domingo, 21 de fevereiro de 2010

Alma

Antes de sermos interior, somo exterior. A consciência é um sintoma do corpo, nasce dele, é como um órgão, um membro, um instrumento. A consciência se lança ao externo como em uma explosão, toca os objectos, sente-os, percebe-os, depois regressa interiorizando-se no corpo. A alma e a consciência interiorizada, reflectida. E nesse processo dialético, o mundo se torna humano e o humano se torna mundo, a tal ponto que não se pode mais delimitar onde termina o dentro e começa o fora ou termina o fora e começa o dentro. Assim sendo a consciência é a mão que busca o fruto, e a alma a boca que dele se alimenta. A alma é o avesso, o fundo do corpo, nela se sintetizam e acumulam sensações, emoções,sentimentos, dela brotam, pensamentos, fantasias, linguagem. A consciência é o fora e a alma o dentro.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Almoço

O almoço deve ser o ritual mais sagrado da família cristã ocidental brasileira. Pois independente dos verdadeiros sentimentos e da união dos membros, eles sempre se reúnem diariamente e na mesma hora ao redor da mesa, em prol do bem mais essencial da vida, o alimento. É a fome do corpo a grosso modo que une os indivíduos da família ao redor da mesa, é claro que por detrás disso existe outros símbolos, metáforas para sentimentos mais subtis e silenciosos, que se escondem no interior da banalidade dos gestos cotidianos, mas que por serem mais subtis não são menos concretos do que a comida que se coloca nos pratos e nas bocas. Há uma leve tensão no ar, que se desenrola ao som dos garfos e facas que arranham os fundos dos pratos, os copos que batem o fundo na mesa, as mandíbulas que mastigam a comida calando a boca e dando voz ao silêncio que narra o ambiente pesado de fuligem sem precisar de palavras. Os olhos se entre cruzam disfarçados evitando a frontalidade do encontro rosto a rosto. Os assuntos são poucos, quase nenhum, espaçados e desconexos, se dão muito mais por nervosismo e constrangimento do que por sinceridade. Só a criança a mesa traz assuntos sinceros. Inocente e despreocupado o garoto discursa sobre sua vida simples e profunda aos quatro cantos, ora ou outra ouvindo uma reprovação adulta: "“mastiga menino!”. O patriarca sentado na ponta da mesa em seu lugar cativo, milenarmente reservado pela tradição dos antepassados, observa a família como seu reino, sua justificativa na Terra, ignorando a decadência de seu poder, fingindo-se sereno e altivo. E assim prossegue a farsa muda, como um ritual religioso onde se alimentam o corpo e a alma. O corpo de carne e pão, a alma de amor e ódio. E é isso que nutri os laços paradoxais da família, as raízes mais profundas e negras.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O estranho

A primeira sensação que acompanha todas as coisas que se me apresentam é a estranheza. As minhas percepções estão sempre impregnadas de um sentimento brutal de não pertencimento. Meus sentidos não se apossam das coisas, as coisas é que se apossam de meus sentidos, tornando-me avesso a mim mesmo. Esse estranhamento radical me torna um eterno estrangeiro de tudo e de todos, inclusive de mim mesmo, pois até o aparentemente familiar me é estranho. Por exemplo meu corpo, fundamento de minha vida, massa de carne, sangue e ossos que sustenta meu Ser, mas ainda assim parece pertencer a outro. O que em mim sente é estranho a mim, pois não sei o que sinto, nem se realmente sinto, e muito menos o que é sentir. Minha alma é insólita, como um hospede mal acostumado, como o conjunto de sensações estranhas do mundo externo que se internaliza em meu peito, ou melhor dizendo, no peito dele, do outro, do estranho que mora em mim e que as vezes penso que sou eu, seja lá quem eu for, ou quem seja ele. Não importa a onde eu vá ou como me encontre, estou sempre perdido. E é na perda do que nunca se encontra que está minha estranheza!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As Quebradeiras: a poética do movimento



As quebradeiras de coco de babaçu, é sobre isso o filme de Evaldo Mocarzel. Um tema simples, sobre o cotidiano simples dessas mulheres simples, fortes e belas, marcadas pelo trabalho duro e pelo canto festivo que afirma a vida a cada dia e a cada coco quebrado. Uma simplicidade que instantaneamente se transforma sobre o olhar investigativo e contemplativo do cineasta, que narra a vida dessas figuras, de seu universo simbólico, cultural, existencial, de forma a encontrar no enigma da visão a poética do movimento dos seres. O filme se liberta de toda a linearidade da narrativa, de toda palavra falada, de toda legenda racional, para se entregar por completo a sinestesia da imagem e do som. Esse é o resumo do filme, um filme de som e imagem, que fala através do corpo, que se constitui por movimento, sobre o trabalho, a cultura e a vida desses seres humanos.
