quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O exilio



Quem são os sem alma? Para que terras remotas são enviados os que perderam sua alma? Porque crime hediondo foram eles condenados, que tipo de Deus cruel os flagela? São eles os exilados da alma! Nasceram sem essência esses pobres infelizes, e se algo conseguem construir logo se esvai como poeira, por isso são amorfos, sem rosto, sem pátria, sem família, sem iguais. Eternos andarilhos vagam por entre as multidões imperceptíveis e rapidamente desaparecem ao longe como fantasmas. Carregam na fronte a marca de Cain, estigma dos homens e dos tempos, marcados por seu ódio, marcados por seu mal, marcados por serem demasiado humanos! Neles não se pode fala, eles poucos podem ver, estrangeiros de todos os lugares, estranhos a tudo e a todos, degredados do mundo e de si mesmos. São eles os exilados da alma! Inconformados com o existirem como coisa, como bicho, como homem... Eles fogem, fogem do destino, da dor, da morte, do amor... Ao contrario da maioria dos humanos que se contentam com as ilusões da civilização eles fogem. Para onde fogem? Para todos os lugares e para lugar nenhum. São eles os exilados da alma! Na bagagem a solidão, nos olhos a desilusão, no peito o nada deixado pelo vácuo da alma que lhes foi arrancada. São eles os exilados da alma!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Crônica Urbana III: Fui na esquina comprar "pão"



