quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desencontros

     Em certa ocasião social, estava eu em uma reunião amigável de conhecidos em um restaurante. Muitas conversas, muitos assuntos, muitas opiniões, piadas, risadas, enfim, um ambiente de descontração. Em determinado momento ouvi de uma pessoa um comentário sobre mim, nada de mais, nada de menos, um comentário despreocupado e despretensioso. De súbito me veio a resposta certa ao tal comentário, em instantes construi na mente todo um argumento que definiria minha postura, minha opinião sobre mim mesmo, que reflete minha opinião sobre todas as outras coisas, quem sou eu, o que é o mundo para mim e em mim. Porém, estranhamente, palavras de minha boca não saíram, a opinião se reteve em pensamento, e no fluxo da conversa  a idéia se perdeu na memória das coisas não feitas. Não me expressei por minhas palavras, mas sim por meu silêncio. Mas algo em mim clamou por expressão, algo em mim queria se retratar, mas não o fez. Tudo se deu despercebidamente aos olhos dos que me viam, mas em minha alma algo ressoou fundo, algo invocou minha atenção filosófica, minha consciência  concentrou-se.
    Me desconcertei, me desencontrei comigo mesmo, me atrapalhei entre o que sou, o que penso que sou e o que desejo ser. Esbarrei desajeitado na alteridade de mim mesmo. E o vazio que ocupa meu Ser se revelou imenso como o não-Ser, ou como o porvir. E mesmo sendo tantos, ainda não há tantos que me ocupem por inteiro. Algo sempre sobra, algo sempre falta. O espaço não cartesiano da intimidade se expande, se dilata, se amplia, me tornando pequeno, me tornando vazio, abrindo em meu peito clareiras e desertos, onde ainda tenho de semear flores  se quiser criar jardins.
    Qual é afinal a distancia que separa um Ser dele mesmo? Como medir o espaço metafísico  entre a sensação, o pensamento e a ação? Sou um conjunto desconjuntado de sensações e pensamentos desconexos, de ações feitas e não feitas, de lembranças e imaginações, de mentiras e falácias em meio a verdades inventadas. Do espaço vago de mim mesmo surge a Angústia, sina macabra dos homens, abismo sinistro no âmago da existência. O que realmente sou, sem o saber, é leve como uma pluma, e passara simples e efêmero como a vida das plantas, mesmo sem eu me dar conta. O que almejo ser, isso sim pesa toneladas de esperança vã e torturante. Queria não mais esperar. Queria simplesmente abraçar o Tempo e destruir a distinção entre mim e meus  outros Eus.

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Queda


   Na entrada do café ela corria livre e despreocupada, como se nada no mundo fosse mais importante do que correr e nada pudesse impedi-la de faze-lo. Era ela, em sua prática lúdica e desinteressada, rainha de todo seu universo, como pouco conhece, tudo o que tem já é demais, e assim, correr e saltar  lhe pareciam a maior façanha já vista, e ela se deleitava quase em êxtase nesses movimentos tão simples. Parecia desbravar mundos infinitos ao descobrir a força das pernas que produz velocidade e o impulso dos joelhos que lançam o corpo em saltos curtos pelo ar. Descobrir as próprias pernas é como descobrir um novo continente ou mesmo planeta, para quem a pouco viera do Nada, que é o Tudo!
    Era apenas uma garotinha de uns 3 ou 4 anos, vigiada de longe pela mãe. Mesmo pequenina parecia chamar a atenção de todos, nem tanto por suas formas graciosas quando por sua infinita e ingênua  ousadia e sua alegria pueril, intensa e efêmera, a qual só é possível atingir quando não se carrega lembranças demais ou esperanças a mais, impossível para a maioria dos adultos que estão seguros de mais em seus conceitos petrificados ou amedrontados de mais por sua falta de conceitos. A criança livre das amarras do super-eu controlador e delimitador, corre inconseqüente, e como tudo que é muito livre, beira sempre a própria destruição. 