As quebradeiras de coco de babaçu da região do Pará e Maranhão vivem do extrativismo vegetal, vivem do babaçu. Aproveitam tudo que a que a árvore pode fornecer, da semente fazem óleo, do broto se extrai o palmito, aproveitam as folhas para produzir esteiras e cestos, atividade que alimenta toda uma economia de subsistência ecologicamente correta. Mas tudo isso é só o obvio, pois o olhar que busca, que percebe, vai mais longe, perfurando por entre as inúmeras camadas da realidade... O vento soprando entre as folhas verdes do babaçu parece cantar na mesma toada que as quebradeiras, o movimento forte e preciso dos braços e da mão, que empunhando um porrete lascam o coco contra a pedra afiada, libertando de seu interior a semente da planta. Nesse documentário é o corpo quem conta as histórias e dele também que surgem as metáforas e signos que significam a vida dessas mulheres.
Por entre a floresta verde de arvores de babaçu caminha uma mulher, ela surge em meio ao verde formando na tela do cinema um quadro, uma tela plasticamente construída, que entre o movimento da imagem e a imobilidade da fotografia cria uma cena onírica, que lentamente lança o espectador atento e sensível a uma espécie de transe, onde tudo flui lenta e organicamente quase como se o espectador fizesse parte da imagem que observa. E não fará parte realmente?! No cotidiano elas que trabalham duro, também cantam cantigas e cirandas, preparam o alimento de cada dia no silêncio exuberante de suas casinhas simples de madeira, se banham no rio, e penteiam os cabelos sem a pressa dos que estão sempre a esperar. Em seu universo tudo é certo e natural, o tempo corre cíclico e ameno longe da turbulência da civilização moderna. O olho do cineasta liberta o espírito que passei pelo ambiente e absorve o espetro do visível dando origem a imagem que por sua vez toca o espírito do observador tanto quanto o do cineasta. Comunicação transcendental que se imprime por artifícios imanentes e materiais, tanto a câmera que filma, o projetor que produz a imagem na tela do cinema , e principalmente a retina que apreende a luz e transfigura as formas em signos visuais. Corpo e espírito trabalhando em fusão e relativa harmonia criam a visão, o olhar, o cinema.
É de um etnodocumentário que estamos falando, nele arte e ciência travam um dialogo rico e intenso sem fronteiras definidas ou preconceitos intelectuais. O cinema como instrumento de análise da realidade, da dinâmica de uma comunidade, um tipo de ciência da imagem unida a uma antropologia do olhar. E é exatamente esse o olhar de antropólogo que Mocarzel lança para tentar desvendar a linguagem peculiar das quebradeiras, linguagem que dá vida e significado a uma atividade aparentemente simples e tediosa, mas que no fundo comporta em si todo um universo de beleza incomensurável. O universo que se abre na imagem detalhista do seio negro da quebradeira que se banha no rio e que aos poucos se transfigura no coco de babaçu, dando tom a metáfora da vida. Como uma brincadeira da natureza o seio que alimenta o recém nascido leva a mesma forma que o coco que o alimentará na vida adulta.
Quanto pode falar uma imagem, quantas linguagens diversas podem nela se apresentar? Cabe ao cinema, em sua complexidade e multiplicidade, investigar!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Profissão mendigo




Já existíamos desde antes da época de Cristo, quem por sinal muito simpatizava conosco, e até acrescentou a barba e os cabelos compridos a nossa estética . Na Grécia Antiga lá estávamos, perambulando pelos cantos das pólis, e assim mesmo pregava o cínico Diógenes, um dos mais ilustres dos nossos por também ser filosofo nas horas vagas, vivia em uma barril, na completa miséria, possuindo apenas uma caneca e um bastão. Era ele símbolo do desapego e da auto-suficiência ante o mundo. Louco e profeta, indigente e poeta!
