domingo, 6 de janeiro de 2013

Discurso 62

Do imemorial mais antigo, as vezes me surge como um relâmpago cortando minha consciência cotidiana, abrindo fendas no tempo-espaço, o desejo primordial, como uma sombra, por de trás de um objeto qualquer, que por um curto período me apraz em ilusão. É o delírio do seio que alimenta a fome, a fusão, o regresso ao corpo materno, ao amago da terra, as entranhas de Deus. Donde se inaugura a instancia do sujeito-desejante e se desencadeia o movimento do tempo, que se expande infinito entre uma carência e o cumprimento dessa, iniciando a história de uma subjetivação da parte individualizada do Todo, rumo ao nada. E depois que o primeiro passo se abre em caminhos, se fazem curvas em labirintos sem rumo, a semente do desejo, plantada na ausência se ramifica rizomática, e perdida de toda origem, se constroem em sistemas descentrados, em dispositivos de desejos que se interelacionam em contradição e se fazem em conjuntos de possibilidades por entre as camadas do real e do imagnário. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Discurso 73

Da cisão de meu ser, da discórdia do meu eu, da contradição intima, nasce o duplo, o Outro que me habita, tão próximo e desconhecido. Os olhos que me observam, me indagam, me acusam e me condenam, por muitas vezes não ser quem penso que sou, e outras por ser deveras eu mesmo. Ele está em toda parte, nos olhos alheios, no reflexo do espelho, por dentro de minha pele. Pensa com meus pensamentos, fala com minhas palavras, age com meus gestos, e mesmo assim está sempre a me escapar, a me esconder, a me trair. É vítima e algoz em minha angústia. Tudo em mim que é distância, pensamento e ação, querer e poder. É falha, lapso, desencontro, intervalo indefinível de mim para comigo. O desejo que dúvida, a ação que vacila, a fala que gagueja. Tudo o que sou e não posso ser, tudo que deveria ser mesmo não sendo. Ele acompanha minha solidão e não me deixa esquecer o veredito: Estas condenado a sempre estar contigo...

domingo, 30 de dezembro de 2012

Discurso 100

O mais importante em um ano que se vai, não é o novo que inevitavelmente virá, mesmo que disfarçado, por vezes, de antigo. Pois o futuro é uma virtualidade que a imaginação pode até arquitetar, mas é o acaso quem constrói. É o morto que tem de ser celebrado para podermos exorcizar tudo que é perda e concluir a passagem. O que deixa de ser para poder voltar a ser. E no luto dos que sobreviveram, erguer um brinde ao esquecimento, regenerador da consciência. Que devora toda culpa e todo arrependimento, vislumbrando um amanhã, desejado mesmo em seu gosto amargo de incerteza.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Discurso 94

O desejo é principio de falta ou impossibilidade de saciação, posto seu sentido profundo de busca infinita. Ele é o que tarda a regressar e o que nunca cumpri seu destino. Enquanto ausência está ligado a lembrança do imemorial, ao arcaico e metafísico, provindo das origens impenetráveis do Ser, fazendo-se somente no momento infinitesimal do agora que busca no passado a repetição que se faz mesmo na diferença. Invocando assim o prazer que é silencio e imobilidade junto ao eterno. Sempre de novo e sempre constante. Mas o oposto da ausência também arde e clama no ser! Quando volúpia, o desejo se faz no excesso, é um transbordar-se impetuoso e desbravante voltado para o por-vir. O sagrado esquecimento que permite a novidade no antigo. Constituído por um deleite perturbador de voracidade indefinida. Em nem uma de suas manifestações o desejo pode ser satisfeito, pois nada há nele de necessidade, instinto primitivo do homem-bicho. Há apenas imaginação, criação do impossível e substituição precária deste. Matriz cíclica de movimento imóvel. O prazer é um de seus fenômenos, mas não seu objetivo, já que ele sempre volta-se para si, carregando concomitantemente conquistas e fracassos numa mesma ânsia sem nome. Incógnita que se esconde ao revelar-se num jogo sem fim de bonecas russas, uma a guardar a outra, mais fundo, mais dentro, mais longe...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Discurso 141

Perdi a noção de tempo como percurso, nas lacunas da memória inconclusa, nos fragmentos das narrativas rabiscadas. E as horas se desdobraram em desertos de horizonte espelhado, onde todo passo regressa a si mesmo. E por isso tudo em mim é distância, e toda distância é terra, que o vento leva ao léu.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Discurso 66

Quero celebrar a vida como quem compactua com a  morte. E mesmo frente ao inominável proclamar o terrível Sim sagrado! E toda carne que clama viverá seu transbordamento e o mistério se fará presente,todo em um único lapso de tempo, todo agora, e para sempre e nunca...

sábado, 3 de novembro de 2012

Discurso 90

Minha poesia é o avesso de minha alma. O reverberar inverso de tudo que me transpassou, me habitou e me deixou, me feriu e me afagou. Tudo quanto eu não posso mais calar. E o silêncio vira cântico e lamento. E o que antes era carne, sangue e angústia se dilacera em palavra, que vai para além de minha boca, se estendendo para fora de mim, me dizendo mais do que eu poderia dizer. Se tornando estanha, se tornando o Outro.