    É interessante como a simples imagem de crianças pequenas  provocam instantaneamente em espíritos mais sensíveis uma forte sensação de compaixão. A compaixão entendida como uma espécie de identificação intima com o sofrimento alheio, nos dizeres de Schopenhauer.  No caso de uma criancinha o que traz a compaixão não é exatamente o sofrimento, mas sim a precariedade da vida que nela se revela, tão intensa e ao mesmo tempo tão frágil.     A garotinha corria de uma lado para o outro, por entre as pernas dos passantes, sem nenhuma noção segura de espaço ou tempo, ela simplesmente corria sem parar, sem saber porque ou para que, ela corria e a sensação momentânea a bastava complemente, a pura experiência livre de conhecer o mundo e a si mesma. Ela corria por sobre incertas e pequeninas pernas desajeitadas, o corpo erguido em um instável equilíbrio, cambaleava tortuoso, os movimentos escapavam inteiramente de suas orbitas, e ainda assim ela corria. E a todos que a olhavam era clara a sensação da queda, menos para ela mesma, que corria e corria. A mãe angustiada, tentava para-la, mas o que são palavras de precaução frente a experiência insólita da vida que se apresenta nova e única?! E enfim o que é a queda, se não parte efetiva da condição humana(lembremos o mito bíblico da expulsão do homem do Éden, ou o mito poético de Milton que narra a queda de Lucifer, pai da humanos)?! Como Ser que sai da perfeição do Uno para a incompletudo do particular. Queda e ascensão depois da queda! O projeto falho, mas insistente,  de um Deus consciente!  Nos esquecemos as vezes, ou fingimos esquecer, que a vida é frágil e incerta, que no fundo estamos sempre correndo em uma corda bamba, tão desamparados quanto uma criancinha, talvez por isso, ao vermos uma, expressamos um leve sorriso no canto da boca. Ela nós lembra a precariedade da vida, mas também nos mostra que mesmo improvável a vida segue em suas possibilidades e impossibilidades, em seus absurdos, em seus milagres.  
    Toda a correria da jovem caloura da  existência, termina com um encontrão em pernas estranhas.  A queda, o susto, a dor, o choro, o consolo, o recomeço. Mesmo não sendo mais criança, essa lógica da experiência e do aprendizado ainda me assustam, e as vezes ainda choro! Mas  não podemos parar de correr, e ai vale muito a lição do capoeira, que como diz a canção: “se um dia ele cai, cai bem”.
     

sábado, 1 de janeiro de 2011

Descontinuidades de uma história indeterminada


  Abro os olhos. E ainda não sei bem se estou acordado ou sonhando. Com a vista embaçada vejo as formas turvas comporem lentamente o ambiente de meu quarto, estante, armário, escrivaninha, computador. Tudo ainda parecia uma pintura impressionista, os raios de luz que entravam por entre as cortinas, dançavam pelos moveis e paredes.  Mas por um instante vi sentada em minha poltrona, nas sombras do quarto, uma figura de mulher. Quem era? Uma lembrança, um fantasma, um espectro da TV? Talvez  fosse ela, a mulher que habita meus sonhos, que guarda os meus desejos! Só pude ver sua silhueta, esguia, languida, misteriosa. Ela curva a cabeça para frente, aproximando o rosto de um raio de luz. Consigo ver sua boca, lábios de Brigitte Bardot. Ela parece dizer algo, mas não consigo compreender, estou hipnotizado pelo movimento de seus lábios, vividos, carnudos, cheios de fogo e mel. Num piscar de olhos ela some, o devaneio se desfez brusco, sinto o peso da realidade me chacoalhar. Me levantei de supetão pondo-me sentado na cama. Esfrego os olhos para garantir que agora estou acordado, mas ainda sinto a cabeça rondada de sonhos. Apanho um copo de água em cima da escrivaninha, tenho a boca seca. Olho no relógio, marca meio dia, mas parece que por algum motivo ele parou. Deve ter acabado a pilha...
    Quando a garrafa começa a apitar, tiro o café do fogo. Encho uma xícara azul até a borda. O cheiro forte do café me invade as narinas e parece se espalhar por meu corpo, sinto meus poros respirarem café. Busco na prateleira um pote de açúcar.  Encho bem uma pequena colher, e vou lentamente mergulhando-a no café. Aprecio o branquinho do açúcar se desfazer no negro do café, e os movimentos ondulantes da superfície liquida formarem círculos que se chocam nas bordas da xícara como as ondas do mar nas pedras. Nesse exato momento me lembro instantaneamente, como que se a lembrança fosse invocada pelo movimento, da Liberdade Azul de Kieslowski. E me senti tal como Julie, lembrando de seu olhar melancólico, perdido no tempo, doce e frio. Parecia que o filme voltara a passar em milha frente, bem ali na mesa da cozinha. O torrão de açúcar, branco e puro, o café negro e misterioso, a dissolução, a morte, o nada, o medo, o sublime... Toca o telefone!
