quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A respeito da Liberdade...!


A Liberdade esse eterno paradigma humano! Essa vontade latente, esse constante buscar, esse inefável pensamento, esse fulgurante criar! E quem sabe no fundo o que ela é? Um Sentimento ou uma Razão? Uma coisa ou uma abstração? Um estado ou será uma condição?
Uma palavra de múltiplas facetas. De inumeráveis semânticas e morfologias, de várias línguas e povos. De diversas ideologias e filosofias, histórias e imaginação, muitas formas e cores, pesos e medidas. Paras uns é azul como o infinito do céu! Para outros, vermelha como o sangue das revoluções e escravidões!
E eu o que posso afinal falar da Liberdade?! Eu mero animal humano, pequenino vivente mortal do universo. O que sabe minha pobre consciência formada de tantos Iluminismos, Darwinismos e Marxismos?!
Eu digo com força da fé! Que o ser humano surge naturalmente provido da Liberdade, e que não me deixe mentir sozinho Rousseau! Porém, por motivos nefastos, o pobre ser humano perde sua Liberdade em seu próprio mundo, dentro de sua casa-alma. E depois, passa á vida toda em busca da desaparecida e amada Liberdade...E digo mais...!
Digo também que, cientificamente falando o ser humano nasce desprovido de Liberdade. Prezo a sua condição animal, biológica e material. Podendo assim ser um lobo ou um macaco ou se no caso de nenhuma outra espécie o amparar, um repolho como Kaspar Hauser. Mas se ele encontra outros humanos, ao longo do tempo ele vai desenvolvendo suas capacidades intelectuais, culturais e espirituais e pouco a pouco constrói sua tão esperada Liberdade.
Contraditória, assim é a Liberdade! E por isso é que essa palavra morre e renasce cada vez que um poeta a pronuncia. Morre e renasce a cada lagrima que escore, em cada boca que braveja, em cada coração que sangra! Pesada como a responsabilidade. Mas tão leve quanto o “ser”. Efêmera como uma escolha. Inalcançável como o Amor Romântico. Mas o que posso afirmar com verdade sobre a tal Liberdade, pulga atrás da orelha da humanidade. É que não há quem possa dizer com certeza se o ser humano há tem, há teve ou ainda há terá!

domingo, 11 de janeiro de 2009

O movimento rumo ao "ser"