Ainda de dentro do carro ao longe percebi o movimento, que pode ser discreto a olhos desavisados, mas sem dúvida nenhuma é descarado aos olhos de quem sabem procurar. É interessante perceber isso, pois o mercado negro funciona basicamente como o comércio convencional, vendedor, clientes, produto, dinheiro... A peculiaridade dessa forma ilegal de comércio é o fato de que ele deve ser visível para uns e invisível para outros, a verdade é que quem procura sabe onde achar, e mesmo os agentes da lei sabem achar, mas quando estes não estão envolvidos com os vendedores caiem na hipocrisia comum e fingem que não estão vendo nada. Acho que só não sabe quem realmente não quer saber. E isso é até aceitável já que esse submundo não é nada agradável. A identificação rolou pelos olhares trocados rapidamente entre consumidores e fornecedores. Eles, os fornecedores, são gente experiente na área, conhecem o tipo certo de seus clientes de longe, não que exista um único estereotipo para esse tipo de gente, na verdade existem muitos e ainda assim não comportam toda a multiplicidade indefinível de consumidores que variam desde um senhor de meia idade e suéter de lã, até um adolescente de moicano verde. A coisa acontece mesmo é pelo olhar, pelo movimento, um sacando os interesses do outro.
Passamos uma única vez de carro na frente da comercial, e isso foi o suficiente para entendermos que ali tinha o que queríamos. Estacionamos no fim da rua e subimos caminhando lentamente. A rua estava cheia, era o lugar perfeito para esse tipo de compra, cheio de bares e boates. Indiscutivelmente em qualquer lugar do mundo onde há juventude e álcool há também todos os outros adereços para a diversão. É tão obvio perceber a ligação do álcool com todas as outras drogas que chega a ser engraçado o fato de que o álcool é legal e as outras ilegais. Paradoxo ou hipocrisia social?! Em meio às pessoas que transitavam e bebiam por ali percebemos e fitamos de longe os agentes do narcotráfico, eram três tipos espalhados pelo estacionamento. Como percebê-los é fácil, normalmente se passam por vigias de carro, meio hippes, meio mendigos, meio traficantes... Um deles se aproxima sabendo bem o que queríamos, do branco ou do preto ele pergunta. Era alto e magro como um esqueleto, de pele morena cabelos e barba desgrenhados, bermuda, camiseta e chinelos. Seu olhar mal encarado parecia dizer que ele era capaz de matar qualquer um por pouca coisa, talvez isso não seja bem a verdade, mas sem dúvida queria dizer que ele tinha uma vida dura e perigosa e disso acho que ninguém pode duvidar. Vinte do preto, dissemos há ele, esse tipo de compra é feita por códigos, às palavras tem de ser poucas e o movimento rápido, dinheiro em uma mão produto em outra. É claro que toda essa precaução não evita com que todos que passem percebam o que esta sendo comercializado, as pessoas sabem e até fazem fila esperando sua vez, como em qualquer shopping. Nós o acompanhamos até a parte de traz do comércio, um lugar escuro e com forte cheiro de urina, esse é o ambiente característico. Às vezes paro para pensar que aqui no Brasil tudo podia ser como na Holanda, por exemplo, você entra em um coffee shop escolhe a dedo o que vai fumar paga, fuma, pode até beber alguma coisa enquanto ouve uma música ou conversa com um amigo. Ah isso que é um país verdadeiramente capitalista! Proibir as “drogas”, que nada! Se tiver quem compre sempre haverá quem venda, proibido ou não. Enquanto aqui, entre os flagelados da globalização, nos afundamos em repressão e preconceitos arcaicos que só alimentam cada vez mais o mercado negro e a violência! E além de tudo somos nós os grandes fornecedores dos holandeses, ou seja, a um valioso produto internacionalmente apreciado que nós produzimos e vendemos, mas a grana acaba nas mãos de uns poucos mega-empresarios do narcotráfico, e nada sobra para o país que ainda acha lindo quando alguns governadores colocam batalhões e mais batalhões de policia para prender gente nas ruas e favelas e periferias, repressão jamais resolveu problema nenhum, só aumenta a violência. Afinal o narcotráfico gera empregos, e se for pela violência que ele é proibido, convenhamos,fabricas de armas provocam muito mais violência, então porque não às fechamos primeiro?! Assunto longo e controverso, eu sei...!
O sujeito retirou um pacote de uma vala aberta por detrás de uma loja, ratos e baratas eram só um detalhe da paisagem urbana. O submundo tem de ser asqueroso, escuro, perigoso, tudo isso leva um ar de mistério que me atrai, mas confesso que preferia um produto mais higiênico. Ele nos entrega nossa parte e recebe sua grana, tudo se finda em poucos minutos. Alguns dias depois vejo no jornal que uma batida policial prendeu traficantes de drogas nessa mesma rua, provavelmente nosso fornecedor há essa hora esta em cana, que importa isso paro o narcotráfico? Que importa isso para a sociedade? Mais um ou menos um não faz diferença, de onde veio esse infeliz existem milhões de famintos prontos para fazer o que for necessário para conseguir um pouco do que o mundo exige e nega a eles. Será que é assim que se resolve um problema social, proibindo determinado produto com a ridícula desculpa de que ele faz mal a saúde, e prendendo os que vendem para sobreviver?! Por de trás de tudo isso existe um sistema globalizado, cruel e explorador que gera milhões e move o mercado capitalista. Tolice é achar que por ser ilegal esse sistema se diferencia do restante, as diferenças existem, mas no fundo é a mesma coisa, poucos ganham muito e muitos ganham à marginalidade e a miséria!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A partida