    Busco na pilha de roupas amontoadas no armário um casaco, o dia esta cinza e  chuvoso, preciso ir ao supermercado. Desço o prédio pelo elevador, e ao chegar no térreo, saio e passo por um senhor, ele entra e eu saio do elevador. Por um milésimo de segundo nos cruzamos, e nos entre olhamos estranhos. Seus olhos pareciam me atravessar-me. Murmuro sorumbático um bom dia, mesmo sem ter certeza do horário. Ele não responde. Não sei bem se não me ouviu ou si nem sequer percebeu minha existência. Será que já me tornei um fantasma em vida?! Sombra de mim mesmo?! Na rua caminho ouvindo o piano de Debussy. E ao atravessara as ruas e jardins, observo as vitrines das lojas, vejo as pessoas que caminham apreçadas, e me sinto tal como um flâneur baudelairiano, vagando pelas entranhas da cidade que pulsa vida sem se dar conta disso, um safari urbano na floresta de pedras, um passei contemplativo no museu do cotidiano. As figuras humanas que passam por mim tem semblantes muito diverso. Atravesso uma multidão de ninguéns, almas distantes, separadas como ilhas no oceano infinito dos desencontros. Vidas dispersas, que não percebem o quanto estão unidas pelo avesso. “Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só na oculpadíssima multidão”. Tento olhar no fundo dos olhos dos passantes, para ver se é possível num único olhar captar a essência do instante na primeira percepção, e chegar como que por um atalho do cerne da Coisa em Si. Falsa fenomenologia! As pessoas são universos vastos, como o céu e o mar. Em mim mesmo estou cansado de me perder! A música embala meus passos, e as ruas parecem não ter fim...
    Entediado com a vida, busco na literatura e no vinho a desculpa para a existência desnecessária. Taça cheia  sobre a escrivaninha, velho romance de Dostoiévski nas mãos. E o tempo-espaço se deslocam , expandem e desdobram dentro das paredes do meu quarto. A vida mesquinha e desprezível fica longe, alçado que sou pele literatura a pura consciência que conhece. A cabeça de anjo sem corpo que observa atenta os mínimos detalhes das vidas dos seres humanos, se embolando entre si, dando nós no destino. O vinho liberta e incita a imaginação e o devaneio, sensibiliza o corpo e o espírito para a contemplação apreciativa, entorpece  a razão e as convenções  enganadoras.  E das páginas do livro sorvo vidas que não são minhas, aumentando assim meu próprio viver, agrupando a minhas histórias outras histórias que passam a ser a mesma, mas sempre diferente, sempre reescrita e por escrever. A literatura é um labirinto metafísico que se afasta da vida real no mesmo movimento que se aproxima dela. Tiro os olhos do livro e pela janela miro ao longe as pessoas que passam. Parecem elas menos reais do que as do livro, ao longe parecem corpos mecânico sem vida, pré-programadas. É no microscópio da literatura que o homem se abre se revela e se desdobra em mil espaços sem fim...
    Cai a chuva lá fora. O som das gotas massageia meus ouvidos. Sentado na poltrona  me masturbo lentamente. A garrafa de vinho acabou e sinto meu corpo aquecido por dentro, como se o vinho ascendesse a lareira da alma. Me lembro do Foucault falando sobre o onanismo no século XVIII. O poder perpassando as forças do prazer, do corpo, do sexo, da vida.  Afinal eu poderia ser um lunático ou contraventor, realmente de perto ninguém e normal, nisso ele concordava com o Caetano. Mas no fundo mesmo, o onanismo é o símbolo da auto-suficiência e do amor próprio. Em pensamentos busco ela, a que não sei o nome, a figura distante dos meus sonhos, a musa moribunda e ideal dos poemas românticos, os lábios de Brigitte Bardot, as mulheres que já tive e as que nunca terei. Deliro, derreto na poltrona, não há mais antes nem depois, o tempo se fundiu as coisas, enfim se tornou a pele quente e macia das coisas, pulsando e escorrendo pelo espaço. Me esvaio em prezares mórbidos e já não anseio por nenhuma ação, fato ou acontecimento. Chama-me o não-Ser, a total inércia, a eternidade. A Terra parou e somente eu posso faze-la se mover com meu mover, mas não quero. Me estendo no espaço e acendo um cigarro... Tocam a campainha! Deve ser o porteiro trazendo a corresponderia. Que me importa! Não espero mais nada de ninguém, nem vou atender...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Feliz Natal


 Ele consumira o primeiro grama ainda em casa, no banheiro, depois do banho, enquanto se encarava no espelho e repetia para si mesmo, como uma forma de aumentar sua convicção, que esse ano ninguém iria faze-lo de palhaço na frente da família. Vestira seu  melhor terno, o que sua mulher lhe dera para os eventos sociais de fim de ano .Ela dizia que já não suportava mais ser vista pela família dele como uma suburbana emergente e sem classe, que não cuida bem do marido. Que por isso, agora fazia questão de desfilar com tudo do bom e do melhor que haviam conquistado, roupas, jóias, perfumes, mesmo que fosse só mentira. Aquelas bruacas fofoqueiras, dizia ela sobre as noras, iam ter que engolir a seco seu próprio veneno. E para completar o espírito natalino, havia comprado ótimos e caros presentes para mostrar a sua infinita generosidade a aquelas pessoas que ela sabia que não gostavam dela.