Dialogando com minha nova amiguinha intelectual, apesar dos poucos 12 anos de idade, a personagem Paloma do best-seller clandestino “A elegância do ouriço”, cheguei a um pensamento muito interessante de cunho ontológico. Minhas duvidas e preocupações para com a existência me levam constantemente a me questionar sobre o que é o “ser”?
Em determinado momento do livro Paloma começa a observar o movimento dos corpos humanos, aparentemente uma observação comum, porém os olhos da garotinha estão carregados de analises filosóficas. Na cena a garotinha ao lado do pai assiste a um jogo de rugby na TV, e observa de forma extremamente perspicaz as coisas ao se redor: “A maioria das pessoas quando se mexem, bem, elas se mexem em função do que há em torno. Neste exato momento, enquanto estou escrevendo passa à gata Constituion, com a barriga arrastando no chão. Essa gata não tem nenhum projeto de vida constituído, mas se dirige para alguma coisa, provavelmente uma poltrona. E isso é visível pelo seu modo de se mexer: ela vai para. Mamãe acaba de passar na direção da porta de entrada, sai para fazer compras e, na verdade, já está fora, seu movimento se antecipa. Não sei muito bem como explicar isso, mas, quando nos deslocamos, somos, de certa forma, desestruturados por esse movimento para: estamos ali e ao mesmo tempo não estamos ali porque já estamos indo para outro lugar, se entendem o que quero dizer”. Uma observação do movimento digna de uma verdadeira fenomenologista! O que me interessa aqui é trazer essa observação para a questão ontológica, ao moldes existencialistas sartrianos. Paloma está procurando nos movimentos dos corpos humanos e mesmo das coisas um sentido estético sublime que faça parecer que a vida tem algum valor. Sem duvida nenhuma um ideal profundamente nietzscheano. Acho que não preciso dizer o quanto me apaixonei por essa incrível personagem! Vejamos então a continuação da observação de Paloma para que eu possa, então, fazer a minha própria observação. “Para parar de se desestruturar, é preciso parar de se mexer. Ou você se mexe e não está mais inteiro, ou você está inteiro e não pode se mexer”.
Partindo desse exemplo corriqueiro e facilmente imaginável sobre o movimento dos corpos e sobre a desestruturação dos mesmos, penso a questão do “ser”. Se pensarmos bem veremos que o indivíduo humano nunca chega a “ser” verdadeiramente enquanto está vivo. Se entendermos o “ser” como uma continuidade estável. Se definirmos a existência humana como uma constante modificação em direção ao “por-vir” ou nas palavras de Sartre um eterno reinventar de si mesmo, fica claro que estamos longe do “ser”. Isso se da pelo fato de sermos dotados como humanos de uma consciência. Sartre vê a consciência como uma atividade, um movimento em direção ao mundo externo. Em sua ontologia fenomenológica ele define duas formas fundamentais de “ser”, o “ser em-si” e o “ser para-si”. O segundo pertence à consciência humana, é caracterizado pela constante atividade, pela abertura para o mundo e pela capacidade de intencionar as coisas e objetos. O primeiro está relacionado as coisas, é fechado em si mesmo, inerte e opaco, ou seja, totalmente uno e não intencional, mas sim intencionável. Assim sendo, se possuímos uma consciência que é pura atividade e sempre está aberta ao mundo, nosso movimento rumo ao “ser” humano é análogo ao movimento dos corpos descrito por Paloma. Estamos sempre nos desestruturando nesse processo, porque paradoxalmente nós somos e não somos ao mesmo tempo.
Isso me leva inevitavelmente a pensar a nossa relação com o tempo. Se imaginarmos que o presente é um momento indefinido entre o passado e o futuro, chagamos a conclusão de que o presente é totalmente efêmero. Assim eu vejo o “ser”, como uma coisa totalmente efêmera. Tão leve quanto uma pluma que o vento arrasta pelos ares. Quase imperceptível como o orvalho que cai na madrugada e se acumula nas folhas, ou como a maresia que vem do mar. O “ser” é o que sempre passa e nunca fica, o único que fica é o eterno “por-vir” de que tanto falava Nietzsche.
Ao falar sobre o movimento, como já disse anteriormente, Paloma estava pensando sobre Arte, no sentido de valor estético que pode ser atribuído as coisas para que essas pareçam ter algum sentido, ela procura um “motivo existencial” (ver texto do blog com o mesmo nome). Para entendemos isso transcrevo outro fragmento das observações de Paloma, desta vez sobre um jogador de rogby que ela viu na TV fazendo um ritual típico desse jogo chamado haka: “Todo mundo estava hipnotizado por ele, mas ninguém parecia de fato saber por quê. No entanto, isso ficou claro no haka: ele se mexia, fazia os mesmos gestos que os outros (bater as palmas das mãos nas coxas, martelar o chão em cadencia, encostar-se com os cotovelos, tudo isso olhando nos olhos do adversário com ares de guerreiro irritado), mas, enquanto os gestos dos outros iam em direção dos adversários e de todo o estádio que olhava para eles, os gestos desse jogador ficavam nele mesmo, concentrados nele, e isso lhe dava uma presença, uma intensidade incrível... Assim, assisti ao jogo com atenção, procurando sempre a mesma coisa: momentos compactos em que um jogador se torna seu próprio movimentos sem precisar se fragmentar ao se dirigir para.” Paloma chama a atenção para o fato desse jogador se destacar, porque parece que a atividade que ele esta praticando basta-se em si mesma, e isso lhe da intensidade e verdade, ela denomina isso como “movimento imóvel”. E não é assim que deve ser a Arte afinal de contas? A Arte que se basta por si só como valor transcendente da existência humana! Pensemos que quando nos movimentamos alheatoriamente estamos em uma atividade inconstante, fragmentada, desestruturada e sem sentido. No caso de uma dançarina, ela também faz uma serie de movimentos fragmentados e desestruturados, porém ao som de uma música esses movimentos se unem em um todo complexo que da origem a dança, que por sua vez carrega um sentido estético profundo para quem dança e para quem aprecia a dança. Sabendo, portanto que a existência em si não carrega sentido algum, não tem nenhum valor “a priori”. Que mundo em si é um caos completo incontrolável e inexplicável. Percebemos o quanto é dificil não nos perdermos na veleidade do “ser”, e a importancia de buscarmos fazer do movimento da consciência rumo ao “ser” uma dança e não um cambalear tortuoso. Isso é encarar a aventura sem fim da constituição de nós mesmos!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Compaixão