Os últimos dias antes de minha partida são impregnados de um sentimento de angústia latente, como se meus temores se fundissem a minha ansiedade formando um terceiro elemento obscuro e pegajoso que emplastra minha alma. Nada atualmente nesse lugar me agrada, passo dias inteiros trancado recluso em meu quarto, entediado demais para colocar o nariz para fora, imerso em literaturas que consolam minha falha de viver. Não sei ao certo se por lá será diferente, mas e exatamente essa dúvida que alimenta minha ansiedade atroz, que em alguns instantes de pensamento profundo parece abalar toda a minha consciência e imediatamente caio em um profundo sono de fuga, como um guerreiro que levanta a bandeira branca por cansaço da batalha... É a imagem do futuro que me assombra! Ou será a falta de sua imagem?! A imprevisibilidade do movimento, o por-vir! Quando iniciamos um movimento, seja qual for ele, estamos saindo de um ponto que ocupamos no tempo e no espaço e nos dirigindo a outro ponto que ocupa outro lugar no tempo e no espaço. Saindo de um estado de repouso, transitando por um estado de movimento e regressando ao estado de repouso, tal é o caminho percorrido. Independente da questão do movimento ser ou não indivisível, pode-se dizer que o movimento em síntese é um não-estado, um não-lugar, uma não-coisa, um não-ser... Onde o movimento se apresenta? Ele se apresenta no espaço intermediário entre o ponto de onde se sai e o ponto aonde se chega, ou seja, não há movimento nos pontos, só há movimento onde não há pontos, no espaço livre, indeterminado, misterioso... Se o movimento é o que nunca é, pois é sempre o por-vir, nos termos eraclitianos,ele é como o pulo no escuro, o vazio, o nada, elementos não-existentes que determinam os existentes. O movimento não pode ser contido, comprimido, classificado, é como a onda do mar que depois que se forma não importa se vai quebrar na praia ou na pedra, o certo é que ela quebrará e isso terá efeitos. Sendo o movimento campo de liberdade e também campo de possibilidade isso gere ansiedade, expectativa do novo. Quanto ao Medo, parece claro que se existe no movimento espaço de possibilidade em contrapartida há espaço de incerteza, insegurança, desamparo... O movimento rumo ao ser, a eterna partida seguida do eterno retorno! Parto em poucas horas para uma viajem... não sei bem para onde, não sei ao certo para que fim... Sei que parto, iniciando um movimento tão instigante quanto pavoroso rumo ao intangível...

domingo, 14 de junho de 2009

Crônica Urbana II: cidade submersa




"Ergo em silêncio, como um pirata perdido,
Minha negra bandeira e me sento.
Mexo e remexo e me perco e adormeço,
Nas ruínas da cidade submersa.
Sonhando um mar que não conheço
Como não conheço as ondas do meu coração.
Restaram que nem cinzas, cicatrizes que tentei cobrir ainda com pudor.
Na memória tantas vagas, que nem posso repetir ou explicar, se me doeu azar,
Não quero saber de nada..."
(Paulinho da Viola)

A cidade, emaranhado de vidas humanas diversas tão diferentes quanto iguais, amontoado de pedra e carne que pulsa, mexe, se expande e se contrai em movimentos sinuosos, mosaico de fragmentos infinitos. Caos e Ordem que se confundem e dançam em meio às multidões, prédios e avenidas. Frente a isso nasce o citadino, o metropolitano, o urbanóide, filhos da Modernidade, percussores a Pós-modernidade. Trabalho, atividade, produção, máquina, mil mãos e mil olhos agindo ao mesmo tempo, Tempo curto, fragmentado em milésimos, segundos, minutos, horas, controlado pelo Deus-Relogio, senhor das metrópoles. Esse homo-urbanus, solitário em meio à multidão submerge no mar da cidade, ruas, becos, pontes, e ao mesmo tempo quase como uma forma simbiôntica sente a cidade também submergir em seu peito, dar forma a seus sentimentos e moldar sua própria alma. Alma que se sonha, profunda como o mar, alma desconhecida, misteriosa como as ondas do coração.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Crônica Urbana: sonho acordado



