sábado, 25 de abril de 2009

Angústia


Quando fui tomado de assalto pela dúvida, a dúvida fundamental aquela que persegue o filósofo, ela transpassou minha alma como uma flecha atirada pela Contingência e atingiu o âmago de minha existência. Assim provocou a primeira rachadura em minha armadura de Luz materna. Da rachadura todo meu mundo pueril ruiu, se desmanchando em cacos, como um espelho que se parte e leva a imagem antes projetada com tanta nitidez. Ilusão, fantasia, transformação! Desde então vago como a sombra da Sombra, por entre as ruínas de meu antigo reino de paz, agora já em franca decadência. Amontoado de certezas e símbolos mortos de um tempo que se foi e não voltara mais. Das lágrimas de minha eterna solidão, planto sementes de Dor na terra árida e rezo em silêncio para todos os Deuses e Demônios, para que nasçam logo as flores de meu Mal dando Vida a minha Morte.
Ainda me recordo dos dias de Inocência, quando o que eu via era só o que eu via, o mundo corria leve ao meu redor e a estrada era uma só. Agora que me dei conta da Liberdade, as estradas se multiplicaram tornando-se tortuosas e dúbias. Tenho Medo! Mas sei que desse Inferno posso criar a Vida, aquela que ainda não tive, aquele que se esconde no porvir do lado Vazio do Ser que nunca é.Porém o risco iminente existe e sempre há de existir, pois quem muito se aproxima do Abismo numa vertigem pode nele cair...

sábado, 18 de abril de 2009

Nascimento: reminiscências da vida



Quando da aurora da vida surgi em prantos das entranhas da mulher, chorava de dor e de medo do mundo que para mim se apresentava nefasto e misterioso. Do corpo que para mim, amontoado de carne, sangue e ossos, mais parecia uma prisão orgânica com seu terrível pesar, com suas funções e disfunções ainda inexploradas e por isso assustadoras. Braços e pernas a se debater, olhos sugando toda a luz do ambiente e formando estranhas figuras disformes, ouvidos captando sons, ruídos, vozes que ainda nada diziam, boca a soar um grito agudo que brota das profundezas de minha garganta. Descubro as sensações corpóreas e com elas a dor e a necessidade. Sinto fome, sinto cede, sinto frio, sinto calor, sinto mãos a me tocar, sinto a carne que me recobre e pesa. Assim nasci, homem e mortal! Mas porque fui condenado ao degredo da vida?! Porque fui arrastado com tamanha brutalidade de fora do tempo, da paz eterna do Nada, para as turbulências da existência?! A resposta quem traz é o Silêncio...!

terça-feira, 7 de abril de 2009



Quem sou Eu se não o outro, o que me vê e me ouvi?! O que me nomeia e invoca?!
Em certas manhãs em que, sabe-se lá porque, me levanto doente dos olhos e me ponho a pensar, quem sou Eu? Entre minha xícara de café e minha viajem de metro, me transporto para o universo paralelo de minha mente e chego à estação quase como um estrangeiro em terras distantes. No passar rápido das imagens pela janela do metro me lanço em reflexões sobre meu Eu concreto e meu Eu abstrato.
Quem sou Eu? Serei o uniforme que visto, de professor, faxineiro ou médico? O sorriso amarelo e cordial que colo ao rosto para falar com os clientes, na loja de sapatos, na concessionária ou na recepção?Serei Eu talvez, alguma de minhas funções, filho, pai, irmão, amante ou marido? Quem sabe posso ser Eu os lugares que freqüento a universidade, o bar, o cinema ou o banheiro? Posso ser a política nacional, a economia mundial ou quem sabe a religião católica? Ora triste, amargo, repulsivo! Ora feliz, simpático, amável! Quem sou Eu entre tantos afinal? Um ator errante de mim mesmo, sempre representando o que os outros podem ver! Um palhaço carnavalesco sempre trocando de máscara a cada novo espetáculo da vida cotidiana! Sou Eu o outro, o que não sou. Sou Eu o ego, o que serei. Sou Eu o papel social que assumo, aqui, ali e acolá. Sou Eu o que exigem de mim as forças sociais e o que penso delas. Sou Eu o que fizeram de mim e também o que fiz do que fizeram de mim! Nunca esquecendo o degredo a liberdade. Sou Eu muitos, múltiplos, infinitos... Sou eu o resultado inacabado e inacabável da dialética social entre a máscara que visto e a fenda dos olhos que dá para a imensidão inefável de minha alma!

