quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As Quebradeiras: a poética do movimento



As quebradeiras de coco de babaçu, é sobre isso o filme de Evaldo Mocarzel. Um tema simples, sobre o cotidiano simples dessas mulheres simples, fortes e belas, marcadas pelo trabalho duro e pelo canto festivo que afirma a vida a cada dia e a cada coco quebrado. Uma simplicidade que instantaneamente se transforma sobre o olhar investigativo e contemplativo do cineasta, que narra a vida dessas figuras, de seu universo simbólico, cultural, existencial, de forma a encontrar no enigma da visão a poética do movimento dos seres. O filme se liberta de toda a linearidade da narrativa, de toda palavra falada, de toda legenda racional, para se entregar por completo a sinestesia da imagem e do som. Esse é o resumo do filme, um filme de som e imagem, que fala através do corpo, que se constitui por movimento, sobre o trabalho, a cultura e a vida desses seres humanos.
As quebradeiras de coco de babaçu da região do Pará e Maranhão vivem do extrativismo vegetal, vivem do babaçu. Aproveitam tudo que a que a árvore pode fornecer, da semente fazem óleo, do broto se extrai o palmito, aproveitam as folhas para produzir esteiras e cestos, atividade que alimenta toda uma economia de subsistência ecologicamente correta. Mas tudo isso é só o obvio, pois o olhar que busca, que percebe, vai mais longe, perfurando por entre as inúmeras camadas da realidade... O vento soprando entre as folhas verdes do babaçu parece cantar na mesma toada que as quebradeiras, o movimento forte e preciso dos braços e da mão, que empunhando um porrete lascam o coco contra a pedra afiada, libertando de seu interior a semente da planta. Nesse documentário é o corpo quem conta as histórias e dele também que surgem as metáforas e signos que significam a vida dessas mulheres.
Por entre a floresta verde de arvores de babaçu caminha uma mulher, ela surge em meio ao verde formando na tela do cinema um quadro, uma tela plasticamente construída, que entre o movimento da imagem e a imobilidade da fotografia cria uma cena onírica, que lentamente lança o espectador atento e sensível a uma espécie de transe, onde tudo flui lenta e organicamente quase como se o espectador fizesse parte da imagem que observa. E não fará parte realmente?! No cotidiano elas que trabalham duro, também cantam cantigas e cirandas, preparam o alimento de cada dia no silêncio exuberante de suas casinhas simples de madeira, se banham no rio, e penteiam os cabelos sem a pressa dos que estão sempre a esperar. Em seu universo tudo é certo e natural, o tempo corre cíclico e ameno longe da turbulência da civilização moderna. O olho do cineasta liberta o espírito que passei pelo ambiente e absorve o espetro do visível dando origem a imagem que por sua vez toca o espírito do observador tanto quanto o do cineasta. Comunicação transcendental que se imprime por artifícios imanentes e materiais, tanto a câmera que filma, o projetor que produz a imagem na tela do cinema , e principalmente a retina que apreende a luz e transfigura as formas em signos visuais. Corpo e espírito trabalhando em fusão e relativa harmonia criam a visão, o olhar, o cinema.
É de um etnodocumentário que estamos falando, nele arte e ciência travam um dialogo rico e intenso sem fronteiras definidas ou preconceitos intelectuais. O cinema como instrumento de análise da realidade, da dinâmica de uma comunidade, um tipo de ciência da imagem unida a uma antropologia do olhar. E é exatamente esse o olhar de antropólogo que Mocarzel lança para tentar desvendar a linguagem peculiar das quebradeiras, linguagem que dá vida e significado a uma atividade aparentemente simples e tediosa, mas que no fundo comporta em si todo um universo de beleza incomensurável. O universo que se abre na imagem detalhista do seio negro da quebradeira que se banha no rio e que aos poucos se transfigura no coco de babaçu, dando tom a metáfora da vida. Como uma brincadeira da natureza o seio que alimenta o recém nascido leva a mesma forma que o coco que o alimentará na vida adulta.