    A mulher de Ronaldo, Ines, carrega desde o casamento uma magoa enorme das noras e da sogra que fizeram de tudo para Ronaldo desistir, afirmando que ela não tinhas os dotes corretos para uma boa dona de casa, que não era uma mulher carinhosa para formar uma família feliz. Desde então se refere secretamente a elas como conspiradoras de brinco de pérolas, quando está somente na presença do marido. Por esse e outros motivos, envolvendo outras intrigas de festas natalinas passadas, para Ines é imperdoável nessa data tão bonita, demostrar qualquer tipo de fraqueza, dúvida, medo ou necessidades perto da gente da família de Ronaldo. A única missão dela nesse evento é mostrar como foi capaz de formar uma boa família, e o quanto é feliz. E para isso vale de tudo. Até dividir em cinco vezes um terno caro para o marido, e em oito vezes um colar e brincos para ela.
    Ronaldo, a mulher e as filhas chegam a casa do patriarca da família para a ceia de natal. O clima é sempre o mesmo, afabilidade falsas, elogios exagerados e risadas forçadas, tudo para disfarçar a natural tensão viva e pulsante no ambiente. Pois a família Braga  era também uma empresa, e por isso os irmão eram também sócios. Ronaldo por sua vez sempre achava que os irmãos mais novos tramavam para tirar-lhe parte da empresa, para roubar-lhe parte dos lucros. Esses fizeram faculdade na área de economia e administração, enquanto Ronaldo aprendera tudo sobre negócios com o pai e na prática, sem diploma nem nada. E apesar de se saber competente, sempre se sentia inferiorizado pelo falta do tal diploma, e sabia que os irmãos adoravam coloca-lo em situações constrangedoras frente ao pai, utilizando conceitos e jargões que ele desconhecia.  Ver os irmãos explicarem ao pai, como doutores que eram, sobre as atuais condições econômicas do Brasil, e falar sobre os investimentos na bolsa de valores, acendia em seu peito a inveja, que lhe ardia as entranhas.
    As mesas postas no jardim lateral da casa acomodavam os convidados, entre elas os garçons serviam bebidas e tira gostos antes da ceia. O pai e a mãe de Ronaldo eram pessoas simples, vindas do interior e já muito idosas para se preocuparem com requinte e luxo, mas para os irmãos e noras, isso era indispensável, o raciocino é mais ou menos o mesmo que o de Ines. Ronaldo transitava entre os diferentes núcleos da família para se mostrar presente, portando um grande copo de whisky, que lhe servia de apoio, uma espécie de  lubrificante social, um objeto fetiche. Participava ativamente com todo tipo de opinião e observação exdrúxula nas conversas maçantes dos parentes que só via uma vez por ano. Com os irmãos falava de negócios, uma conversa cansativa e exagerada, com gritos e gargalhadas, repleta de subtextos, induções, frases dúbias, acusações brincalhonas e ironias afiadas. Ronaldo sabia que cada evento familiar como o natal, era no fundo uma batalha cruel pelos elogios do patriarca da família, que não só deu-lhes a vida, como de uma forma ou de outra era o responsável por mante-la até os dias de hoje, afinal cada filho só tinha seu ganha pão por conta da empresa do velho. Ronaldo se incomodava com as máscaras, a dele não lhe caia bem, se sentia sempre na emergência de ser descoberto, acusado de falsário, corrupto, mentiroso, sovina. A tensão o sufocava, sabia bem que qualquer palavra mal calculada poderia criar desconforto, gerar fofocas ou mesmo discussões, como já acontecera em natais passados.
    Há três anos atrás, ele discutira feio com um dos irmãos, Cláudio, e quase que tudo acaba em barraco. A discussão começou de forma fútil, por um maço de cigarros, mas terminara em acusações e insultos. Se não fosse a bronca do pai, talvez até saísse na mão com  irmão. Em outro natal ainda mais antigo, mas marcado na memória, sua esposa se ofendera com uma piadinha feita por sua mãe, e o natal terminará mais cedo. Ines enfurecida  simplesmente recolheu as crianças  puxou-o pelo casaco e se retirou bruscamente  antes da ceia ser posta. Muita, paciência, tempo e hipocrisia foram necessárias para se criar essa película frágil de aparente confortabilidade e paz no natal.