"Neste caso, o sujeito assujeitado à sua identidade passa a ser um 'eu' em construção, em processo, numa poética identitária, poética entendida como processo, mutação, onde os limites se traduzem apenas no passado, numa cartografia de mim,numa identidade nômade". (Tania Navarro Swain)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia de chuva...



Ao ver de minha janela a chuva cair, ouso seu som doce e delicado que inebria meus ouvidos e sua estética chorosa que apraz meu olhar. Em muitos momentos eu já a odiei! Suas repentinas chegadas tornaram por muitas vezes difícil minha vida de pedestre, minhas idas e vindas pela cidade. Hoje a observo resignado e satisfeito por sua beleza natural, pois ela cai e nada posso fazer para evitar. Resta-me apreciá-la! A metáfora disso para com a existência me surge como um raio de luz! A existência humana, apesar de suas misérias, dificuldades e sofrimentos, ainda assim é carregada de profunda beleza. Beleza essa que é a única coisa que pode transfigurar e validar toda a dor. Quero ser resignado com minha existência assim como aprendi a ser com a chuva. Assim como foi Édipo, ao aceitar sua própria tragédia e tornar-se herói. Assim com foi Ifigênia, que mesmo em prantos caminhou corajosa para a morte. Quero aprender com as tragédias gregas a aceitação estóica, melancólica e corajosa, dos que vivem, sofrem, amam e morrem. Pois esses meros mortais é que são os grandes heróis e deuses. Se este destino não pode ser mudado dentro dele muito pode ser criado!
A chuva cai forte lá fora...!

quinta-feira, 26 de março de 2009

OS ESPELHOS



"O que é um espelho? Não existe a palavra espelho — só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. — Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Não são precisos muitos para se ter a mina faiscante e sonambúlica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente adin-finitum, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, os reflexos dessa dura água. — O que é um espelho? Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. — Esse vazio crista¬lizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. — E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho. — A sua forma não importa: nenhuma forma con¬segue circunscrevê-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como a água se derrama. — O que é um espelho? é o único material inventado que é natural.
Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isencão de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para den¬tro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da pró¬pria imagem — então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.
Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho em que eu me veja sou eu, mas espelho vazio é que é o espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar no quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.
E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro — e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instan¬te — nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada c trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas ver¬dades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso enten¬der a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água".
(Clarice Lispector)
Esse texto não é de minha autoria, mas sinto do fundo de minha alma que eu poderia te-lo escrito. Sei que ele fala sobre mim e para mim! Por isso digo sem orgulho ou modestia, que esse texto e tão dela quanto meu. Muito obrigado Clarice!!!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Meditação de dia de domingo



