim elas estão estreitamente ligado a tudo que é Crucificação ... É claro, nós somos viandas, somos carcaças em potencial. Se eu vou a um açougue, sempre me surpreende não estar lá, no lugar do animal”(Entrevitsa com Bacon) . O tema da crucificação se desenvolve em Bacon entre o tom espiritual e o profano.
    Em sua busca pela sensação, que se da pelo corpo e no corpo, Bacon segue os rumos abertos por Cézanne, este dizia que a natureza está no interior, o corpo assim se torna chave para o Ser das coisas.
“A lição de Cézanne vai além dos impressionistas: não é no jogo livre ou desencarnado da luz e da cor (impressões) que está a Sensação, mas no corpo, mesmo que no corpo de uma maça. A cor está no corpo, a sensação, está no corpo, e não no ar. A sensação é o que é pintado. O que está pintado no quadro é o corpo, não enquanto representado como objeto, mas enquanto vivido como experimentado determinada sensação”(Deleuze) .
    Se considerarmos a arte associada a outros campos de conhecimento como sendo uma espécie de  metáfora epistemológica da sociedade, podemos dizer que a interpretação de Bacon sobre o corpo vem de certa forma de uma problemática fenomenológica sobre o assunto. Merleau-Ponty explora bem o tema em sua ontologia da pintura, quebrando a dicotomia sujeito objeto, mostrando o corpo como ponto de partida para todas as nossas percepções do mundo, negando-lhe a interpretação de ser só mais um   objeto frio entre outros, mero instrumento ou máquina, ele afirma o corpo como sendo nossa verdadeira ponte dos sentidos para o Ser do mundo, é com ele e por ele que  o mundo dos fenômenos se abre para nós, e nós nos postamos junto dele.  Para Merleau-Ponty a pintura sempre buscou desvelar o visível no invisível, e esse enigma esta ligado ao fato de nosso corpo ser ao mesmo tempo vidente e visível, é como se pudéssemos ver as coisas por fora, mas também senti-las por dentro.
“Visível e móvel, meu corpo conta-se entre as coisas, é uma delas, está preso no tecido do mundo, e sua coesão é a de uma coisa. Mas, dado que vê e se move, ele mantém as coisas em círculos a seu redor, elas são um anexo ou um prolongamento dele mesmo, estão incrustadas em sua carne, fazem parte de sua definição plena, e o mundo é feito do estofo mesmo do corpo”(M.Merleau-Ponty)  .
    É mais ou menos isso que Bacon busca, perceber os objetos e corpos em sua materialidade, em sua carnalidade e imanência, libertar as forças que se escondem no invisível, mas por dentro. É isso que seria o que Deleuze chama de pintar as forças. Forças essas que agem constantemente sobre nosso corpo, forças de deformação, contração e expansão, tensão, pressão, dissipação, temperatura, estiramento etc. A grande problemática perseguida por Bacon é como transmitir essas forças para uma tela mantendo nelas a vivacidade quase explosiva que elas tem no corpo?


“Quando o corpo visível enfrenta, como um lutador, as potências do invisível, ele apenas lhes dá sua visibilidade. É nessa visibilidade que o corpo luta ativamente, afirma uma possibilidade de triunfar que não possuía enquanto essas forças permaneciam invisíveis no interior de um espetáculo que nos privava de nossas forças e nos desviava”(Deleuze) .
    A sensação é o impulso gerado pelo contado do corpo com os objetos (seja lá qual for o tipo de contato), ela reverbera pelo corpo como em ondas, assumindo diferentes níveis, ordens, domínios, formando seqüências moventes.  Por isso as figuras de Bacon ora se contraem ora se expandem, a sensação é mestra em deformação, a sensação captada da ao quadro uma espécie de movimento estático, sabemos que a figura está parada, mas seu corpo vibra retorcendo-se, como se quisesse escapar de si mesmo.
“Cada quadro, cada Figura, é uma seqüência movente ou uma série. Cada sensação está em diversos níveis, em diferentes ordens ou em vários domínios. De modo que não há sensação de diferentes ordens, mas diferentes ordens de uma mesma sensação. É próprio da sensação envolver uma diferença de nível constitutiva, uma pluralidade de domínios constituintes”(Deleuze) .
    Mas Bacon parece ir além das questões fenomenológicas, querendo revelar uma dimensão mais profunda obscura, caótica e violenta da sensação no corpo. Daí o corpo passa  a não ser mais entendido como organismo, partes distintas e determinadas que formam um todo, mas sim como um órgão em si, indeterminado e cheio de potencialidades para transformação. Deleuze então surge com o conceito do “corpo sem orgãos”, retirado  de Artaud. O corpo massa disforme de carne e nervo, propicia a deformações provocado pela onda de sensações que vibram provocadas pelas forças que agem sobre nós. Não faltam orgãos ao “corpo sem orgãos”, mas sim organismo, os possíveis orgãos surgem de acordo com as sensações, com a necessidade ou intensidade das forças.
“Em suma, é a pintura que descobre a realidade material do corpo, com seu sistema de linhas-cores e seus órgão polivalente, o olho. Nosso olho incansável e no cio, dizia Gauguin. A  aventura da pintura é que somente o olho pôde se encarregar da existência material, da presença material: até mesmo para uma maça”(Deleuze).