“Há em suma apenas três motivações fundamentais das ações humanas, e só por meio do estimulo delas é que agem todos os outros motivos possíveis. Elas são:
A) Egoísmo, que quer seu próprio bem (é ilimitado);
B) Maldade, que quer o mal alheio (chega até a mais extrema crueldade);
C) Compaixão, que quer o bem-estar alheio (chega até a nobreza moral e a generosidade)” .
(Schopenahuer, Sobre o fundamento da moral).
No ano de 1840, a Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague levantou o seguinte questionamento: “A fonte e o fundamento da filosofia da moral devem ser buscados numa idéia de moralidade contida na consciência imediata e em outras noções fundamentais que dela derivam ou em outro principio do conhecimento?”. A fim de respondê-lo o filosofo alemão Arthur Schopenhauer escreveu um tratado filosófico intitulado “Sobre o fundamento da moral”. Pretendo aqui refletir brevemente sobre as idéias schopenhaurianas presentes nesse tratado que apesar de ter sido escrito no século XIX me parece muito útil para se pensar à contemporaneidade. Vivemos em um mundo capitalista de imensas explorações e desigualdades sociais, políticas e econômicas. Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico do último século e a grande capacidade produtora das indústrias o mundo ainda é assolado pela fome e pela miséria. Apesar de todo o acumulo de conhecimento cientifico ainda sofremos de intolerância étnica e religiosa, e os conflitos armados matam milhares de pessoas todos os dias, a exploração descontrolada e irresponsável da natureza cada vez mais se agrava provocando catástrofes em todas as partes. Ao pensarmos essa realidade entendemos um pouco o que Schopenhauer queria dizer quando falava de egoísmo e maldade como formas de motivação da ação humana. Aparentemente tais motivações não só existem de sobra como são o que move o nosso sistema. Mesmo imbuindo de pessimismo a filosofia de Schopenahuer convida-nos a pensar o celebre sentimento da compaixão, o que significa, como se manifesta e principalmente qual é seu papel entres as relações humanas e a moralidade.
Ao pensar em compaixão lembra-se logo da filosofia cristã e do mandamento bíblico que diz, “amaras a teu próximo como a ti mesmo”. É inegável que apesar de ateu Schopenhauer tem uma enorme influencia da cultura judaico-cristã, porém em sua posição de filosofo e cientista ele busca desvincular a moral e a ética de conceitos teológicos. Comecemos do principio, para falar sobre o fundamento da moral deve-se compreender o que Schopenhauer entende por moral. A palavra moral vem do latim mores e quer dizer costume, filosoficamente falando moral significa conjunto de valores, regras, costumes e hábitos sociais. Assim sendo moral está diretamente vinculada à ação humana, ou seja, ao agir de um individuo para com outros. Como é de se imaginar a moral esteve presente de formas variadas em todas as formações sociais na história dos seres humanos, por isso ela é um campo muito vasto da filosofia estando sua reflexão presente em todos os grandes pensadores da história. A moral só existe no campo dos relacionamentos sociais, assim sendo Schopenhauer afirma que o contrario de uma ação moral e uma ação egoísta. Uma ação egoísta pode ser definida como uma ação vinculada somente às necessidades do eu, e totalmente desinteressada para com as necessidades de um outro. Portanto para uma ação ganhar valor moral, de justiça e caridade ela não pode ter como motivo imediato nenhum interesse egoísta. Uma ação moral deve levar em conta o bem-estar e o mal-estar de um outro como se esse fosse o meu próprio. Schopenhauer ao pensar em nossa condição animal descobre que a auto-preservação e a auto-satisfação são nossos instintos primordiais, assim sendo o egoísmo. A grande pergunta que se apresenta agora é: como negar o egoísmo sendo ele instinto primordial e agir para com outro como se fosse eu mesmo? É ai que começamos a tratar sobre a compaixão, sendo ela também uma motivação primordial nos seres humanos.