    Ines depois de misturar vinho tinto  e calmantes, mantinha uma cara de paisagem e um sorriso frouxo em quanto ouvia as noras contarem vantagens de suas viagens internacionais.  E ora ou outra se enchia de entusiasmos para contar algumas pequenas mentiras sobre sua profissão ou de forma distraída degradar algum aspecto das histórias das outras.  Já Ronaldo se botava inquieto, nervoso, as vezes ouvia alguns tipos de comentários que o faziam delirar de ódio por dentro, não suportava a arrogância dos irmão e as patetices de sua esposas tagarelas e fúteis. O olhar do pai, sempre reprovador, ele trazia da infância, evitava qualquer confronto com o velho, sabia que frente a família qualquer discordância com ele poderia esmagar sua moral, e nenhum argumento seu, por mais racional que fosse seria considerado. Ele não teria chance, seria humilhado, por isso deveria evitar qualquer tipo de embate. Toda essa situação lhe desconfortava, ele bebia, fumava um cigarro após o outro. Sorria sem graça,  por dentro irado, com os comentários insistentes da mãe e das tias sobre sua compulsão com a nicotina, o cheiro ruim que deixa no seu cabelo, problema do câncer, e o mal que pode fazer as crianças. Sempre infantilizado como se fosse incapaz de tomar decisões coerentes. As vezes até fingia que não era com ele para não dar uma boa resposta. Mas o que  mais lhe incomodava esse ano, eram os comentários maldosos  as piadinhas ácidas, que lembravam um calote que ele tomou na compra de um terreno, e que lhe deu um prejuízo considerável, fora a vergonha de servir como exemplo de trouxa no mundo dos negócios.  Cada vez que ouvia uma dessas piadas sentia o suor escorrer-lhe da testa, e em sua cabeça imagens de violência brotavam como em um filme de ação. Quanto sentia os joelhos tremerem, disfarçadamente ia ao banheiro, e pelo nariz tragava mais um grama posta na chave do carro. Mesmo inibido tentava de todas as formas ser sociável e se fazer ouvir.
    A ceia é posta, e inicia-se a comilança desenfreada, a abundância da comida é pura  excentricidade, e o desperdício fenomenal. Em poucas horas a  noite termina em uma estranha normalidade, presentes são entregues,  cumprimentos de feliz natal ecoam pela noite, e reina a "pax romana" na casa. Ronaldo volta  a seu apartamento. Sua mulher deitasse meio bêbada, com cara de quem ficou satisfeita com  a bela execução da farsa, o figurino preparado para sua família e o cumprimento de seu papel de boa mãe e esposa contente. Ronaldo inquieto e angustiado, sem sono passa a noite assistindo o canal de compras, assombrado por estranhos fantasmas de sua má consciência.
    Na manhã seguinte acorda assustado, depois de dormir poucas horas um sono desassossegado, com os gritos insistentes de sua mulher reclamando que estavam atrasados. Sabe bem que quando a ceia é na casa de sua família, o almoço do dia seguinte tem de ser na casa da família da mulher. Ele então descontente, mas conformado  se prepara  como sempre, cheirando na pia do  banheiro, depois do banho, para mais uma etapa do natal feliz de sua família. E olhando fixo para o espelho, ironicamente cumprimenta-se dizendo; "feliz natal Ronaldo"!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Arte de Protesto?

A arte em suas múltiplas funções sociais ao longo da história assumiu muitas vezes o papel de instrumento de protesto. Independente da linguagem adotada a arte pode sempre servir como uma forma de critica, seja na pintura, no desenho, na música ou na poesia, algo que mecha com as estruturas e valores de uma sociedade, que desconforte e faça pensar ou mesmo que escandalize.