Quanto pode falar uma imagem, quantas linguagens diversas podem nela se apresentar? Cabe ao cinema, em sua complexidade e multiplicidade, investigar!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Profissão mendigo




Já existíamos desde antes da época de Cristo, quem por sinal muito simpatizava conosco, e até acrescentou a barba e os cabelos compridos a nossa estética . Na Grécia Antiga lá estávamos, perambulando pelos cantos das pólis, e assim mesmo pregava o cínico Diógenes, um dos mais ilustres dos nossos por também ser filosofo nas horas vagas, vivia em uma barril, na completa miséria, possuindo apenas uma caneca e um bastão. Era ele símbolo do desapego e da auto-suficiência ante o mundo. Louco e profeta, indigente e poeta!
Na Idade Média enchíamos a entrada das catedrais e igrejas, mas não era só para pedir não, tinhas uma indispensável função espiritual dentro da doutrina católica. Já que eles pregavam a compaixão e a piedade, ninguém melhor do que nós para despertarmos nos outros tais sentimentos. E se os católicos estiverem certos e esses sentimentos realmente abrirem as portas do paraíso, nós já ajudamos muitas almas a se salvarem por ai! E até hoje dizem ai pelo interior que Deus toma a nossa forma emprestada para testar os fieis.
Se pensarmos no surgimento do mundo capitalista também veremos uma importância singular de nossas atividades. Nossa desgraça e miséria tomada simbolicamente pelas forças do Estado serviam de exemplo para os trabalhadores, numa espécie de terrorismo mental. Vejam o que acontece aos que não se adaptam a disciplina industrial da nova ordem mundial ! E lá estávamos melancólicos e taciturnos, como almas perdidas no purgatório, cumprindo resignado nossa terrível função social, jogados como lixo nos becos sujos de Londres, Paris, e logo, por todas as metrópoles do mundo moderno. Peças chaves no entendimento da dialética moderna, somos sempre a outra extremidade do progresso capitalista, o lixo sempre defronte ao luxo! Desta forma assumimos também uma função metafísica frente ao funcionamento da existência.
Assim podemos ver o quanto é antiga nossa profissão, assim como a miséria sempre existiu na alma humana nós também sempre existimos nas diversas sociedades, para lembrar a própria miséria que caracteriza a condição humana desde nossos primórdios animais. Se pensarmos na atualidade confirmaremos nossa importância estrutural na sociedade capitalista. Nós que recolhemos as moedas excedentes dos bolsos e carteiras, nós que recebemos as pilhas de roupas velhas que entulham os armários, nós que apoiamos ongs e empresas com “consciência social” a ganhar exoneração de impostos, nós que tornamos mais felizes os natais e feriados santos para os que doam. E afinal o que seria de um sistema que se fundamenta na exploração sem ter os explorados, o que seria da economia mundial sem os ratos e abutres que comem os restos deixados para traz pelos leões e leoas do mercado?
Muito se elogia as grandes e nobres profissões da humanidade, médico, cientista, juiz, professor(hoje em dia nem tanto), general, presidente e tantos outros clichês. Para nós guardam palavras não muito afáveis, como vagabundos, indigentes, inúteis, e o melhor de todos, parasitas sociais. Não nego nenhuma dessas classificações, afinal historicamente eles fazem parte da imagem necessária a essa profissão. Temos de ser sujos, feios, maltrapilhos, desprezíveis, patéticos, dignos de dó, temos que pedir, implorar, enojar, comover, sem isso não atingimos nosso objetivo de sobrevivência (algumas moedas) nem nosso papel social(subconsumidores). Seria como tirar do médico seu estetoscópio, ou o carro do motorista! Se muitos nos acusam de enganadores e fingidos respondo com prontidão; toda profissão leva naturalmente alguns elementos cênicos não se pode negar, e se mentimos as vezes e isso parece uma atitude anti-ética, eu agora é que pergunto, e os políticos corruptos, as impressas sonegadoras de imposto, ou mesmo os que estacionam em vagas de deficiente, são eles mais éticos ou menos éticos que nós?