Ao nos percebermos como indivíduos, ganhamos facilmente a noção empírica da diferença entre o eu e o outro, é inegável que os seres humanos carregam muitas diferenças entre si, o que aumenta a separação entre cada um. Isso dificulta ainda mais a pergunta feita no parágrafo anterior, como é possível frente a essa inegável diferença entre os indivíduos agir com o outro como se esse fosse eu mesmo? Para solucionar esse dilema Schopenahuer aponta para a compaixão. Para o filosofo alemão a compaixão está ligada exatamente à destruição dessas diferenças que percebemos entre os indivíduos, ou pelo menos uma diminuição. A compaixão é o sentimento de identificação com a dor alheia, de tal forma que a dor alheia passa a ser sentida como a minha própria dor. Ao sentirmos a dor do outro como nossa própria, diminuímos essa diferença entre o eu e o outro e é ai que surge o verdadeiro valor moral como uma entrega desinteressada ao outro, suprimindo mesmo que parcialmente o egoísmo. A compaixão é o fundamento de toda moral e, portanto, de toda a justiça livre e de toda caridade genuína. A compaixão não pode por sua vez ser induzida artificialmente e externamente, ela provem do interior da alma é um sentimento que se manifesta naturalmente em qualquer ser humano, apesar de que não se manifesta sempre.
Disso pode vir a surgir outro interessante questionamento: porque somente a dor do outro é que gera a compaixão e não o prazer ou a felicidade? Schopenhauer ficou conhecido pelo seu profundo pessimismo existencial, que apesar de ser um tanto quanto radical é muito coerente, se não vejamos. Ele afirma que a dor e o sofrimento são as características principais da existência humana. Como diz o personagem Agamêmnon na tragédia “Ifigênia” de Eurípedes: “Não há entre os mortais um só cuja existência seja perenemente próspera e feliz. Nunca existiu alguém imune ao sofrimento”. Assim sendo Schopenhauer diz que a dor alheia desperta a compaixão porque a dor e o sofrimento são sentimentos positivos que se fazem sentir imediatamente. Enquanto o prazer e a felicidade consistem simplesmente na supressão temporária de alguma carência, portanto sentimentos negativos. É nisto que consiste o fato de que somente a dor, o sofrimento e carência despertam a compaixão e a necessidade de participação frente ao outro, enquanto a felicidade e a satisfação nos são indiferentes por serem estados negativos.
A noção de compaixão como uma forma de perceber a igualdade entre os seres humanos vem na historia da filosofia do pensamento de Jean-Jacques Rousseau, filosofo iluminista muito apreciado por Schopenhauer. Além disso, toda essa fundamentação da moral na compaixão tem muito haver com a visão cosmológica de Schopenhauer, que acredita que tudo no universo provem de uma força metafísica irracional denominada Vontade. Se tudo que existe não passa de fenômeno dessa Vontade então no fundo todos os seres tem a mesma essência, inclusive os seres humanos. Essa é a fundamentação metafísica que Schopenhauer da a moral e a compaixão, isso é o que marca definitivamente sua ética.
Se pensarmos os dias atuais percebemos que a realidade contradiz os dizeres do velho filosofo. Em nosso sistema capitalista a moral se tornou materialista, e seu fundamento esta na busca de lucro e no acumulo de capital. Nossos principais valores como a competição, o individualismo e o consumismo geram um sentimento de total egoísmo, o que obviamente só agrava mais ainda a desigualdade entre os seres humanos. A ética schopenhauriana nos serve principalmente para pensarmos a relação com o outro. Se grande parte de nossos problemas vem do fato de termos nos tornado tão diferentes a compaixão surge como alternativa para tentarmos perceber o que nos faz iguais e nos uni. As teses de Schopenhauer são compostas por conceitos e idéias de filosofias antiguíssimas dos primórdios da humanidade como o cristianismo primitivo, o hinduismo e o budismo. Todas elas repletas de sabedoria milenar que de uma forma ou de outra sempre valem para as reflexões.
“...A multiplicidade e a separabilidade pertencem somente ao mero fenômeno, e é uma e mesma essência que se apresenta em todos os viventes. Assim, a apreensão que suprime a diferença entre o eu e o não-eu não é a errônea, mas sim a que lhe é oposta. Encontramos esta última indicada pelos hindus pelo nome de ‘Maja’, quer dizer, ilusão, engano, fantasma. Aquele primeiro aspecto é o que encontramos como sendo aquilo que está no fundamento do fenômeno da compaixão e mesmo como a expressão real dele. Seria portanto a base metafísica da ética e consistiria no fato de que um indivíduo se reconhece a si próprio, a sua essência verdadeira, imediatamente no outro”. (Schopenhauer, Sobre o fundamento da moral).