Atolado nas obrigações da vida cotidiana, contas a pagar, prazos a cumprir, relações humanas frias e necessárias, ando sem forças me arrastando como um morto – vivo pelas ruas da cidade. A obrigatoriedade da vida, a repetição interminável e tediosa das horas, dos dias da semana, dos meses e anos, tudo parecendo tão indispensável quanto inútil! Não sei por que diabos continuo com tudo isso! E na verdade nem gosto de levar essa reflexão muito adiante, pois acho que ela pode acabar com um tiro na cabeça ou algo assim (porque não dar um tiro na cabeça? me nego essa pergunta). Como uma sombra, transito entre a multidão imperceptível, os olhares parecem me atravessar, minha angústia muda se debate no meu peito. Espero o ônibus que me leva ao trabalho, e também que me traz de volta a casa, sempre assim, sempre igual. O que vou dizer agora pode soar como uma enorme bobagem, mas quem há de me recriminar?! Quem há de negar a singularidade humana, como eu existem milhões, como eu não existe nenhum. A subjetividade individual não segue lógica cientifica nem necessita comprovações empíricas, por isso ignoro o que em minha história pode parecer bobagem e sigo minha narrativa. Avisto de longe meu ônibus, o mesmo de todos os dias. Subo, olho indiferente o cobrador, que me responde da mesma forma, pago a passagem, atravesso a catraca, me sento ao fundo do veiculo, visto meus fones de ouvido, e ao som calmo e sublime de uma sonata de Mozart ou Bach inicio minha viagem. É nesse momento banal, nesse ônibus comum, que com música aos ouvidos e os olhos grudados na paisagem urbana externa que passa em alta velocidade, encontro meu oásis da existência, minha válvula de escape dessa grande realidade que me oprime. É nesse instante efêmero e indelével que me sinto verdadeiramente humano, com todo o prestigio da palavra! Os budistas se dedicam a longos exercícios de meditação na busca pela transcendência da existência, o encontro com a eternidade sublime do Nirvana. Me arisco ao ridículo ao afirmar que tal meditação para mim se encontra dentro de um ônibus. Ali naquele banco, isolado pela música de toda a atividade exterior ao meu redor, com os olhos fixos no movimento continuo da cidade, entro em uma espécie de transe tão profundo quanto o de Buda. Minha alma livre com as asas da imaginação dança e canta por entre mundos que jamais conhecerei. Ali naquele mero ônibus caindo aos pedaços me torno sociólogo, filósofo, poeta, político hábil e honrado. Penso no problema da fome mundial, o neoliberalismo destruidor, as condições históricas e culturais da América Latina, da África e da Ásia. A economia mundial, a globalização, as soluções futuras para o capitalismo decadente. Penso na luta dos Sem Terra, na igualdade social, me encontro com os maiores pensadores da historia. Debato, discuto, proponho, discurso... Entrego-me a reflexões metafísicas sobre o Amor e a Liberdade. Lembro Platão, Rousseau, Nietzsche e Sartre, eles me falam de suas vidas de suas histórias e de toda sua filosofia, instrumentos de transformação para a humanidade. Penso na literatura, na poesia, em tudo que escreverei e que engrandecerá todos os homens e mulheres que lerem. Penso na ética social, que luta contra toda forma de racismo, preconceito e discriminação negativa que assola as nações, penso na ética ambiental que tenta evitar a degradação de nosso meio ambiente, o aquecimento global e o desmatamento da Amazônia. Penso nas guerras e na paz, na vida e na morte. Quem que me olha de fora vê um indivíduo patético, de vestes acinzentadas e semblante melancólico. Ninguém pode imaginar que no infinito de minha alma correm os discursos mais nobres e grandiosos da história da humanidade! E somente nesse breve período de vinte ou trinta minutos de viajem que me permito a fuga da pequeneza cotidiana e me torno Herói de mim mesmo. Chega minha parada, cessa a música em meus ouvidos, voltam meus olhos para a realidade socialmente aceita, desço do ônibus, ficam para traz os sonhos, esperando uma outra viajem. No escritório me espera uma montanha de documentos...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

I.