Na Idade Média enchíamos a entrada das catedrais e igrejas, mas não era só para pedir não, tinhas uma indispensável função espiritual dentro da doutrina católica. Já que eles pregavam a compaixão e a piedade, ninguém melhor do que nós para despertarmos nos outros tais sentimentos. E se os católicos estiverem certos e esses sentimentos realmente abrirem as portas do paraíso, nós já ajudamos muitas almas a se salvarem por ai! E até hoje dizem ai pelo interior que Deus toma a nossa forma emprestada para testar os fieis.
Se pensarmos no surgimento do mundo capitalista também veremos uma importância singular de nossas atividades. Nossa desgraça e miséria tomada simbolicamente pelas forças do Estado serviam de exemplo para os trabalhadores, numa espécie de terrorismo mental. Vejam o que acontece aos que não se adaptam a disciplina industrial da nova ordem mundial ! E lá estávamos melancólicos e taciturnos, como almas perdidas no purgatório, cumprindo resignado nossa terrível função social, jogados como lixo nos becos sujos de Londres, Paris, e logo, por todas as metrópoles do mundo moderno. Peças chaves no entendimento da dialética moderna, somos sempre a outra extremidade do progresso capitalista, o lixo sempre defronte ao luxo! Desta forma assumimos também uma função metafísica frente ao funcionamento da existência.
Assim podemos ver o quanto é antiga nossa profissão, assim como a miséria sempre existiu na alma humana nós também sempre existimos nas diversas sociedades, para lembrar a própria miséria que caracteriza a condição humana desde nossos primórdios animais. Se pensarmos na atualidade confirmaremos nossa importância estrutural na sociedade capitalista. Nós que recolhemos as moedas excedentes dos bolsos e carteiras, nós que recebemos as pilhas de roupas velhas que entulham os armários, nós que apoiamos ongs e empresas com “consciência social” a ganhar exoneração de impostos, nós que tornamos mais felizes os natais e feriados santos para os que doam. E afinal o que seria de um sistema que se fundamenta na exploração sem ter os explorados, o que seria da economia mundial sem os ratos e abutres que comem os restos deixados para traz pelos leões e leoas do mercado?
Muito se elogia as grandes e nobres profissões da humanidade, médico, cientista, juiz, professor(hoje em dia nem tanto), general, presidente e tantos outros clichês. Para nós guardam palavras não muito afáveis, como vagabundos, indigentes, inúteis, e o melhor de todos, parasitas sociais. Não nego nenhuma dessas classificações, afinal historicamente eles fazem parte da imagem necessária a essa profissão. Temos de ser sujos, feios, maltrapilhos, desprezíveis, patéticos, dignos de dó, temos que pedir, implorar, enojar, comover, sem isso não atingimos nosso objetivo de sobrevivência (algumas moedas) nem nosso papel social(subconsumidores). Seria como tirar do médico seu estetoscópio, ou o carro do motorista! Se muitos nos acusam de enganadores e fingidos respondo com prontidão; toda profissão leva naturalmente alguns elementos cênicos não se pode negar, e se mentimos as vezes e isso parece uma atitude anti-ética, eu agora é que pergunto, e os políticos corruptos, as impressas sonegadoras de imposto, ou mesmo os que estacionam em vagas de deficiente, são eles mais éticos ou menos éticos que nós?