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Tom Zé e a metafísica das Idéias




De repente, não mais que de repente, eis que entra no teatro o personagem tão esperado. Entrou pelo lado da platéia, estava de jaqueta e calça jeans, ostentando um espírito quase que kantiano foi logo delimitando exatamente o tempo que gastaríamos em nossa conversa, empunhando o relógio nas mãos marcou as horas os segundos e os minutos. Era um homem de estatura baixa, rosto de traços fortes e corpo franzino no alto de seus 72 anos. Vindo de Irara ele traz em sua história ditadura, música, tropicalismo, arte, originalidade, critica, humor, ironias e muita nordestinidade e brasilidade. Em seus olhos se misturava a humildade dos mortais e a grandiosidade dos gênios! Tinha um ar melancólico, digno dos poetas, porém trazia uma esperança verdadeira em suas palavras. Seu ar filosófico às vezes de cientista louco trousse a principio risadas (assim é com tudo que foge ao “normal”). Mas em sua grande experiência, que provavelmente o levou a paciência, suportou as risadas nervosas e com leves e simpáticas criticas conduziu a pequena platéia a encarar com mais seriedade sua proposta de reflexão.
Ostentando com grande propriedade o discurso de alguns pensadores brasileiros como Gilberto Freyre, Darci Ribeiro, Sergio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha (esse último foi citado muitas vezes), que ao longo do século XX buscaram erguer a auto-estima do povo brasileiro valorizando nossa origem mestiça, nossa cultura hibrida e nosso profundo sincretismo étnico. O jovem senhor explicou utilizando elementos históricos a origem da “inventividade” do nosso povo brasileiro. Nosso contato com a riquíssima cultura dos povos árabes do norte da África vem dos portugueses que já eram miscigenados com tais povos desde o século VII a.C, com a invasão mulçumana a península Ibérica. Os árabes sempre tiveram uma cultura cientifica e filosófica sofisticada. Deles, afirmou o músico historiador, vem nossa primeira herança histórica que caracteriza nossa criatividade e capacidade inventiva ante as intempéries da existência.
Tudo isso somente para introduzir o tema principal da palestra, que era a metafísica das idéias (titulo dado por mim e não pelo palestrante). Tom Zé atentou para a importância de valorizarmos nossas idéias, mesmo as menores que parecem não ter sentido algum. Ele levou-me a pensar com mais cuidado em: o que é uma idéia?! De acordo com minhas reflexões, arrisco dizer que uma idéia é uma forte descarga de energia mental, um fenômeno metafísico(no sentido restrito da palavra) de origem obscura e que envolve inúmeros fatores internos e externos do individuo. É como um estalo psíquico, um relâmpago que corta os céus em dias de tempestade. Surge sem aviso prévio, às vezes até contrariando a vontade do ser pensante! A idéia traz em sua constituição primaria à descontinuidade, a fragmentação a fratura, a ruptura com o “normal”, o convencional, o já conhecido e explorado. Sem duvida traz como grande característica a novidade, o diferente o original. E caso seja valorizada e investida pode trazer também a modificação do real. E é nesse ponto que nosso caríssimo palestrante explorou a importância das idéias como instrumentos para os indivíduos que tem pretensões de mudar o mundo em que vivem. A figura de Tom Zé, e esse comentário é dispensável para quem conhece sua obra musical, sempre trouxe a imagem da contracultura, do revolucionário, do rebelde, do questionador, o subversivo, o eterno “cavador do infinito”. É claro que em sua grande experiência Tom Zé advertiu que o mundo é muito grande e complexo para ser mudado de uma só vez, mas garantiu com sua vivencia própria que cada pequena idéia posta em pratica contribuí imensamente para futuras modificações relativamente importantes para a espécie humana. Sem duvida suas palavras se voltaram para os sujeitos inquietos e criativos que não se cansam de reinventar o mundo, os espíritos livres! Em sua apresentação esbanjou juventude física e espiritual, unindo a experiência de um senhor e a liberdade criativa de uma criança!
Pus-me a pensar como surge uma idéia. Imagino que os pensamentos quando por algum motivo são instigados eles abrem trilhas e rumos pela mente, e quando por trama do acaso algumas dessas trilhas se encontram, criando um cruzamento ou vários, eis que do choque repentino se faz à luz! Uma explosão de informações, sentimentos, esperanças, medos, linguagem, raciocínio, vontade de sim e de não. A Idéia, que muitas vezes até parece ter vida própria, às vezes te acalanta e consola, outras te atormenta e angustia.Surge pequenina, raquítica, sem muita expressão, mas quando bem tratada e bem alimentada cresce e se desenvolve forte e transformadora do indivíduo e de seu mundo. Tom Zé exemplificou bem ao citar Santos Dumont, que saiu do Brasil com uma idéia e por investimento próprio e do governo francês criou o avião. O mesmo pode-se dizer de João Gilberto e a Bossa Nova, para ficar nos exemplos brasileiros o que fortificar a argumentação histórica de Tom Zé em relação a nossa inventividade. João veio de Juazeiro com sua violinha no saco sua voz baixinha e seu jeito único de tocar de onde nasce a Bossa Nova. Ritmo que de acordo com o estudo de Tom Zé sobre a Bossa, “inventou o Brasil”. E a Europa e os EUA disseram: “Que povinho audacioso que povo civilizado” De uma Idéia minúscula que a principio parecia até ridícula surge uma verdadeira mudança de perspectivas e o mesmo pode-se exemplificar com a Tropicália também.
A Idéia para Platão é uma entidade metafísica que traz em si toda a verdade, a perfeição e a eternidade. Dela provem tudo que compõe o mundo material e corpóreo, sendo os objetos e seres desse mundo, meras copias imperfeitas ou manifestações fenomenais das Idéias. O velho filósofo levava muito a serio as Idéias, sua metafísica transcendental é questionavel, e assim o foi na história da filosofia, mas e sempre bom lembrar Platão. Melhor do que divinizar as Idéia, como a do filosofo grego, Tom Zé as encarou como coisa humana e imanente e lembrou-nos a importância de levá-las a serio e de encarar a responsabilidade de plantá-las bem, regá-las, dar-lhes tempo de brotar, porque assim uma hora ou outra elas dão frutos. Obviamente não explorei tal tema de forma tão rica quanto Tom Zé, porém me dou ao luxo de inriquesser meu texto com os verso de mais um incrível exemplar de criatividade e espírito artístico da história da cultura brasileira, um nordestino também, nascido na cidade de Pau d'Arco, Paraíba.Finalizo esse despretensioso e corriqueiro ensaio com poesia, afinal não existe nada que os poetas já não tenham dito. Apesar do leve pessimismo digno dos grandes poetas concerteza tal poesia nasceu de uma Idéia e isso colabora com toda a Ideía desse texto.
A Idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.
(Augusto dos Anjos)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Breve ensaio sobre o Medo