Dessa forma exijo o reconhecimento de nossa profissão, que não é melhor ou pior que nenhuma outra. Se um indivíduo se torna advogado é porque seu meio o possibilitou isso, ele não existiria em uma sociedade por exemplo sem leis, ou com uma lei única. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a nós, entre muitas profissões escolhemos a que nós é mais próxima pela condição dos meios em que vivemos( poderíamos ter sido assaltante, traficante, pedreiro, catado etc), não existiríamos em um mundo sem exploração, sem desigualdades, ou que desprezasse a piedade. Não quero dizer com isso que os seres humanos são escravos das circunstancias, mas sim que muitas vezes nos acomodamos com elas, e quem terá coragem de jogar a primeira pedra em um homem acomodado? E digo mais, se vivemos uma crise de ética na sociedade podem ter certeza que isso não vem só dos mendigos mentirosos não, traspassa todas as profissões e escalas da sociedade, mas ainda assim fico feliz se a reflexão ética começar por nós, afinal cedo ou tarde ele tem que vir de algum lugar, além disso já assumimos tantas mazelas da sociedade porque não mais essa? Pelo menos que essa seja por um fim maior...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Crônica Urbana IV: Enquanto isso no ônibus



Sábado de manhã! Só quem trabalha no sábado de manhã é que pode dizer que tipo de infortúnio significa trabalhar no sábado de manhã. O dia está lindo, o sol radiante, os pássaros cantam, a manhã bela e clara surge quase como um convite da natureza para a felicidade, guardada no fim do arco íris, e você desperdiçando isso pegando um ônibus lotado para ir trabalhar. Mas na verdade pode ser o contrário também, pode ser uma manhã chuvosa, de vento frio e céu cinza, pouco convidativa, e no fundo tudo que você queria era poder permanecer na cama embaixo das cobertas passeando entre o sono e a vigília, mas não, você tem que pegar o ônibus lotado para ir trabalhar. Em ambos os casos o infortúnio é o mesmo, e se chama obrigação (palavra assustadora pela própria sonoridade), e tudo parece melhor do que cumprir uma obrigação, faça chuva ou faça sol.
Eu bem sei da importância do trabalho na vida humana, afinal é nossa capacidade de transformar e manipular diretamente a matéria através do trabalho que nós da uma posição privilegiada na cadeia alimentar. O trabalho entendido como uma forma produtiva e criativa que ocupa o vazio de nossa existência tediosa impedindo muitas vezes que pule-mos do primeiro precipício. Porém, nesse caso que chamo atenção não estou me referindo a essa forma ideal de se entender o trabalho. Estou na verdade me referindo ao trabalho como práxis, no senso comum, ou seja, atividade continua, cansativa e repetitiva que o império das necessidades capitalistas nos obrigam a fazer, forma de vender seu tempo e sua paciência em prol de uma atividade que na maioria das vezes é mal remunerada e mal valorizada, é essa idéia de trabalho ao qual me refiro. E acho que não estou de todo enganado se digo que todo mundo diz querer ganhar na sena para não precisar mais trabalhar, principalmente no sábado de manhã. Isso faz de certa forma o trabalho como o mal numero um do homem.
O fato é que todo sábado de manhã quando eu pego o ônibus lotado para ir trabalhar, desanimado por esse fardo e tomado por essa reflexão, me deparo com muitas outras pessoas que parecem levar o mesmo fardo e talvez a mesma reflexão. Mas o curioso dessa história, e ai essa é uma percepção puramente minha, é a atitude um tanto quanto filosófica do motorista do ônibus, que em uma reta, ao avistar um decline na pista da esplanada, acelera o ônibus e desce em alta velocidade, provocando nos passageiros aquele friozinho na barriga igual o da montanha russa. Isso acontece por causa da adrenalina, não sou nenhum fã de esportes radicais, mas sei que a drenalina é uma substancia produzida pelo corpo humano e liberada no organismo quando o indivíduo, por algum motivo, se depara com uma situação aparentemente de risco. Basicamente essa substancia aumente a freqüência cardíaca deixando o corpo pronto e atento para uma ação rápida e essencial. É isso que acontece no caso do ônibus, a velocidade, a descida brusca e repentina pela pista. Começa como um ansiedade latente, que logo se materializa em uma espécie de bolha de ar no estômago, que vai crescendo e subindo pelo esôfago conforme o ônibus aumenta sua velocidade na descida, no fim de um segundo essa bolha explode na boca em um leve suspiro que termina inevitavelmente com um sorriso de canto de boca. Essa sensação boba é suficiente para varrer para longe o desanimo. Agora muitos me perguntaram, o que tem de filosófico e mesmo de curioso nessa besteira banal que acabo de descrever?