O exercício da observação moral: o que é a observação moral se não a análise das percepções empíricas e psicológicas das relações interpessoais, levando em conta os valores históricos e culturais das construções sociais? Buscando entre elas sentidos de Bem e Mal, certo e errado, útil e inútil, verdadeiro e falso, aceito e reprovável. Comumente na vida cotidiana esse é um dos mais apreciados exercícios entre grupos e subgrupos populares. Obviamente que em um nível mais baixo, com uma linguagem menos diversificada e profunda, com fundamentos intelectuais menos arrojados, no âmbito do senso comum isso é chamado, em tom pejorativo, de “fofoca”. Se não vejamos como se dão as coisas. O que faz um “fofoqueiro” ou “fofoqueira”? Penso que fala sobre a vida das outras pessoas, incluindo de diversas formas diferentes uma sensação de simpatia ou aversão, ou mesmo às vezes um posicionamento não muito bem definido. De ambas as formas (ressaltando as devidas diferenças) o que está envolvido basicamente é a emissão de uma opinião sobre os valores envolvidos em determinada ação ou reação humana. A “fofoca” se caracteriza como um comentário impertinente, insolente, repleto de uma pequena maldade cotidiana, desprovido de análise crítica, reflexiva e racional, fundamentado por conhecimentos televisivos, sentimentos pessoais e por outras fofocas. Enquanto na observação moral, tomemos como exemplo “A contribuição para a história dos sentimentos morais” de Nietzsche, existe uma reflexão crítica e racional sobre as relações interpessoais, que busca desvendar não os sentimentos que se fazem obvieis, claramente representados no teatro social, mas sim os sentimentos mais leves e obscuros que se escondem ao primeiro olhar e estão ligados aos interesses pessoais e/ou sociais de cada indivíduo. Buscando perceber relativamente às ligeiras variações na moralidade que ocorrem de acordo com o contexto histórico-cultural e as subjetividades humanas. Além do exército intelectual, crítico e criativo de tal tipo de observação, ela ainda possui uma importância ética tanto para vida individual quanto coletiva. Fora o fato de que na forma escrita à observação moral ganha grande valor literário, podemos observar isso em muitos romances e contos, como por exemplo, de Machado de Assis, anatomista de almas sempre pronto a extrair e analisar a moral de dentro da trivialidade das vidas humanas. Por fim, parafraseando o filósofo já citado; a observação moral ajuda a aliviar o fardo da vida e permite ganhar presença de espírito em situações difíceis como também distração em ambientes enfadonhos, que mesmo nas experiências mais duras da vida se possa ao menos extrair sentenças férteis para serem compartilhadas e tornar a vida pouco mais inteligível e interessante.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Escondida no banal



Hoje me deparei com a Beleza! Ela estava assim como quem não quer nada, perdida no mundo cotidiano, por acaso pegou o mesmo ônibus que eu. De repente ela se levantou do banco pouco a minha frente, e parou por um milésimo de segundo. E só essa aparentemente insignificante fração de tempo me permitiu lançar um olhar e pescar a imagem dela em minha mente. Com os olhos é possível possuir as coisas, os olhos abertos rumo ao externo, como as portas da consciência. Ela não trazia uma estética de cinema nem capa de revista, era simples e sensual, talvez mais comum do que eu esperava. Mas em um momento intangível, em determinado ângulo, em certa incisão de luz, o contraste com a sombra, a devida temperatura do ambiente e as propicias condições físicas e psicológicas. Eis que ali, nessa caótica e infinda estatística do real, me surge a Beleza encarnada em corpo de mulher! Nesse curto tempo meus olhos derreteram por sua esbelta silhueta, escorrendo da face, pelos olhos e lábios, passando pelos cabelos aos ombros, até chegar e reter-se no decote da blusa branca que exaltava as arredondadas curvas dos seios. Às vezes não sei ao certo se vi realmente o que vi ou se foi tudo imaginado! Acho que no fundo nem importa mesmo... Senti e o sentido se vale por si só, fora da Razão. Pude testar as forças de sociabilidade colocadas em mim, os laços da moral. Naquele instante eu só queria possuir a Beleza, tela para mim como um prêmio ou tesouro. Senti então a força de minhas raízes, meus instintos naturais. Se desperta minha fome mais antiga, a dos primórdios! Isso tudo no subterrâneo de mim, pois fora reina a aparente calmaria do dia a dia. Por sobre a película do normal, me encontro sentado, calmo e cooperativo como um bom e domestico humano civilizado. Meus desejos foram controlados e jogados para algum lugar escuro do inconsciente. Talvez voltem em forma de sonho erótico ou delírio cotidiano. O ônibus parou e ela se foi. O fato que fica registrado por minhas retinas é que em um ônibus comum, em um dia qualquer, entre pessoas normais, nem mais nem menos, vi a Beleza passar, inflar minha imaginação com seu sopro caliente e desaparecer sem nem mesmo acenar...!