quinta-feira, 26 de março de 2009

OS ESPELHOS



"O que é um espelho? Não existe a palavra espelho — só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. — Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Não são precisos muitos para se ter a mina faiscante e sonambúlica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente adin-finitum, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, os reflexos dessa dura água. — O que é um espelho? Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. — Esse vazio crista¬lizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. — E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho. — A sua forma não importa: nenhuma forma con¬segue circunscrevê-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como a água se derrama. — O que é um espelho? é o único material inventado que é natural.
Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isencão de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para den¬tro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da pró¬pria imagem — então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.
Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho em que eu me veja sou eu, mas espelho vazio é que é o espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar no quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.
E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro — e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instan¬te — nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada c trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas ver¬dades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso enten¬der a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água".
(Clarice Lispector)
Esse texto não é de minha autoria, mas sinto do fundo de minha alma que eu poderia te-lo escrito. Sei que ele fala sobre mim e para mim! Por isso digo sem orgulho ou modestia, que esse texto e tão dela quanto meu. Muito obrigado Clarice!!!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Meditação de dia de domingo



Às vezes sinto um tédio quase mortal. Ele chega como quem não quer nada, sem aviso prévio ou motivos aparentes, e se instala em mim em um final de manhã de domingo. Meu espírito parece pesar uma tonelada! Tal estado se perpetua por todo o dia e só se finda com a chegada do Sono que anuncia um novo dia e cala as vozes da Angústia.
A idéia que faço do Tédio esta diretamente ligada à sensação do Nada. O tédio não é a falta do que fazer, pois isso nunca falta, mas sim a total falta de sentido para qualquer coisa que se venha a fazer. É como um cansaço antecipado, o desproposito da ação e até mesmo do pensamento, o esvaziamento de todos os motivos, de todas as razões e de toda a vontade. Não é a Morte, e mais como boiar na existência; a existência nua e crua, sem as quimeras da metafísica e os signos lingüísticos. É o se deparar cara a cara com o Nada, o mesmo que alucina a mente do suicida e encanta o pensar do filosofo.
Levanto inebriado de tédio e não encontro posição que me conforte, na cama, no chão, na cadeira ou no sofá, nenhuma atividade me apraz. Passo horas perdidas e sem marcação, a olhar sem propósito os livros na minha estante. Não leio uma página sequer, parece que não há nada a ser dito entre tantas palavras. Sento no computador e tento esboçar algum pensamento, quem sabe uma poesia me salve! Logo nas primeiras tecladas vem-me a sensação do Nada... Largo tudo e passo a nada querer. Tomado por um poderoso torpor, arrasto meu olhar sonolento por todos os cantos do quarto e cada detalhe me parece mais igual e trivial do que jamais poderia ser. Corpo inquieto, mente volúvel há divagar. Saiu na rua e perambulo como um sonâmbulo ou uma sombra perdida na eternidade, sem onde ir, onde chegar ou mesmo para onde voltar. Li uma vez em um conto de Voltaire um personagem afirmando que o homem nascera para viver nas convulsões da inquietude ou na letargia do tédio. Não me arrisco a dizer qual é a mais trágica, mas sinto agora no corpo a letargia como uma doença, o ópio dos ópios.
Não sinto nada, não quero nada, não sou nada... Preguiça de ser e de estar, só carrego mesmo comigo a ociosidade que me devora todo o esforço e me aleija todo agir. De vontade tísica e imaginação moribunda deito-me derrotado na cama como quem perdeu a guerra sem nem lutar. De olhos arregalados, fixos no branco do teto, sinto o vazio, infinito vazio... O dia passa em uma completa morbidez, como se o Tempo tivesse morrido, e quem matou foi o Tédio...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Palavras ao Tempo




Quem é o Tempo se não o poderoso e cruel deus Cronos que devora os próprios filhos que outrora ele mesmo engendrara ao mundo? O que é o Tempo se não um rio de águas diáfanas e calmas, às vezes turvas e violentas; que nós carrega a vida entre instantes efêmeros e no fim de tudo deságua no Mar? Mar que na verdade é como a Morte, que não marca o fim da Vida, mas somente sua dispersão. Assim como o rio que corre e se difundi no mar, o Tempo corre e se difundir na Eternidade!Então será que perdemos tempo? Ou será que seu movimento de eterno retorno faz com que na Vida tudo se ganhe mesmo perdendo?! Que tudo passe mesmo ficando?! Que tudo seja mesmo não sendo?!