O ponto é, essa atitude simples, e provavelmente despropositada, levanta um questionamento sobre o fardo e o desanimo da vida, seja lá por que motivos forem, por trabalhar no sábado ou no domingo, ou mesmo não trabalhar. A leve sensação de adrenalina provoca uma quebra no cotidiano, parece acordar todo mundo sacudindo o desanimo e chamando a vida a tona, como um formigueiro que você sacode para instigar as formigas. A adrenalina parece nos dizer que perante o perigo da morte ( mesmo que esse perigo seja um simples ônibus numa descida) nada mais importa a não ser preservar a vida, e assim qualquer fardo fica pequeno. E como se a sensação sentida confirmasse para mim mesmo que realmente estou vivo. O motorista um tanto quanto filosófico, parece utilizar de uma metáfora para afirmar a vida mesmo nas desavenças de sábado de manhã, para lembra aos tripulantes que antes de tudo vem a própria vida como problema essencial e insolúvel, ante isso qualquer preocupação ou angústia se torna mesquinharia. Assim sendo para os que perceberam a metáfora do motorista ou não, eu afirmo, viva a filosofia do banal, pois ele vai além da metafísica!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Estética do observador




De minha quase que natural inclinação a solidão, associada a minha vivência urbana, típica das metrópoles cosmopolitas do mundo contemporâneo, acabei por desenvolver um alto grau de singularidade frente a sociedade que me rodeia. Sou só mais um transeunte anônimo caminhando pelas ruas da cidade, pelas praças, dentro dos ônibus e metros. E tudo que meus sentidos captam do mundo externo e automaticamente interiorizado e peculiarmente tornado meu, tornado eu. Tenho livre acesso as mais modernas e tecnológicas fontes de informação, que derramam por sobre meus olhos e ouvidos quase todo o conhecimento já produzido pela humanidade por séculos e séculos, e isso só depende de um simples movimento do meu dedo indicador por sobre o mouse. Voraz consumidor de saber, bebo conhecimentos de todos os tipos, de filosofia grega a bossa nova, de fenomenologia a geopolítica, de cinema novo a surrealismo...
A contradição disso tudo é que dentro de toda essa multiplicidade do mundo pós-moderno acabei por me torna incapaz dos mais simples exercícios de sociabilização. Praticamente um eremita na cidade! Tudo fora de mim parece estranho e hostil, já não sinto intimidade com nada. Participo dos mais diversas culturas e subculturas contemporâneas, mas não pertenço a nenhuma. Eterno estrangeiro de todos os lugares! Ando em meio as multidões, mas estou sempre só. Olho para as pessoas e sei que são humanas como eu, e ainda assim pareço pertencer a uma raça única e já extinta. E é daí que surge o que chamo de estética do observador.
Da janela de meus olhos observo o mundo lá fora. Ele é vasto e diverso, sem começo nem fim, sem centros ou mesmo periferias, caótico e extremamente organizado, sublime e apavorante! Um macro sistema global formado por inúmeros micro sistemas locais. Um enorme emaranhado de culturas tão iguais quanto diferentes. Em suma um enorme caldeirão de relações de poder, impossível de ser analisada como um todo por indivíduos que são só seus fragmentos, e por tanto só podem dar conta de analisar fragmentos. Querer mais do que isso é como pedir a uma formiga que explique o que é um continente.
Como já não tenho pretensões de entender a existência como se ela fosse totalmente inteligível e o racionalismo cartesiano me parece banal, me contento em apreciar o quanto posso ver e sentir do mundo e o quanto posso particularizar isso como meu mundo. Aprecia-lo como se dele não fizesse parte, como mero observador, como um voyeur da vida. Olhar para o mundo como se uma película fina, porém intransponível me separasse dele. Assim tudo se torna belo e contemplativo, até mesmo os horrores humanos, pois no fundo tudo se resume a estética, a como percebemos as coisas, todas as ideologias, filosofias e religiões não passam de estética. A sociedade é uma grande farsa, um teatro de máscaras, um filme sem fim onde sou o único expectado do lado de fora da tela, que na verdade é meu lado de dentro. Minha ânsia de mudar o mundo tende a se apaziguar, pois já percebi que o mundo não precisa de mim para muda-lo, ele faz isso naturalmente. E a mim, cabe apenas notar essas modificações e quem sabe escrever algo sobre elas como puro exercício de estética...