    Exemplos históricos não nos falta. No inicio do século XIX  Daumier foi preso por ridicularizar o imperador francês com  sua caricatura Gargântua, no mesmo século e na mesma França décadas depois, Baudelaire foi multado e teve os exemplares de seu livro Flores do Mal apreendidos pela lei. A antiarte desenvolvida pelos Dadaísta no inicio do século XX  era tipicamente uma arte de protesto radical, que mais tarde foi herdada pelo movimento Fluxos, já na década de 60. A luta por liberdade dentro de uma sociedade burguesa e conservadora era o mote que movia a criatividade desses artistas revolucionários e rebeldes. Daí surgiam todos os tipos de afronta aos “bons costumes”, performances e happening eram os novos instrumentos de ação político-artística, feito em lugares públicos, o objetivo era afetar as pessoas diretamente, tira-las de sua aparente confortabilidade, chocar, chamar a atenção, invocar a dúvida e a critica. Não podemos esquecer do Brasil nesse contexto, em plena ditadura militar os artistas queriam mais é protestar, canções e peças teatrais tentavam levar a critica ao governo até o público.
    Mas frente a atual situação socio-política e artística do mundo globalizado a pergunta que surge ao se pensar em arte de protesto é, como faze-la? Em um contexto onde tudo se torna produto e moda, e onde em meio a diversidade, o conformismo e a quotidianidade as pessoas estão totalmente anestesiadas e preparadas para ignorar complemente qualquer coisa que aparentemente as desconforte ou simplesmente encara-las com uma normalidade mórbida. Hoje em dia a força das mídias se ampliaram tanto que mais do que nunca, guerras, misérias e atentados se tornaram reality shows que se pode ver enquanto se toma uma coca-cola no sofá. A enorme diversidade proposta pela globalização e distribuída  pela Internet  parece tornar tudo convencional. O grande paradoxo de nossos tempos é mesmo a globalização internetica, que torna a própria diversidade um padrão. Como protestar sem cair no clichê e ser absorvido pelo sistema onde tudo se torna mesmice?
    Na abertura de uma exposição em grande museu brasileiro, em meio ao coquetel com mesa de quitutes e vinho em um clima formal de artista, especialistas e estudantes de arte, uma mulher surge com cara de zangada, e sem pronunciar uma só palavra arranca rapidamente todas as vestes, se colocando nua, e num pulo sobe sobre a mesa de quitutes e começa a se lambuzar bizarramente neles. Ela chuta com certa ira os copos, pratos e bandejas, fazendo uma bagunça. Depois da cena de poucos minutos ela sai andando entre os convidados, que a pesar do aparente espanto continuaram a comer e beber e até esboçaram algumas palmas para a artista performance tão “ousada” e “rebelde” (assim como a boa e vela  juventude dos  anos 60 e 70!). As pessoas acharam que tudo foi só mais um show como os da TV! Os “intelectuais” e “artistas’ presentes acharam lindo a jovem artista se expressando! Os mais desenformados  apreciaram suas belas formas femininas e riram da bagunça! O que aconteceu com o protesto, com desconforto e com a critica?! Será que se tornou impossível em nossa sociedade tocar verdadeiramente as pessoas através da arte? Será impossível criticar as coisas sem parecer ou um fundamentalista radical ou um piegas? Será possível fazer alguma coisa realmente criativa em meio a massificação globalizada? Dentro das relações de poder que estratégias devemos tomar para não sermos engolidos pelo sistema, pela mesmice e pelo conformismo? Concerteza não podem ser as mesmas estratégias das décadas passas! A nostalgia de uma época de engajamento social tem levado a atual juventude a cair em clichês, não que hoje falte coisas a serem criticadas, o problema é que o mundo já não é bipolar, já não há vilão e herói, já não há ditadura (pelo menos não tão descarada como antes), e por isso a crítica na arte precisa ser refazer, e ser mais delicada e minuciosa do que foi em outras épocas. Por fim, a verdade é que a tal performance até chegou a chocar algumas pessoas, claro que não os convidados, que devidamente alimentados saíram como se nada tivesse acontecido, mas sim os garçons  que tiveram que limpar tudo e recolher todos os cacos de vidro do chão. Esses devem ter se queixado: “Os artistas fazem arte e a bagunça quem limpa é a gente!” 
  

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nostalgia do não-Ser

As vezes ouso das profundezas obscuras do Ser, ecos de vozes do além, que ecoam clamando por tempos imemoriais, tempos antigos provindos de antes dos tempos, que reclamam a nostalgia do não Ser. De que falam esses espíritos estranhos e sem rosto, que brotam das rachaduras da existência como um antigo e inominável mal?  Como posso traduzir uma linguagem sem palavras de gritos sem som e desejos sem vontade?  Não sei o que são, mas sei que existem no fundo dos meus olhos e espreitam silenciosos os labirintos de minha alma insólita esperando a hora incerta e abstrata donde salta o Lobo. A saudade do que não foi, e do que um dia voltará. Saudade sem nome, sem encontro ou despedida. Saudade do insondável principio fim. O que existe antes da vida é o mesmo que depois dela?! É daí que vem minha mórbida saudade ancestral! Como uma parte tão minúscula pode desejar um Todo tão incompreensível que o olhar nem alcança? O outro lado do Ser me chama, mas como responder se minha memória curta perdeu o caminho de volta para Deus? ...