Tempo tão relativo quanto pode imaginar Einstein, mas creio não ser preciso nenhuma formula matemática ou especulação cientifica para notar que seus caminhos são vários, cheios de nuanças, às vezes bom às vezes mau. Para os mais velhos ele parece ser representado pelo Passado, o que se foi e o que se fez; Memória irmã mais velha da História. Para os mais jovens ele parece se definir pelo Futuro, quem se será e o que se fará. Planos, esperanças, ilusões; uma enorme angustia de esperá-lo contraposta a um imenso medo de desvendá-lo. E nisso tudo o que é o Presente? Parece ele um momento indefinível e sem extensão entre o que foi e o que virá. Se pensarmos que tudo o que temos é o Presente, nos deparamos com o fato de que não temos nada. Mas esse nada pode vir a ser tudo se percebermos que na verdade o indefinível Presente é fruto do Passado e do Futuro, modifica-os e por eles é modificado a cada geração, a cada nova reflexão, a cada nova história contada e reconta.
Sua essência é a sucessão, por isso ele flui e se estende silencioso como planta que cresce enquanto dormimos. Sua essência e a permanência, por isso ele se mantem eterno e dela nada escapa sem marcas.
Tempo é movimento imóvel, transformação intransformavel, o sempre no nunca! Passado, Presente e Futuro, ilusões do Tempo-Uno, que dialogando entre permanências e rupturas criam à multiplicidade do Tempo-Vivo. Tempo carrasco que é pai do engenho humano, Tempo ciclo velho contador de Histórias! Tempo-longo, Tempo-curto, Tempo-eterno, Tempo-tempo...!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A respeito da Liberdade...!


A Liberdade esse eterno paradigma humano! Essa vontade latente, esse constante buscar, esse inefável pensamento, esse fulgurante criar! E quem sabe no fundo o que ela é? Um Sentimento ou uma Razão? Uma coisa ou uma abstração? Um estado ou será uma condição?
Uma palavra de múltiplas facetas. De inumeráveis semânticas e morfologias, de várias línguas e povos. De diversas ideologias e filosofias, histórias e imaginação, muitas formas e cores, pesos e medidas. Paras uns é azul como o infinito do céu! Para outros, vermelha como o sangue das revoluções e escravidões!
E eu o que posso afinal falar da Liberdade?! Eu mero animal humano, pequenino vivente mortal do universo. O que sabe minha pobre consciência formada de tantos Iluminismos, Darwinismos e Marxismos?!
Eu digo com força da fé! Que o ser humano surge naturalmente provido da Liberdade, e que não me deixe mentir sozinho Rousseau! Porém, por motivos nefastos, o pobre ser humano perde sua Liberdade em seu próprio mundo, dentro de sua casa-alma. E depois, passa á vida toda em busca da desaparecida e amada Liberdade...E digo mais...!
Digo também que, cientificamente falando o ser humano nasce desprovido de Liberdade. Prezo a sua condição animal, biológica e material. Podendo assim ser um lobo ou um macaco ou se no caso de nenhuma outra espécie o amparar, um repolho como Kaspar Hauser. Mas se ele encontra outros humanos, ao longo do tempo ele vai desenvolvendo suas capacidades intelectuais, culturais e espirituais e pouco a pouco constrói sua tão esperada Liberdade.
Contraditória, assim é a Liberdade! E por isso é que essa palavra morre e renasce cada vez que um poeta a pronuncia. Morre e renasce a cada lagrima que escore, em cada boca que braveja, em cada coração que sangra! Pesada como a responsabilidade. Mas tão leve quanto o “ser”. Efêmera como uma escolha. Inalcançável como o Amor Romântico. Mas o que posso afirmar com verdade sobre a tal Liberdade, pulga atrás da orelha da humanidade. É que não há quem possa dizer com certeza se o ser humano há tem, há teve ou ainda há terá!

domingo, 11 de janeiro de 2009

O movimento rumo ao "ser"


Dialogando com minha nova amiguinha intelectual, apesar dos poucos 12 anos de idade, a personagem Paloma do best-seller clandestino “A elegância do ouriço”, cheguei a um pensamento muito interessante de cunho ontológico. Minhas duvidas e preocupações para com a existência me levam constantemente a me questionar sobre o que é o “ser”?