“O medo é uma metáfora?” (Pergunta formulada por Jean-Claude Bernardet em “FilmeFobia”) Parece-me que sim! O Medo é uma metáfora, um símbolo, uma representação, uma mediação entre o inconsciente e o consciente. Como nasce o Medo? Quando passamos por uma experiência traumática, ou seja, uma experiência muito forte que não pode ser automaticamente assimilada por nossa psique, enterramos tal trauma em nosso subconsciente. O trauma se dá por causa do recalque de algum instinto, e é também chamado por Freud de "complexo”. Os “complexos” fazem parte dos processos psíquicos, porém necessitam serem sublimados, ou seja, transformados em energia positiva, criativa e proveitosa socialmente. Quando isso não ocorre o “complexo” ou trauma torna-se Medo. Os traumas são enterramos em nosso subconsciente por um mecanismo de autopreservação que tende a nos proteger de qualquer sensação, sentimento ou lembrança que, por algum motivo, nos ameaça e nos provoca muita dor. Em nossa infância por termos uma estrutura de caráter ainda indefinida e estarmos extremamente abertos e sensíveis às experiências, nos tornamos mais propícios a traumas profundos que provocam marcas na alma. Esses traumas para não nos destruir são enterrados no subconsciente em forma de Medo, presos até que o individuo tenha condições de encará-los, assimilá-los e sublimá-los. Assim se da o processo de transformação do caráter humano. A maturidade se dá quando o indivíduo consegue superar sublimando seus principais medos, sendo esse processo orgânico, instável e repleto de evoluções e involuções. O Medo se manifesta no consciente como uma sensação de profunda repulsa, pavor, desprezo, aversão. Porém o Medo é uma ponte entre os traumas mantidos no subconsciente e a nossa consciência. O Medo é uma metáfora, uma metáfora e uma representação, uma representação é uma coisa que substitui outra coisa lembrando-a. O Medo se constrói no consciente através de processos simbólicos, ligados ao inconsciente e ao contexto histórico e cultural do indivíduo e a sociedade em que foi criado. Objetos, animais, pessoas, lugares ou situações, ganham uma forte carga emotiva dentro do processo de individuação do sujeito, passando assim a serem signos. Por tanto, o Medo é uma metáfora que nos lembra de sensações, sentimentos e lembranças que estão presas no subconsciente e que só podem ser superadas quando encaradas e assimiladas por completo ao nosso ser. Pode-se encarar o Medo como um mecanismo comum a todos os seres humanos, e em níveis diferentes também a alguns tipos de animais. Mecanismo que nos protege e nos lembra de algo inacabado. Como o Medo se torna neurose e como a neurose passou a ser uma enfermidade da alma humana que caracteriza os indivíduos da cultura Ocidental Moderna do século XX? “A neurose não é, costumeiramente, definida como medo da vida, mas é exatamente isso. A pessoa neurótica tem medo de abrir o coração ao amor, teme estender a mão para pedir ou para agredir; amedronta-a ser plenamente si mesma” (Lowen). A Moderna cultura capitalista ocidental iniciou seu processo de formação em meados do século XVI, a partir desse período ocorrerão mudanças sociais, políticas e econômicas que se desdobraram até o século XX, como: o inicio das grandes navegações européias (marca o começo da globalização), a formação dos Estados Absolutistas europeus e dos movimentos nacionalistas, as políticas imperialistas e colonialistas, a formação da economia mercantilista, e a dupla revolução do século XVIII, a Revolução Industrial e a Francesa. No âmbito cultural da formação de novas idéias surgiram o Renascimento Cultural e o Humanismo, seguidos da filosofia Iluminista, a reforma protestante, o desenvolvimento do método cientifico, do modelo cartesiano e da física newtoniana. Além desses movimentos