Bibliografia: David Sylvester. ENTREVISTAS COM FRANCIS BACON /Gilles Deleuze.  FRANCIS BACON – LÓGICA DA SENSAÇÃO / Maurice Merleau-Ponty. O OLHO E O ESPÍRITO.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A verdadeira filosofia busca o cru da vida mas não se contenta com ele

     A filosofia moderna ocidental no auge de seu pensamento racional, que traz uma fria lucidez, encontrou seu extremo oposto e complementar, o irracional. Em sua busca pela essência da vida, a filosofia descobriu que a existência humana, fora a parte originalmente animal,  é repleta de mentiras, farsas, ilusões, representações, que mesmo surgindo do contato direto com os fenômenos da realidade nunca poderá captura-la ou explica-la complemente. A consciência humana, nosso principal instrumento de sobrevivência ante a Natureza, tem como maior força sua capacidade de dissimulação e de invenção, ela é para nós como os chifres do touro ou as garras do leão. Assim sendo,  fundamentalmente a humanidade independente do contexto social, histórico e cultural, nunca passou de um grande formigueiro frente ao universo. Somos meros pedaços de carne boiando no caos, micro organismos astutos que sobrevivem mesmo na constante imanência da sublevação das forças da Natureza, que em um suspiro pode nos destruir, apesar das ilusões de controle e soberania que o alto desenvolvimento tecnológico tem nos provocado nos últimos tempos. A existência humana é portanto, gratuita, inútil e complemente desprovida de objetivo ou valores próprios. Um dos filósofos mais intempestivos da história do ocidente afirma em um aforismo que, o erro  acerca da vida é necessário à vida, assim  diz ele: “Toda crença no valor e na dignidade da vida se baseia num pensar inexato; é possível somente porque a empatia com a vida e o sofrimento universais da humanidade é pouco desenvolvido no indivíduo(...) Quem sabe ter em mira sobretudo as exceções, quero dizer, os talentos superiores e as almas puras, quem toma o seu surgimento como objetivo de toda a evolução do mundo e se alegra com seu agir, pode acreditar no valor da vida, porque não enxerga os outros homens; portanto, pensa inexatamente. Do mesmo modo  quem considera todos os homens, mas neles admite apenas um gênero de impulsos, os menos egoístas, desculpando os homens no que toca aos outros impulsos: pode também esperar alguma coisa da humanidade como um todo, e assim acreditar no valor da vida: portanto, também nesse caso por inexatidão do pensar(...) pois no conjunto a humanidade não tem destino nenhum, e por isso, considerando todo o seu percurso, o homem não pode nela encontrar consolo e apoio , mas sim desespero.  Se ele vê, em tudo o que faz, a falta de objetivo último dos homens, seu próprio agir assume a seus olhos caráter de desperdício” (Nietzsche). Esse em fim, é o cru da vida!
    O rumo tomado por essa forma de pensar pode levar homens lúcidos demais ao desespero, ao niilismo e a mais profunda melancolia, o desperdício de suas ações é inaceitável a sua sensibilidade. E ai que a filosofia inconformada com os resultados do pensamento racional, ultrapassa suas barreiras, alia-se ao devaneio e ao sonho,  fundindo-se a poesia, não mais contendo-se ao exercício especulativo e tornando-se ato criador . Só ai que a vida, esse fenômeno efêmero e vazio, pode vir a ganhar algum valor, ético, estético e poético, tornando-nos pouco mais que bichos, pouco menos que deuses, somos Humanos, e a vida é nossa criação, nossa arte, nosso jogo, nosso brinquedo. E parafraseando o filósofo já citado, digo que a arte serve para tornar a vida suportável, pois a sensibilidade humana não pode concordar sem protestos com o terrível e avassalador destino dos seres.
 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Outro


Quem sou eu? Corpo, alma, sonho, desejo, ou simplesmente um reflexo tênue  no fundo dos olhos alheios? Sou eu o desacordo entre o que penso e o que sinto, ou o que pensão e sentem de mim?
Minha pífia personalidade é como uma sombra por sobre a desfalecente luz do crepúsculo, que a qualquer momento pode desaparecer deixando o Vazio que ecoa no silêncio da noite obscura e profunda...  
Quem sou eu se não o Outro? Meu oposto semelhante, que me exige e assombra. Prova material de minha existência externa, espelho que me revela, opaco, translúcido ou invisível, que me encanta e aterroriza como o canto de sereias que esconde o naufrágio.
O que querem de mim os olhos vorazes que me cobram, as bocas sedentas que me invocam, as mãos impiedosas que me agarram e repelem?
O que são essas sombras que me povoam, esses reflexos disformes, essas imagens inconsistentes? Serão simulacros do meu pequeno e insípido Ser, ou do grande Ser do mundo, fantasmas da imaginação, cacos de memórias perdias, Tempo compactado ou disperso? Tudo o que não sei, tudo o  que busco desesperadamente saber!
Quem é o Outro? O que quer ele de mim?! ...O que quer...ele? de mim...