Obs: Estética é normalmente definida como o estudo do belo. Mas prefiro adaptar essa definição para o estudo das formas de percepção do belo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Nas graças de Calypso


Eis que surge da penumbra a aguardada dama da noite, com suas vestes longas de sacerdotisa e seu canto de sereia, como a ninfa dos mares que aparece na canção “Porto alegre”. Seu semblante juvenil e inocente e sua voz de tom doce e melancólico enganam os ouvidos desatentos que acreditam que ela canta o romantismo do amor. No fundo sua música sensitiva e minimalista, rica em metáforas e imagens poéticas provoca um forte impacto sonoro, que me parece surgir principalmente de sua proposta dialética que contrapõe sua interpretação leve e angelical com suas letras existencialistas de temática pesada, que remetem aos sentimentos mais densos, complexos e perturbadores que surgem do âmago da alma humana. “Transito entre dois lados de um lado eu gosto de opostos...” diz ela. Assim suas músicas, que se iniciam sempre de uma simples levada de violão, cantam a desilusão, a busca e a perda, o medo da solidão e o desespero da incompreensão de uma existência incompreensível. Mas ela fale de amor? É claro que ela fale de amor, não se faz arte sem se falar de amor, explicita ou implicitamente. Mas a grande questão não é o amor em si, sentimento polimorfo e difícil de ser definido, mas sim a falta de amor, a busca incansável e constante por amor, as ilusões e desilusões do amor, os prazeres e as dores do amor, as transformações do amor que permanece e se modifica ao mesmo tempo. “O nosso amor não vai parar de rolar de fugir e seguir como um rio”. O amor incansável e insatisfeito que nasce e more a cada instante, sempre em busca de um segundo mais feliz. É esse o universo que se ergue de sua música, a completude dos opostos, a insustentável leveza do ser nas palavras de Kundera.
O mar, figura presente em vários de seus álbuns anteriores, surge nesse novo álbum como figura central presente logo no titulo “Maré”. E é assim que ela abre o concerto, cantando as várias imagens poéticas do mar, suas cores e suas formas. “Mais uma vez vem o mar se dar como imagem... Sendo salgado gelado ou azul será só linguagem... Estando emaranhado verde azul será ondulado”. Mar de Poseidon, mar de Iemanjá, mar de Adriana! O mar, espaço amplo, quase infinito de liberdade,ela abre o concerto com a canção ‘Maré’,e fecha com a canção “Sargaço mar”, composição de Dorival o poeta, o mar do mistério da morte, a perdição da alma e a salvação pela fé, o som eterno que toca sempre ao longe e embala as vidas dos homens e mulheres que sabem ouvir... Iemanjá odoiá!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Vítima da Solidão



De repente eis que desperta assustado com um grito! Mais não um grito ouvido e sim um grito sonhado, que no fundo não tem diferença alguma. Os olhos arregalados pouco a pouco vão identificando as formas dos objetos no quarto escuro. O suor gelado escore-lhe pela face, o corpo treme, sente o coração palpitar tão rápido como se quisesse fugir do peito. Que dia era que mês? Não se recorda, menos ainda há quanto já estava ali dormindo, parecia que já haviam passados anos sem acordar, e ainda assim tudo permanecia igual. Atordoado pelo pesadelo que não se recordará bem, a não ser pelo gosto amargo de medo que ficou impregnada no pensamento, resolve se levantar. Olha ao redor. Todo o minúsculo apartamento de dois cômodos estava revirado como se ali passará a pouco um tufão. Roupas sujas cobrindo a pouca mobília, livros espalhados em pilhas desorganizadas pelo chão, as plantas mortas na janela por falta de luz e água e o cheiro forte que exalava da pia da cozinha repleta de pratos sujos e restos putrefatos de comida chinesa. Com a boca seca alcança na escrivaninha entre as latas vazias de cerveja uma garrafa de vodca barata, onde ainda restava um último trago. Só depois de sentir o gosto forte da vodca descendo pela garganta e que ele realmente percebe que está acordado e vivo, ou pelo menos meio vivo! A vida só se pode definir pelas sensações que proporciona, principalmente pela dor que é a prova da vida material. Com a mente ainda turva de pensamentos e imagens estranhas e desconexas, apanha um cigarro meio fumado no cinzeiro entupido de