Não é a Morte que desejo, mas seu irmão de essência o Êxtase!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sobre a morte ou minha vida sem mim:



A morte é sem duvida um dos maiores medos humanos, ela traz a tona a percepção da temporalidade, da transitoriedade e da finitude da vida. Pensar na morte leva necessariamente a se perguntar de que vale realmente estar vivo. Mas é exatamente por estar intrinsecamente ligada ao problema da vida, que o problema da  morte é tão complexo e paradoxal. Ambos os termos são correlativos e inseparáveis, são opostos complementares, não se pode pensar uma coisa sem pensar a outra, mesmo que indiretamente.  A forma como  interpretamos a morte influencia a forma como interpretamos a vida e vice e versa. E por isso, me parece que esse duplo problema da vida e da morte é no fundo a origem e a finalidade de todo o conhecimento, de toda a filosofia, de toda a ciência, de toda a espiritualidade e de toda a arte. Pois parece que de uma forma ou de outra, tudo que o homem cria esta impregnado de vontade de tentar resolver esse problema, de tentar provar para nós mesmo que a vida pode vir a ter algum valor positivo mesmo frente a inviabilidade da morte.     
    O filme de  Isabel Coixet, intitulado “Minha Vida Sem Mim” é mais uma das inumeráveis obras de arte que abordam essa problemática como ponto central de sua trama. O titulo do filme, sagaz e sugestivo, até carregado de um certo tom de humor negro, é na verdade o resumo do argumento filosófico  desenvolvido através da narração da história de Ann. Uma jovem mãe de família, com uma vida cotidiana atarefada e cheia de responsabilidades ante o marido e as duas filhas pequenas, morando no quintal da casa da mãe e trabalhando como faxineira,  levando assim uma vida dura e simples, mas que ainda guardava uma última revelação trágica do destino. Ann com apenas 23 anos descobre de repente que tem um câncer que a matará em mais ou menos 3 meses. Toda a história se desdobra sobre os resultados dessa triste revelação na vida de Ann. Descobrir a própria morte, e é engraçado falar assim pois a morte é nossa única certeza absoluta, provoca modificações profundas na postura, nas escolhas e nos valores de Ann. Aparentemente nada muda nas praticas cotidianas da garota, ela continua dedicada ao trabalho e a família, o que mudam são os valores que guiam essas praticas e sua postura ética frente a vida.
    De um filme como esse, que trata de um tema tão profundo, pode-se tirar muitas interpretações, muitas discussões. Pretendo analisar alguns das atitudes tomadas por Ann frente a morte, e assim tentar esclarecer a opinião expressada pela diretora do filme, pensando a morte (e portanto na vida) de uma forma serena e realista, mas sem negar-lhe a beleza trágica e melancólica. Primeiramente, Ann decide não contar seu drama para ninguém. Essa atitude que superficialmente pode ser vista pelo prisma de um certo egoísmo ou mesmo conformismo, ganha na minha opinião um  tom diferente, quase épico.  Me parece que a morte nos garante uma referencia solida para valorarmos a vida, exatamente porque sabemos que ela sempre chega uma hora e que é inevitável. Dessa forma, podemos chegar a algumas conclusões lógicas. Se a vida é finita devemos dar a ela prioridades, valores distintos a nossos desejos e escolhas, e se o tempo urge, isso nos obriga a cada vez mais tentar resumir a vida as coisas mais necessárias e essenciais, a se desfazer de toda futilidade, a dispensar tudo que pode ser dispensado, a simplificar tudo que pode ser simplificado, a buscar a vida menor de que fala a poesia de Drummond. Em uma cena do filme, a personagem faz compras em um shopping enquanto pensa consigo mesma: “ tudo aqui serve para nos afastar da morte, aqui ninguém esta pensado na morte”. Ao enfrentar sua preparação para a morte ( o que teoricamente todos nós deveríamos fazer a cada dia), Ann percebe como as pessoas gostam de se iludir para fingir que a morte não existe, ou que esta muito distante, é uma forma corriqueira de fugirmos ao desespero e ao pavor. O silêncio de Ann parece refletir uma postura estóica e altiva, pois a morte nos leva a nos depararmos mesmo com a solidão, que não pode ser negada se não aceita, ela parece querer evitar toda e qualquer tipo de perda de tempo, como lamentações, preocupações e sofrimento antecipados e desnecessários, pois em nada podem mudar a realidade da morte. Há nisso também uma forte  dose de generosidade, pois a partir  do momento que nos convencemos de que a morte vem para todos, não há porque afligirmos os outros com nossa morte, pois eles terão a deles. Essa generosidade se mistura a uma certa doçura de espírito da personagem, ela controla o próprio medo e desespero da morte  para poupar os outros de sofrimentos inúteis, assim ela aceita corajosamente o caminho solitário e doloroso de sua própria liberdade. 