Em determinado momento do livro Paloma começa a observar o movimento dos corpos humanos, aparentemente uma observação comum, porém os olhos da garotinha estão carregados de analises filosóficas. Na cena a garotinha ao lado do pai assiste a um jogo de rugby na TV, e observa de forma extremamente perspicaz as coisas ao se redor: “A maioria das pessoas quando se mexem, bem, elas se mexem em função do que há em torno. Neste exato momento, enquanto estou escrevendo passa à gata Constituion, com a barriga arrastando no chão. Essa gata não tem nenhum projeto de vida constituído, mas se dirige para alguma coisa, provavelmente uma poltrona. E isso é visível pelo seu modo de se mexer: ela vai para. Mamãe acaba de passar na direção da porta de entrada, sai para fazer compras e, na verdade, já está fora, seu movimento se antecipa. Não sei muito bem como explicar isso, mas, quando nos deslocamos, somos, de certa forma, desestruturados por esse movimento para: estamos ali e ao mesmo tempo não estamos ali porque já estamos indo para outro lugar, se entendem o que quero dizer”. Uma observação do movimento digna de uma verdadeira fenomenologista! O que me interessa aqui é trazer essa observação para a questão ontológica, ao moldes existencialistas sartrianos. Paloma está procurando nos movimentos dos corpos humanos e mesmo das coisas um sentido estético sublime que faça parecer que a vida tem algum valor. Sem duvida nenhuma um ideal profundamente nietzscheano. Acho que não preciso dizer o quanto me apaixonei por essa incrível personagem! Vejamos então a continuação da observação de Paloma para que eu possa, então, fazer a minha própria observação. “Para parar de se desestruturar, é preciso parar de se mexer. Ou você se mexe e não está mais inteiro, ou você está inteiro e não pode se mexer”.
Partindo desse exemplo corriqueiro e facilmente imaginável sobre o movimento dos corpos e sobre a desestruturação dos mesmos, penso a questão do “ser”. Se pensarmos bem veremos que o indivíduo humano nunca chega a “ser” verdadeiramente enquanto está vivo. Se entendermos o “ser” como uma continuidade estável. Se definirmos a existência humana como uma constante modificação em direção ao “por-vir” ou nas palavras de Sartre um eterno reinventar de si mesmo, fica claro que estamos longe do “ser”. Isso se da pelo fato de sermos dotados como humanos de uma consciência. Sartre vê a consciência como uma atividade, um movimento em direção ao mundo externo. Em sua ontologia fenomenológica ele define duas formas fundamentais de “ser”, o “ser em-si” e o “ser para-si”. O segundo pertence à consciência humana, é caracterizado pela constante atividade, pela abertura para o mundo e pela capacidade de intencionar as coisas e objetos. O primeiro está relacionado as coisas, é fechado em si mesmo, inerte e opaco, ou seja, totalmente uno e não intencional, mas sim intencionável. Assim sendo, se possuímos uma consciência que é pura atividade e sempre está aberta ao mundo, nosso movimento rumo ao “ser” humano é análogo ao movimento dos corpos descrito por Paloma. Estamos sempre nos desestruturando nesse processo, porque paradoxalmente nós somos e não somos ao mesmo tempo.
Isso me leva inevitavelmente a pensar a nossa relação com o tempo. Se imaginarmos que o presente é um momento indefinido entre o passado e o futuro, chagamos a conclusão de que o presente é totalmente efêmero. Assim eu vejo o “ser”, como uma coisa totalmente efêmera. Tão leve quanto uma pluma que o vento arrasta pelos ares. Quase imperceptível como o orvalho que cai na madrugada e se acumula nas folhas, ou como a maresia que vem do mar. O “ser” é o que sempre passa e nunca fica, o único que fica é o eterno “por-vir” de que tanto falava Nietzsche.