Dessa forma exijo o reconhecimento de nossa profissão, que não é melhor ou pior que nenhuma outra. Se um indivíduo se torna advogado é porque seu meio o possibilitou isso, ele não existiria em uma sociedade por exemplo sem leis, ou com uma lei única. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a nós, entre muitas profissões escolhemos a que nós é mais próxima pela condição dos meios em que vivemos( poderíamos ter sido assaltante, traficante, pedreiro, catado etc), não existiríamos em um mundo sem exploração, sem desigualdades, ou que desprezasse a piedade. Não quero dizer com isso que os seres humanos são escravos das circunstancias, mas sim que muitas vezes nos acomodamos com elas, e quem terá coragem de jogar a primeira pedra em um homem acomodado? E digo mais, se vivemos uma crise de ética na sociedade podem ter certeza que isso não vem só dos mendigos mentirosos não, traspassa todas as profissões e escalas da sociedade, mas ainda assim fico feliz se a reflexão ética começar por nós, afinal cedo ou tarde ele tem que vir de algum lugar, além disso já assumimos tantas mazelas da sociedade porque não mais essa? Pelo menos que essa seja por um fim maior...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Crônica Urbana IV: Enquanto isso no ônibus



Sábado de manhã! Só quem trabalha no sábado de manhã é que pode dizer que tipo de infortúnio significa trabalhar no sábado de manhã. O dia está lindo, o sol radiante, os pássaros cantam, a manhã bela e clara surge quase como um convite da natureza para a felicidade, guardada no fim do arco íris, e você desperdiçando isso pegando um ônibus lotado para ir trabalhar. Mas na verdade pode ser o contrário também, pode ser uma manhã chuvosa, de vento frio e céu cinza, pouco convidativa, e no fundo tudo que você queria era poder permanecer na cama embaixo das cobertas passeando entre o sono e a vigília, mas não, você tem que pegar o ônibus lotado para ir trabalhar. Em ambos os casos o infortúnio é o mesmo, e se chama obrigação (palavra assustadora pela própria sonoridade), e tudo parece melhor do que cumprir uma obrigação, faça chuva ou faça sol.
Eu bem sei da importância do trabalho na vida humana, afinal é nossa capacidade de transformar e manipular diretamente a matéria através do trabalho que nós da uma posição privilegiada na cadeia alimentar. O trabalho entendido como uma forma produtiva e criativa que ocupa o vazio de nossa existência tediosa impedindo muitas vezes que pule-mos do primeiro precipício. Porém, nesse caso que chamo atenção não estou me referindo a essa forma ideal de se entender o trabalho. Estou na verdade me referindo ao trabalho como práxis, no senso comum, ou seja, atividade continua, cansativa e repetitiva que o império das necessidades capitalistas nos obrigam a fazer, forma de vender seu tempo e sua paciência em prol de uma atividade que na maioria das vezes é mal remunerada e mal valorizada, é essa idéia de trabalho ao qual me refiro. E acho que não estou de todo enganado se digo que todo mundo diz querer ganhar na sena para não precisar mais trabalhar, principalmente no sábado de manhã. Isso faz de certa forma o trabalho como o mal numero um do homem.
O fato é que todo sábado de manhã quando eu pego o ônibus lotado para ir trabalhar, desanimado por esse fardo e tomado por essa reflexão, me deparo com muitas outras pessoas que parecem levar o mesmo fardo e talvez a mesma reflexão. Mas o curioso dessa história, e ai essa é uma percepção puramente minha, é a atitude um tanto quanto filosófica do motorista do ônibus, que em uma reta, ao avistar um decline na pista da esplanada, acelera o ônibus e desce em alta velocidade, provocando nos passageiros aquele friozinho na barriga igual o da montanha russa. Isso acontece por causa da adrenalina, não sou nenhum fã de esportes radicais, mas sei que a drenalina é uma substancia produzida pelo corpo humano e liberada no organismo quando o indivíduo, por algum motivo, se depara com uma situação aparentemente de risco. Basicamente essa substancia aumente a freqüência cardíaca deixando o corpo pronto e atento para uma ação rápida e essencial. É isso que acontece no caso do ônibus, a velocidade, a descida brusca e repentina pela pista. Começa como um ansiedade latente, que logo se materializa em uma espécie de bolha de ar no estômago, que vai crescendo e subindo pelo esôfago conforme o ônibus aumenta sua velocidade na descida, no fim de um segundo essa bolha explode na boca em um leve suspiro que termina inevitavelmente com um sorriso de canto de boca. Essa sensação boba é suficiente para varrer para longe o desanimo. Agora muitos me perguntaram, o que tem de filosófico e mesmo de curioso nessa besteira banal que acabo de descrever?