houve também o surgimento do cientificismo, a filosofia positivista de Auguste Comte, a ética utilitarista, o pensamento pragmático, o liberalismo, o marxismo e o evolucionismo de Darwin, marcas próprias do século XIX. Tudo isso forma a cultura ocidental capitalista, cabe agora tentar perceber como isso afetou e se manifestou nos indivíduos do século XX, que herdaram historicamente e culturalmente todos esses discursos da era Moderna. Na Idade Media o ser humano tinha como principal instituição criadora de “verdades” a Igreja católica, por tanto vivíamos em um modelo teocêntrico. No período da Modernidade o ser humano e deslocado para o centro e assim inaugura-se o modelo antropocêntrico. A Idade Media entendida pelos renascentistas e iluministas como um período de trevas por se basear na fé cega e nas superstições passa a ser desprezada. A radical valorização dos ideais greco-romanos traz a tona a Razão como essência humana. A Razão exaltada pelos Iluministas fortifica o espírito cientificista do ser humano transformando a Ciência na principal instituição da modernidade criadora de “verdades”. Assim inicia-se o “Império da Razão”. Os iluministas acreditavam que a luz da Razão iria iluminar todo o mundo livrando o ser humano da ignorância e permitindo-nos controlar toda a realidade ao nosso redor, apesar de serem anticlericais os Iluministas buscavam com a Razão o paraíso na terra e a salvação humana. Mas como afirmou Pascal, pensador do século XVII, existem dois excessos: “excluir a razão, não admitir senão a razão”. Os preceitos iluministas de Razão, Ciência e Civilização se espalharam pelo mundo oprimindo tudo que se opusesse a esses ideais e provocando a destruição e o massacre de outros povos com outras formas de vida (como o ocorrido com as nações indígenas na América). Mas como essa Modernidade afirma o Medo como neurose na contemporaneidade? Os humanos do século XX têm como principal herança da Modernidade o Medo. O medo do outro, o medo do diferente, o medo do desconhecido, do incontrolável, do inexplicável, portanto, o medo de tudo que foge a razão. Ao se abrirem para outros continentes os europeus se depararam com povos muito diferentes e por medo lhes impuseram de forma violenta sua forma de civilização, uma civilização racionalistas, extremamente controladora, violenta e muitas vezes desumana. Por isso o humano do século XX tomado pelos signos da Modernidade, a Razão, o Poder e o Progresso entra em conflito consigo mesmo. “O neurótico está em conflito consigo mesmo. Parte de seu ser está tentando sobrepujar uma outra parte. Seu ego está tentando dominar seu corpo; sua mente racional, controlar seus instintos; sua vontade, superar medos e ansiedades” (Lowen). Como se percebe as palavras “dominação” e “controle” estão presentes na definição do psicanalista Alexander Lowen. É como se a vontade da civilização européia de dominar e controlar os demais povos do planeta tivesse passado para o âmbito psicológico dos indivíduos do século XX, tornando-nos internamente conflituosos e assim neuróticos. O fato da mente racional estar tentando dominar os instintos fortifica a argumentação sobre o Medo, pois tal domínio dos instintos se dá exatamente por medo, pois os instintos são muitas vezes incontroláveis, inexplicáveis e totalmente irracionais. O Medo é o sentimento que está por traz de toda a busca por poder, ordem e controle da Civilização Ocidental Moderna, a neurose e a conseqüência de tal medo exacerbado. Isso se torna ainda mais claro nos versos do poeta.
Congresso Internacional do Medo
(Carlos Drummond de Andrade)
"Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,não cantaremos o ódio, porque este não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.Depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."