Ao falar sobre o movimento, como já disse anteriormente, Paloma estava pensando sobre Arte, no sentido de valor estético que pode ser atribuído as coisas para que essas pareçam ter algum sentido, ela procura um “motivo existencial” (ver texto do blog com o mesmo nome). Para entendemos isso transcrevo outro fragmento das observações de Paloma, desta vez sobre um jogador de rogby que ela viu na TV fazendo um ritual típico desse jogo chamado haka: “Todo mundo estava hipnotizado por ele, mas ninguém parecia de fato saber por quê. No entanto, isso ficou claro no haka: ele se mexia, fazia os mesmos gestos que os outros (bater as palmas das mãos nas coxas, martelar o chão em cadencia, encostar-se com os cotovelos, tudo isso olhando nos olhos do adversário com ares de guerreiro irritado), mas, enquanto os gestos dos outros iam em direção dos adversários e de todo o estádio que olhava para eles, os gestos desse jogador ficavam nele mesmo, concentrados nele, e isso lhe dava uma presença, uma intensidade incrível... Assim, assisti ao jogo com atenção, procurando sempre a mesma coisa: momentos compactos em que um jogador se torna seu próprio movimentos sem precisar se fragmentar ao se dirigir para.” Paloma chama a atenção para o fato desse jogador se destacar, porque parece que a atividade que ele esta praticando basta-se em si mesma, e isso lhe da intensidade e verdade, ela denomina isso como “movimento imóvel”. E não é assim que deve ser a Arte afinal de contas? A Arte que se basta por si só como valor transcendente da existência humana! Pensemos que quando nos movimentamos alheatoriamente estamos em uma atividade inconstante, fragmentada, desestruturada e sem sentido. No caso de uma dançarina, ela também faz uma serie de movimentos fragmentados e desestruturados, porém ao som de uma música esses movimentos se unem em um todo complexo que da origem a dança, que por sua vez carrega um sentido estético profundo para quem dança e para quem aprecia a dança. Sabendo, portanto que a existência em si não carrega sentido algum, não tem nenhum valor “a priori”. Que mundo em si é um caos completo incontrolável e inexplicável. Percebemos o quanto é dificil não nos perdermos na veleidade do “ser”, e a importancia de buscarmos fazer do movimento da consciência rumo ao “ser” uma dança e não um cambalear tortuoso. Isso é encarar a aventura sem fim da constituição de nós mesmos!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Compaixão


“Há em suma apenas três motivações fundamentais das ações humanas, e só por meio do estimulo delas é que agem todos os outros motivos possíveis. Elas são:
A) Egoísmo, que quer seu próprio bem (é ilimitado);
B) Maldade, que quer o mal alheio (chega até a mais extrema crueldade);
C) Compaixão, que quer o bem-estar alheio (chega até a nobreza moral e a generosidade)” .
(Schopenahuer, Sobre o fundamento da moral).
No ano de 1840, a Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague levantou o seguinte questionamento: “A fonte e o fundamento da filosofia da moral devem ser buscados numa idéia de moralidade contida na consciência imediata e em outras noções fundamentais que dela derivam ou em outro principio do conhecimento?”. A fim de respondê-lo o filosofo alemão Arthur Schopenhauer escreveu um tratado filosófico intitulado “Sobre o fundamento da moral”. Pretendo aqui refletir brevemente sobre as idéias schopenhaurianas presentes nesse tratado que apesar de ter sido escrito no século XIX me parece muito útil para se pensar à contemporaneidade. Vivemos em um mundo capitalista de imensas explorações e desigualdades sociais, políticas e econômicas. Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico do último século e a grande capacidade produtora das indústrias o mundo ainda é assolado pela fome e pela miséria. Apesar de todo o acumulo de conhecimento cientifico ainda sofremos de intolerância étnica e religiosa, e os conflitos armados matam milhares de pessoas todos os dias, a exploração descontrolada e irresponsável da natureza cada vez mais se agrava provocando catástrofes em todas as partes. Ao pensarmos essa realidade entendemos um pouco o que Schopenhauer queria dizer quando falava de egoísmo e maldade como formas de motivação da ação humana. Aparentemente tais motivações não só existem de sobra como são o que move o nosso sistema. Mesmo imbuindo de pessimismo a filosofia de Schopenahuer convida-nos a pensar o celebre sentimento da compaixão, o que significa, como se manifesta e principalmente qual é seu papel entres as relações humanas e a moralidade.