O ponto é, essa atitude simples, e provavelmente despropositada, levanta um questionamento sobre o fardo e o desanimo da vida, seja lá por que motivos forem, por trabalhar no sábado ou no domingo, ou mesmo não trabalhar. A leve sensação de adrenalina provoca uma quebra no cotidiano, parece acordar todo mundo sacudindo o desanimo e chamando a vida a tona, como um formigueiro que você sacode para instigar as formigas. A adrenalina parece nos dizer que perante o perigo da morte ( mesmo que esse perigo seja um simples ônibus numa descida) nada mais importa a não ser preservar a vida, e assim qualquer fardo fica pequeno. E como se a sensação sentida confirmasse para mim mesmo que realmente estou vivo. O motorista um tanto quanto filosófico, parece utilizar de uma metáfora para afirmar a vida mesmo nas desavenças de sábado de manhã, para lembra aos tripulantes que antes de tudo vem a própria vida como problema essencial e insolúvel, ante isso qualquer preocupação ou angústia se torna mesquinharia. Assim sendo para os que perceberam a metáfora do motorista ou não, eu afirmo, viva a filosofia do banal, pois ele vai além da metafísica!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Estética do observador




De minha quase que natural inclinação a solidão, associada a minha vivência urbana, típica das metrópoles cosmopolitas do mundo contemporâneo, acabei por desenvolver um alto grau de singularidade frente a sociedade que me rodeia. Sou só mais um transeunte anônimo caminhando pelas ruas da cidade, pelas praças, dentro dos ônibus e metros. E tudo que meus sentidos captam do mundo externo e automaticamente interiorizado e peculiarmente tornado meu, tornado eu. Tenho livre acesso as mais modernas e tecnológicas fontes de informação, que derramam por sobre meus olhos e ouvidos quase todo o conhecimento já produzido pela humanidade por séculos e séculos, e isso só depende de um simples movimento do meu dedo indicador por sobre o mouse. Voraz consumidor de saber, bebo conhecimentos de todos os tipos, de filosofia grega a bossa nova, de fenomenologia a geopolítica, de cinema novo a surrealismo...
A contradição disso tudo é que dentro de toda essa multiplicidade do mundo pós-moderno acabei por me torna incapaz dos mais simples exercícios de sociabilização. Praticamente um eremita na cidade! Tudo fora de mim parece estranho e hostil, já não sinto intimidade com nada. Participo dos mais diversas culturas e subculturas contemporâneas, mas não pertenço a nenhuma. Eterno estrangeiro de todos os lugares! Ando em meio as multidões, mas estou sempre só. Olho para as pessoas e sei que são humanas como eu, e ainda assim pareço pertencer a uma raça única e já extinta. E é daí que surge o que chamo de estética do observador.
Da janela de meus olhos observo o mundo lá fora. Ele é vasto e diverso, sem começo nem fim, sem centros ou mesmo periferias, caótico e extremamente organizado, sublime e apavorante! Um macro sistema global formado por inúmeros micro sistemas locais. Um enorme emaranhado de culturas tão iguais quanto diferentes. Em suma um enorme caldeirão de relações de poder, impossível de ser analisada como um todo por indivíduos que são só seus fragmentos, e por tanto só podem dar conta de analisar fragmentos. Querer mais do que isso é como pedir a uma formiga que explique o que é um continente.
Como já não tenho pretensões de entender a existência como se ela fosse totalmente inteligível e o racionalismo cartesiano me parece banal, me contento em apreciar o quanto posso ver e sentir do mundo e o quanto posso particularizar isso como meu mundo. Aprecia-lo como se dele não fizesse parte, como mero observador, como um voyeur da vida. Olhar para o mundo como se uma película fina, porém intransponível me separasse dele. Assim tudo se torna belo e contemplativo, até mesmo os horrores humanos, pois no fundo tudo se resume a estética, a como percebemos as coisas, todas as ideologias, filosofias e religiões não passam de estética. A sociedade é uma grande farsa, um teatro de máscaras, um filme sem fim onde sou o único expectado do lado de fora da tela, que na verdade é meu lado de dentro. Minha ânsia de mudar o mundo tende a se apaziguar, pois já percebi que o mundo não precisa de mim para muda-lo, ele faz isso naturalmente. E a mim, cabe apenas notar essas modificações e quem sabe escrever algo sobre elas como puro exercício de estética...
Obs: Estética é normalmente definida como o estudo do belo. Mas prefiro adaptar essa definição para o estudo das formas de percepção do belo.