Às vezes sinto um tédio quase mortal. Ele chega como quem não quer nada, sem aviso prévio ou motivos aparentes, e se instala em mim em um final de manhã de domingo. Meu espírito parece pesar uma tonelada! Tal estado se perpetua por todo o dia e só se finda com a chegada do Sono que anuncia um novo dia e cala as vozes da Angústia.
A idéia que faço do Tédio esta diretamente ligada à sensação do Nada. O tédio não é a falta do que fazer, pois isso nunca falta, mas sim a total falta de sentido para qualquer coisa que se venha a fazer. É como um cansaço antecipado, o desproposito da ação e até mesmo do pensamento, o esvaziamento de todos os motivos, de todas as razões e de toda a vontade. Não é a Morte, e mais como boiar na existência; a existência nua e crua, sem as quimeras da metafísica e os signos lingüísticos. É o se deparar cara a cara com o Nada, o mesmo que alucina a mente do suicida e encanta o pensar do filosofo.
Levanto inebriado de tédio e não encontro posição que me conforte, na cama, no chão, na cadeira ou no sofá, nenhuma atividade me apraz. Passo horas perdidas e sem marcação, a olhar sem propósito os livros na minha estante. Não leio uma página sequer, parece que não há nada a ser dito entre tantas palavras. Sento no computador e tento esboçar algum pensamento, quem sabe uma poesia me salve! Logo nas primeiras tecladas vem-me a sensação do Nada... Largo tudo e passo a nada querer. Tomado por um poderoso torpor, arrasto meu olhar sonolento por todos os cantos do quarto e cada detalhe me parece mais igual e trivial do que jamais poderia ser. Corpo inquieto, mente volúvel há divagar. Saiu na rua e perambulo como um sonâmbulo ou uma sombra perdida na eternidade, sem onde ir, onde chegar ou mesmo para onde voltar. Li uma vez em um conto de Voltaire um personagem afirmando que o homem nascera para viver nas convulsões da inquietude ou na letargia do tédio. Não me arrisco a dizer qual é a mais trágica, mas sinto agora no corpo a letargia como uma doença, o ópio dos ópios.
Não sinto nada, não quero nada, não sou nada... Preguiça de ser e de estar, só carrego mesmo comigo a ociosidade que me devora todo o esforço e me aleija todo agir. De vontade tísica e imaginação moribunda deito-me derrotado na cama como quem perdeu a guerra sem nem lutar. De olhos arregalados, fixos no branco do teto, sinto o vazio, infinito vazio... O dia passa em uma completa morbidez, como se o Tempo tivesse morrido, e quem matou foi o Tédio...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Palavras ao Tempo




Quem é o Tempo se não o poderoso e cruel deus Cronos que devora os próprios filhos que outrora ele mesmo engendrara ao mundo? O que é o Tempo se não um rio de águas diáfanas e calmas, às vezes turvas e violentas; que nós carrega a vida entre instantes efêmeros e no fim de tudo deságua no Mar? Mar que na verdade é como a Morte, que não marca o fim da Vida, mas somente sua dispersão. Assim como o rio que corre e se difundi no mar, o Tempo corre e se difundir na Eternidade!Então será que perdemos tempo? Ou será que seu movimento de eterno retorno faz com que na Vida tudo se ganhe mesmo perdendo?! Que tudo passe mesmo ficando?! Que tudo seja mesmo não sendo?!
Tempo tão relativo quanto pode imaginar Einstein, mas creio não ser preciso nenhuma formula matemática ou especulação cientifica para notar que seus caminhos são vários, cheios de nuanças, às vezes bom às vezes mau. Para os mais velhos ele parece ser representado pelo Passado, o que se foi e o que se fez; Memória irmã mais velha da História. Para os mais jovens ele parece se definir pelo Futuro, quem se será e o que se fará. Planos, esperanças, ilusões; uma enorme angustia de esperá-lo contraposta a um imenso medo de desvendá-lo. E nisso tudo o que é o Presente? Parece ele um momento indefinível e sem extensão entre o que foi e o que virá. Se pensarmos que tudo o que temos é o Presente, nos deparamos com o fato de que não temos nada. Mas esse nada pode vir a ser tudo se percebermos que na verdade o indefinível Presente é fruto do Passado e do Futuro, modifica-os e por eles é modificado a cada geração, a cada nova reflexão, a cada nova história contada e reconta.
Sua essência é a sucessão, por isso ele flui e se estende silencioso como planta que cresce enquanto dormimos. Sua essência e a permanência, por isso ele se mantem eterno e dela nada escapa sem marcas.
Tempo é movimento imóvel, transformação intransformavel, o sempre no nunca! Passado, Presente e Futuro, ilusões do Tempo-Uno, que dialogando entre permanências e rupturas criam à multiplicidade do Tempo-Vivo. Tempo carrasco que é pai do engenho humano, Tempo ciclo velho contador de Histórias! Tempo-longo, Tempo-curto, Tempo-eterno, Tempo-tempo...!