Ao pensar em compaixão lembra-se logo da filosofia cristã e do mandamento bíblico que diz, “amaras a teu próximo como a ti mesmo”. É inegável que apesar de ateu Schopenhauer tem uma enorme influencia da cultura judaico-cristã, porém em sua posição de filosofo e cientista ele busca desvincular a moral e a ética de conceitos teológicos. Comecemos do principio, para falar sobre o fundamento da moral deve-se compreender o que Schopenhauer entende por moral. A palavra moral vem do latim mores e quer dizer costume, filosoficamente falando moral significa conjunto de valores, regras, costumes e hábitos sociais. Assim sendo moral está diretamente vinculada à ação humana, ou seja, ao agir de um individuo para com outros. Como é de se imaginar a moral esteve presente de formas variadas em todas as formações sociais na história dos seres humanos, por isso ela é um campo muito vasto da filosofia estando sua reflexão presente em todos os grandes pensadores da história. A moral só existe no campo dos relacionamentos sociais, assim sendo Schopenhauer afirma que o contrario de uma ação moral e uma ação egoísta. Uma ação egoísta pode ser definida como uma ação vinculada somente às necessidades do eu, e totalmente desinteressada para com as necessidades de um outro. Portanto para uma ação ganhar valor moral, de justiça e caridade ela não pode ter como motivo imediato nenhum interesse egoísta. Uma ação moral deve levar em conta o bem-estar e o mal-estar de um outro como se esse fosse o meu próprio. Schopenhauer ao pensar em nossa condição animal descobre que a auto-preservação e a auto-satisfação são nossos instintos primordiais, assim sendo o egoísmo. A grande pergunta que se apresenta agora é: como negar o egoísmo sendo ele instinto primordial e agir para com outro como se fosse eu mesmo? É ai que começamos a tratar sobre a compaixão, sendo ela também uma motivação primordial nos seres humanos.
Ao nos percebermos como indivíduos, ganhamos facilmente a noção empírica da diferença entre o eu e o outro, é inegável que os seres humanos carregam muitas diferenças entre si, o que aumenta a separação entre cada um. Isso dificulta ainda mais a pergunta feita no parágrafo anterior, como é possível frente a essa inegável diferença entre os indivíduos agir com o outro como se esse fosse eu mesmo? Para solucionar esse dilema Schopenahuer aponta para a compaixão. Para o filosofo alemão a compaixão está ligada exatamente à destruição dessas diferenças que percebemos entre os indivíduos, ou pelo menos uma diminuição. A compaixão é o sentimento de identificação com a dor alheia, de tal forma que a dor alheia passa a ser sentida como a minha própria dor. Ao sentirmos a dor do outro como nossa própria, diminuímos essa diferença entre o eu e o outro e é ai que surge o verdadeiro valor moral como uma entrega desinteressada ao outro, suprimindo mesmo que parcialmente o egoísmo. A compaixão é o fundamento de toda moral e, portanto, de toda a justiça livre e de toda caridade genuína. A compaixão não pode por sua vez ser induzida artificialmente e externamente, ela provem do interior da alma é um sentimento que se manifesta naturalmente em qualquer ser humano, apesar de que não se manifesta sempre.
Disso pode vir a surgir outro interessante questionamento: porque somente a dor do outro é que gera a compaixão e não o prazer ou a felicidade? Schopenhauer ficou conhecido pelo seu profundo pessimismo existencial, que apesar de ser um tanto quanto radical é muito coerente, se não vejamos. Ele afirma que a dor e o sofrimento são as características principais da existência humana. Como diz o personagem Agamêmnon na tragédia “Ifigênia” de Eurípedes: “Não há entre os mortais um só cuja existência seja perenemente próspera e feliz. Nunca existiu alguém imune ao sofrimento”. Assim sendo Schopenhauer diz que a dor alheia desperta a compaixão porque a dor e o sofrimento são sentimentos positivos que se fazem sentir imediatamente. Enquanto o prazer e a felicidade consistem simplesmente na supressão temporária de alguma carência, portanto sentimentos negativos. É nisto que consiste o fato de que somente a dor, o sofrimento e carência despertam a compaixão e a necessidade de participação frente ao outro, enquanto a felicidade e a satisfação nos são indiferentes por serem estados negativos.
A noção de compaixão como uma forma de perceber a igualdade entre os seres humanos vem na historia da filosofia do pensamento de Jean-Jacques Rousseau, filosofo iluminista muito apreciado por Schopenhauer. Além disso, toda essa fundamentação da moral na compaixão tem muito haver com a visão cosmológica de Schopenhauer, que acredita que tudo no universo provem de uma força metafísica irracional denominada Vontade. Se tudo que existe não passa de fenômeno dessa Vontade então no fundo todos os seres tem a mesma essência, inclusive os seres humanos. Essa é a fundamentação metafísica que Schopenhauer da a moral e a compaixão, isso é o que marca definitivamente sua ética.