     Alavancada de sua vida cotidiana onde tudo parecia muito solido e certo, Ann passa a ver as coisas de uma perspectiva mais ampla, isso leva-a a mudar seus valores. Sua primeira atitude é escrever em um caderno as coisas que ela quer fazer antes de morrer. Analisarei três dessas coisas que me parecem ter uma grande importância simbólica no filme. A primeira é gravar fitas de aniversário para suas  filhas até os dezoito anos e para outras pessoas próximas (seu marido, sua mãe, seu amante). Por traz dessa delicada, atenciosa e  singela atitude existe uma ética de afirmação da vida. E é ai que aparece claramente a sugestão vinda do titulo. Ann descobriu e aceitou que a vida continuara sem ela, que tudo continuara funcionando como sempre funcionou mesmo sem ela estar por aqui. As fitas simbolizam uma afirmação da vida, pois Ann demostra com elas que se importa com a vida mesmo depois que morrer, que se importa mesmo sabendo que sem ela tudo continuará, e por isso quer deixar algo para as pessoas que  ama, e que sabe que terão de continuar a viver sem ela.    
    Outro ponto em sua lista de coisas a fazer antes de morrer, era reencontrar seu pai que a anos ela não via porque estava preso em uma penitenciaria.  Falo sobre esse ponto porque imagino que normalmente se pensa que ao nos depararmos com a morte certa, passamos a  nos importar só com o presente, com o instante agora, não acredito que seja bem assim. Na verdade parece que a morte pode provar o quanto a vida é inútil, porém do ponto de vista contrario ela também pode provar que a vida é sagrada e única e por isso dentro dela tudo é valido, tudo deve ser aproveitado, pois bem ou mal tudo acabará por fim. Ann seguindo a segunda interpretação, busca o reencontro com o pai como uma forma de redimir o passado aceitando até mesmo a ausência do pai, mais uma forma de se valorizar a vida, de aceitar mesmo as coisas ruins que a vida lhe proporciona, como um pai bandido  e indiferente. Afinal de contas a vida continuara sem ela, e não há motivo para permitir magoas ou ressentimentos tolos de coisas passadas.
    Por ultimo destaco da lista de Ann o desejo que ela tinha de se apaixonar novamente, e isso não tem nada haver com traição, pois ela demostrava amar muito o marido, mas isso é diferente de paixão. A paixão é como o calor inicial que acende o amor, é um impulso primário poderoso e desconcertante, intenso e inexplicável racionalmente. É o que nos lança ao desconhecido (Outro), ao estranho, a descoberta de si mesmo no outro, a revelação da identidade dentro da diferença. Mesmo amando o marido Ann quer sentir uma ultima vez o impacto da paixão, pois somente esse sentimento parece, mesmo que por um breve instante, destruir o abismo que separa os sujeitos dando a sensação de que podemos ser um só ser, de que realmente podemos compartilhar com o próximo algo de verdadeiro e real, mesmo que intangível e indizível.
    O filme apesar do clima dramático é levemente romanceado por uma serie de coincidências que ajudam Ann a cumprir com seu desejos antes de morrer. Isso juntamente com a personalidade doce, quase infantil de Ann, e sua resignada melancolia, pintam o tema pesado e desconfortante do filme com uma leve tom  poético, triste porém esperançoso. O que até me faz lembrar de uma máxima nietzscheana que diz que devemos afirmar a vida mesmo em seus aspectos mais tenebrosos. Haverá aspecto mais tenebroso na vida que seu fim? “ Minha Vida Sem Mim”, é um exemplo de que para aceitarmos a vida temos de aceitar a morte. Como diz Epicuro: “ Não existe nada de terrível na vida para quem esta perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver”.  O filme consegue ser emocionante, sem ser piegas, sensível, sem ser bobo, profundamente filosófico sem ser excessivamente serio, além de ter uma linda trilha sonora.  E principalmente, por ele  levar inevitavelmente as  lágrimas, mas  não pela vida que a jovem Ann vai perder, mas pela vida que ela soube encontrar.