cinzas e bitucas e acende. Empurra paro o chão uma pilha de roupas que estavam encima da poltrona e se senta buscando na memória vaga alguma explicação para tamanha decadência. Enquanto fuma lentamente, fixa sua atenção na aresta superior entre a parede e o teto do quarto, onde uma pequena aranha em sua casa de teia acaba de capturar uma mosca e se prepara para devorá-la. Aquela cena simplória e quase insignificante a qual ele observa por um tempo indeterminado que não caberia nos ponteiros de um relógio, lhe atinge como um dardo que rasga o esquecimento e libera emoções perdidas ou escondidas na memória. E automaticamente a palavra Existência lhe vem na mente, por um instante ele se recorda de seus antigos estudos de filosofia, e sussurra para si mesmo: “Existir significa nascer e morrer, um movimento de eterno retorno, vazio e sem sentido ante a imensidão infinita do universo”. Novamente ele sente a prova de que está realmente vivo. Numa distração ele queima seu dedo com o cigarro, e mais uma vez a dor se lhe apresenta, fraca sim, mas análoga a tantas outras que ele já sentira dilacerando sua alma. Ou haverá alguma diferença entre a brasa que queima apela e o Amor que arde no coração, ou a Angústia que perfura fundo a alma do homem?! Caminha até o banheiro, quer ver sua face no espelho. Olha-se e não se reconhece! A barba grande, os cabelos desgrenhados, as olheiras fundas, a pele pálida quase sem expressividade, o rosto magro e ossudo. “Quem é afinal esse que se apresenta no espelho?!” Se pergunta sem resposta. “Eu não posso ser; no máximo é meu cadáver que insiste em vagar por esse mundo”. Desconcertado pela imagem de sua própria morte, em um movimento brusco ele quebra o espelho com um soco e sente seu sangue viscoso escorrer por entre os dedos. Agora o espanto e ainda maior, seu corpo parece lhe dizer que ele ainda está vivo, mas ele sente um Vazio no peito que lhe prova que sua alma dali já se foi. Ele resolve se deitar novamente, mas o medo lhe presenteia com a insônia. Na cama ele fica de olhos bem abertos ouvindo os passos de fantasmas e demônios que o espreitam pelo apartamento. As lagrimas lhe correm dos olhos para o rosto compulsivamente, e ele já nem se lembra mais o que lhe faz chorar, mas sente-se incapaz de parar. Levanta-se novamente e pensa em abrir a janela, talvez gritar por socorro. O medo lhe congela os braços e o máximo que consegue é observar pelas frestas da janela a rua deserta. Já devem ser altas horas da madrugada, madrugada que para ele parece nunca ter fim. Ele olha com estranheza a rua lá fora, como se fosse um estrangeiro e sente um absurdo desapego a toda e qualquer coisa. Cai uma chuva leve por sobre o asfalto, essa cena se perpetua como se o tempo houvesse morrido. De manhã com o nascer do sol a policia arromba a porta do apartamento, e o encontra sentado inanimado no chão ao lado da janela fechada. E nos jornais se publicam a manchete: “Morreu hoje em seu apartamento mais uma vítima da Solidão”.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O exilio



Quem são os sem alma? Para que terras remotas são enviados os que perderam sua alma? Porque crime hediondo foram eles condenados, que tipo de Deus cruel os flagela? São eles os exilados da alma! Nasceram sem essência esses pobres infelizes, e se algo conseguem construir logo se esvai como poeira, por isso são amorfos, sem rosto, sem pátria, sem família, sem iguais. Eternos andarilhos vagam por entre as multidões imperceptíveis e rapidamente desaparecem ao longe como fantasmas. Carregam na fronte a marca de Cain, estigma dos homens e dos tempos, marcados por seu ódio, marcados por seu mal, marcados por serem demasiado humanos! Neles não se pode fala, eles poucos podem ver, estrangeiros de todos os lugares, estranhos a tudo e a todos, degredados do mundo e de si mesmos. São eles os exilados da alma! Inconformados com o existirem como coisa, como bicho, como homem... Eles fogem, fogem do destino, da dor, da morte, do amor... Ao contrario da maioria dos humanos que se contentam com as ilusões da civilização eles fogem. Para onde fogem? Para todos os lugares e para lugar nenhum. São eles os exilados da alma! Na bagagem a solidão, nos olhos a desilusão, no peito o nada deixado pelo vácuo da alma que lhes foi arrancada. São eles os exilados da alma!