Se pensarmos os dias atuais percebemos que a realidade contradiz os dizeres do velho filosofo. Em nosso sistema capitalista a moral se tornou materialista, e seu fundamento esta na busca de lucro e no acumulo de capital. Nossos principais valores como a competição, o individualismo e o consumismo geram um sentimento de total egoísmo, o que obviamente só agrava mais ainda a desigualdade entre os seres humanos. A ética schopenhauriana nos serve principalmente para pensarmos a relação com o outro. Se grande parte de nossos problemas vem do fato de termos nos tornado tão diferentes a compaixão surge como alternativa para tentarmos perceber o que nos faz iguais e nos uni. As teses de Schopenhauer são compostas por conceitos e idéias de filosofias antiguíssimas dos primórdios da humanidade como o cristianismo primitivo, o hinduismo e o budismo. Todas elas repletas de sabedoria milenar que de uma forma ou de outra sempre valem para as reflexões.
“...A multiplicidade e a separabilidade pertencem somente ao mero fenômeno, e é uma e mesma essência que se apresenta em todos os viventes. Assim, a apreensão que suprime a diferença entre o eu e o não-eu não é a errônea, mas sim a que lhe é oposta. Encontramos esta última indicada pelos hindus pelo nome de ‘Maja’, quer dizer, ilusão, engano, fantasma. Aquele primeiro aspecto é o que encontramos como sendo aquilo que está no fundamento do fenômeno da compaixão e mesmo como a expressão real dele. Seria portanto a base metafísica da ética e consistiria no fato de que um indivíduo se reconhece a si próprio, a sua essência verdadeira, imediatamente no outro”. (Schopenhauer, Sobre o fundamento da moral).

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Tom Zé e a metafísica das Idéias




De repente, não mais que de repente, eis que entra no teatro o personagem tão esperado. Entrou pelo lado da platéia, estava de jaqueta e calça jeans, ostentando um espírito quase que kantiano foi logo delimitando exatamente o tempo que gastaríamos em nossa conversa, empunhando o relógio nas mãos marcou as horas os segundos e os minutos. Era um homem de estatura baixa, rosto de traços fortes e corpo franzino no alto de seus 72 anos. Vindo de Irara ele traz em sua história ditadura, música, tropicalismo, arte, originalidade, critica, humor, ironias e muita nordestinidade e brasilidade. Em seus olhos se misturava a humildade dos mortais e a grandiosidade dos gênios! Tinha um ar melancólico, digno dos poetas, porém trazia uma esperança verdadeira em suas palavras. Seu ar filosófico às vezes de cientista louco trousse a principio risadas (assim é com tudo que foge ao “normal”). Mas em sua grande experiência, que provavelmente o levou a paciência, suportou as risadas nervosas e com leves e simpáticas criticas conduziu a pequena platéia a encarar com mais seriedade sua proposta de reflexão.
Ostentando com grande propriedade o discurso de alguns pensadores brasileiros como Gilberto Freyre, Darci Ribeiro, Sergio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha (esse último foi citado muitas vezes), que ao longo do século XX buscaram erguer a auto-estima do povo brasileiro valorizando nossa origem mestiça, nossa cultura hibrida e nosso profundo sincretismo étnico. O jovem senhor explicou utilizando elementos históricos a origem da “inventividade” do nosso povo brasileiro. Nosso contato com a riquíssima cultura dos povos árabes do norte da África vem dos portugueses que já eram miscigenados com tais povos desde o século VII a.C, com a invasão mulçumana a península Ibérica. Os árabes sempre tiveram uma cultura cientifica e filosófica sofisticada. Deles, afirmou o músico historiador, vem nossa primeira herança histórica que caracteriza nossa criatividade e capacidade inventiva ante as intempéries da existência.