sábado, 22 de novembro de 2008

O motivo existencial


“A Sanfona é um instrumento mágico, é o corpo musical do artista, sem ela é como se faltasse uma parte do músico. Quem é Gilberto Monteiro? Um homem simples, comum como qualquer outro andando na rua, um homem pacato e até tímido. Mas quando ele toca a sanfona ele se transforma, torna-se grande, imenso como um gigante! Com a sanfona em mãos ele transforma o mundo! Agente fica até com medo de se dirigir a ele, tem que ter muito respeito, tem que se aproximar e pedindo licença para o maestro. Com a sanfona ele deixa de ser um homem comum e passa a ser um gênio!”
(Texto não integral, parafrasedo do filme “O Milagre de Santa Luzia”)


A existência precede a essência, dizem os existencialistas sartrianos. Mas o que é a existência? Será que a existência humana e somente estar vivo e respirando? Acredito que está definição de existência sirva bem para plantas e todos os tipos de animais, mas para o ser humano não é o suficiente. Nossa existência não pode ser resumida a nascer, crescer, se alimentar, reproduzir e morrer. Somos mais do que mera vida orgânica, biológica, somos alma, somos Arte! Sartre afirma que fomos jogados ao mundo sem absolutamente nada, e por isso a existência nos pesa tanto. Mas talvez o que nos pese não seja a existência, mas a falta de existência. Como assim falta de existência? Aqui modifico a noção recorrente de existir. Existir não quer dizer simplesmente estar respirando, existir no sentido humano, me parece, vai além do respirar, quer dizer, existir verdadeiramente como ser humano, criatura-criador, e assumir o papel de Criador. Nietzsche afirma o ser humano como “animal avaliador”, ou seja, animal que cria e aplicar valores as coisas. Quando se assume essa postura passa-se a existir no sentido humano da existência, criativo e artístico.
Mas para tanto é antes necessário que se encontre um valor maior para a existência, um motivo que ampare e fundamente toda a dor e sofrimento que constituem a existência, um sentido maior que nos faça levantar todas as manhas e sentir que a vida vale apena, de que apesar de tudo essa estranha e não optativa vida vale apena ser vivida.
Na primeira noite do festival de cinema de Brasília o longa metragem exibido foi o emocionante, musical, poético e filosófico filme de Sergio Roizenblit intitulado “O Milagre de Santa Luzia”. O filme que basicamente trata da história de Dominguinhos e de toda a riquíssima cultura popular brasileira da sanfona, que envolve diferentes ritmos de diferentes partes do Brasil. O documentário mostra em uma incrível seqüência de imagens a variedade da cultura da sanfona, manifestada de norte a sul do país. Um filme que sem duvida nenhuma explora magnificamente a multiplicidade cultural de nosso imenso país, uma verdadeira afirmação de identidade brasileira. Porém o filme trata de muito mais do que aspectos culturais, para mim ele trata de existência e de Arte. E é nessa perspectiva que irei interpretá-lo aqui.
Só se passa a existir como ser humano quando se assume a postura de ser criador, e insisto, para isso é necessário criar um valor que fundamente a existência. Mas como criar tal valo? É ai que o documentário mais me tocou. Os depoimentos em geral falam exatamente sobre esse valor maior, sobre esse sentido da vida. Dominguinhos e todos os demais sanfoneiros repente o tempo todo que tocar para eles e como viver e que a sanfona e como parte de seus corpos. Eles simplesmente não podem mais viver sem a música, sem a arte, sem suas sanfonas. Esse é o sentido maior que aqueles indivíduos deram as suas vidas. A sanfona como um instrumento mágico que transforma o mundo, esse mundo caótico e imprevisível repleto de forças múltiplas e contraditórias que nos transpassam e perturbam, esse mundo humano repleto de misérias, dor, sofrimento angustias, medo... A magia da sanfona para aqueles indivíduos transforma esse mundo e lhes da um sentido para viver, para superar a dor. Em um momento do documentário o musico Sivuca ao terminar de tocar uma música com Dominguinhos diz: “Isso é um descanso!” Para ele tocar é como descansar, e inegável que viver cansa e dói, por isso é necessário encontrar algo que nos proporcione um descanso, um prazer que faça tudo mais valer apena. Esse filme exalta a música e a arte como formas de dar sentido a existência. É desse sentido que precisamos para existirmos como seres humanos, caso contrario existiremos apenas como seres orgânicos viventes.

domingo, 7 de setembro de 2008

Elogio à Solidão




Perdido em abstrações sem nenhuma finalidade nem objetividade, passo um tempo indefinido em meio à apreciação literária de García Márquez e profundas reflexões sobre a Solidão. A Solidão esta dama misteriosa e taciturna, que esconde sua face púrpura e olhos de cristal sobre negra manta, confundindo-se com a Morte, e trazendo em mãos a tragédia de um destino oculto! Ela a quem a maioria teme e nega, enquanto os filósofos, poetas e profetas dela se enamoram. Que dirá Cristo em seu retiro para o deserto ou Buda em sua profunda meditação ou Caeiro em sua distante vida campestre, que palavras doces proferiram a Solidão para tais ouvidos sábios?!
Os que temem a Solidão são os que temem a si mesmos, pois somente no recôndito do Eu se encontra tal musa, de face ambígua de pavor e deleite. Somente no campo da liberdade é que a Solidão se manifesta verdadeiramente, e é através dela que se pode exercitar a soberania de si mesmo. Às vezes somos governados pelo Amor, outras vezes pelo Ódio e ainda alguns vezes pelo Medo ou pela Inveja. A Solidão é como um elixir de equilíbrio para todos os sentimentos que povoam a alma. Pois é nos pedestais da Solidão, que o sujeito pode erguer-se alto, mais alto que tudo, e da calmaria inebriante das alturas, com um olhar portentoso enfim coroar-se rei de si mesmo, e governar-se em paz! Somente só, é possível aprender a só ser...
O paradoxo da Solidão diz respeito à necessidade intima de estar só para saber estar junto. Conhecer a si mesmo pra assim poder conhecer o outro. No mundo em que vivemos com um sistema tão opressor e controlador a Solidão surge como o único remédio eficaz contra a massificação e a favor da verdadeira autonomia do individuo.
Ó musa da Arte e do pensamento, quero calmamente e longe dos estrondos da existência, deitar minha cabeça em teu colo e clamar minhas dores e meu sofrer, e a cada palavra pronunciada por minha boca uma nova figura se materializa e ocupa uma parte de minha infinitude! Tu és um templo sagrado instalado no fundo da alma, abrigo de paz e descanso onde se pode recomeçar e reconstruir toda a filosofia. Estar só e poder olhar para o vazio interno de si, e compreender que todo esse espaço pode e deve ser espaço de explorarão e criação do Eu. Inúmeras possibilidades do ser. Sei que és sombria e melancólica, e muitas vezes trás em tua companhia o desespero, o abandono e a incompreensão, porem sei o quanto podes ser doce e prazerosa para aqueles que sabem de ti gozar. Amo-te como amo a mim mesmo!Que me sejas apraz e não me deixes sucumbir por teu amor.




"Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio da ocupada multidão"
( Charles Baudelaire)