Tudo isso somente para introduzir o tema principal da palestra, que era a metafísica das idéias (titulo dado por mim e não pelo palestrante). Tom Zé atentou para a importância de valorizarmos nossas idéias, mesmo as menores que parecem não ter sentido algum. Ele levou-me a pensar com mais cuidado em: o que é uma idéia?! De acordo com minhas reflexões, arrisco dizer que uma idéia é uma forte descarga de energia mental, um fenômeno metafísico(no sentido restrito da palavra) de origem obscura e que envolve inúmeros fatores internos e externos do individuo. É como um estalo psíquico, um relâmpago que corta os céus em dias de tempestade. Surge sem aviso prévio, às vezes até contrariando a vontade do ser pensante! A idéia traz em sua constituição primaria à descontinuidade, a fragmentação a fratura, a ruptura com o “normal”, o convencional, o já conhecido e explorado. Sem duvida traz como grande característica a novidade, o diferente o original. E caso seja valorizada e investida pode trazer também a modificação do real. E é nesse ponto que nosso caríssimo palestrante explorou a importância das idéias como instrumentos para os indivíduos que tem pretensões de mudar o mundo em que vivem. A figura de Tom Zé, e esse comentário é dispensável para quem conhece sua obra musical, sempre trouxe a imagem da contracultura, do revolucionário, do rebelde, do questionador, o subversivo, o eterno “cavador do infinito”. É claro que em sua grande experiência Tom Zé advertiu que o mundo é muito grande e complexo para ser mudado de uma só vez, mas garantiu com sua vivencia própria que cada pequena idéia posta em pratica contribuí imensamente para futuras modificações relativamente importantes para a espécie humana. Sem duvida suas palavras se voltaram para os sujeitos inquietos e criativos que não se cansam de reinventar o mundo, os espíritos livres! Em sua apresentação esbanjou juventude física e espiritual, unindo a experiência de um senhor e a liberdade criativa de uma criança!
Pus-me a pensar como surge uma idéia. Imagino que os pensamentos quando por algum motivo são instigados eles abrem trilhas e rumos pela mente, e quando por trama do acaso algumas dessas trilhas se encontram, criando um cruzamento ou vários, eis que do choque repentino se faz à luz! Uma explosão de informações, sentimentos, esperanças, medos, linguagem, raciocínio, vontade de sim e de não. A Idéia, que muitas vezes até parece ter vida própria, às vezes te acalanta e consola, outras te atormenta e angustia.Surge pequenina, raquítica, sem muita expressão, mas quando bem tratada e bem alimentada cresce e se desenvolve forte e transformadora do indivíduo e de seu mundo. Tom Zé exemplificou bem ao citar Santos Dumont, que saiu do Brasil com uma idéia e por investimento próprio e do governo francês criou o avião. O mesmo pode-se dizer de João Gilberto e a Bossa Nova, para ficar nos exemplos brasileiros o que fortificar a argumentação histórica de Tom Zé em relação a nossa inventividade. João veio de Juazeiro com sua violinha no saco sua voz baixinha e seu jeito único de tocar de onde nasce a Bossa Nova. Ritmo que de acordo com o estudo de Tom Zé sobre a Bossa, “inventou o Brasil”. E a Europa e os EUA disseram: “Que povinho audacioso que povo civilizado” De uma Idéia minúscula que a principio parecia até ridícula surge uma verdadeira mudança de perspectivas e o mesmo pode-se exemplificar com a Tropicália também.
A Idéia para Platão é uma entidade metafísica que traz em si toda a verdade, a perfeição e a eternidade. Dela provem tudo que compõe o mundo material e corpóreo, sendo os objetos e seres desse mundo, meras copias imperfeitas ou manifestações fenomenais das Idéias. O velho filósofo levava muito a serio as Idéias, sua metafísica transcendental é questionavel, e assim o foi na história da filosofia, mas e sempre bom lembrar Platão. Melhor do que divinizar as Idéia, como a do filosofo grego, Tom Zé as encarou como coisa humana e imanente e lembrou-nos a importância de levá-las a serio e de encarar a responsabilidade de plantá-las bem, regá-las, dar-lhes tempo de brotar, porque assim uma hora ou outra elas dão frutos. Obviamente não explorei tal tema de forma tão rica quanto Tom Zé, porém me dou ao luxo de inriquesser meu texto com os verso de mais um incrível exemplar de criatividade e espírito artístico da história da cultura brasileira, um nordestino também, nascido na cidade de Pau d'Arco, Paraíba.Finalizo esse despretensioso e corriqueiro ensaio com poesia, afinal não existe nada que os poetas já não tenham dito. Apesar do leve pessimismo digno dos grandes poetas concerteza tal poesia nasceu de uma Idéia e isso colabora com toda a Ideía desse texto.
A Idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.
(Augusto dos Anjos)