
“O medo é uma metáfora?” (Pergunta formulada por Jean-Claude Bernardet em “FilmeFobia”) Parece-me que sim! O Medo é uma metáfora, um símbolo, uma representação, uma mediação entre o inconsciente e o consciente. Como nasce o Medo? Quando passamos por uma experiência traumática, ou seja, uma experiência muito forte que não pode ser automaticamente assimilada por nossa psique, enterramos tal trauma em nosso subconsciente. O trauma se dá por causa do recalque de algum instinto, e é também chamado por Freud de "complexo”. Os “complexos” fazem parte dos processos psíquicos, porém necessitam serem sublimados, ou seja, transformados em energia positiva, criativa e proveitosa socialmente. Quando isso não ocorre o “complexo” ou trauma torna-se Medo. Os traumas são enterramos em nosso subconsciente por um mecanismo de autopreservação que tende a nos proteger de qualquer sensação, sentimento ou lembrança que, por algum motivo, nos ameaça e nos provoca muita dor. Em nossa infância por termos uma estrutura de caráter ainda indefinida e estarmos extremamente abertos e sensíveis às experiências, nos tornamos mais propícios a traumas profundos que provocam marcas na alma. Esses traumas para não nos destruir são enterrados no subconsciente em forma de Medo, presos até que o individuo tenha condições de encará-los, assimilá-los e sublimá-los. Assim se da o processo de transformação do caráter humano. A maturidade se dá quando o indivíduo consegue superar sublimando seus principais medos, sendo esse processo orgânico, instável e repleto de evoluções e involuções. O Medo se manifesta no consciente como uma sensação de profunda repulsa, pavor, desprezo, aversão. Porém o Medo é uma ponte entre os traumas mantidos no subconsciente e a nossa consciência. O Medo é uma metáfora, uma metáfora e uma representação, uma representação é uma coisa que substitui outra coisa lembrando-a. O Medo se constrói no consciente através de processos simbólicos, ligados ao inconsciente e ao contexto histórico e cultural do indivíduo e a sociedade em que foi criado. Objetos, animais, pessoas, lugares ou situações, ganham uma forte carga emotiva dentro do processo de individuação do sujeito, passando assim a serem signos. Por tanto, o Medo é uma metáfora que nos lembra de sensações, sentimentos e lembranças que estão presas no subconsciente e que só podem ser superadas quando encaradas e assimiladas por completo ao nosso ser. Pode-se encarar o Medo como um mecanismo comum a todos os seres humanos, e em níveis diferentes também a alguns tipos de animais. Mecanismo que nos protege e nos lembra de algo inacabado. Como o Medo se torna neurose e como a neurose passou a ser uma enfermidade da alma humana que caracteriza os indivíduos da cultura Ocidental Moderna do século XX? “A neurose não é, costumeiramente, definida como medo da vida, mas é exatamente isso. A pessoa neurótica tem medo de abrir o coração ao amor, teme estender a mão para pedir ou para agredir; amedronta-a ser plenamente si mesma” (Lowen). A Moderna cultura capitalista ocidental iniciou seu processo de formação em meados do século XVI, a partir desse período ocorrerão mudanças sociais, políticas e econômicas que se desdobraram até o século XX, como: o inicio das grandes navegações européias (marca o começo da globalização), a formação dos Estados Absolutistas europeus e dos movimentos nacionalistas, as políticas imperialistas e colonialistas, a formação da economia mercantilista, e a dupla revolução do século XVIII, a Revolução Industrial e a Francesa. No âmbito cultural da formação de novas idéias surgiram o Renascimento Cultural e o Humanismo, seguidos da filosofia Iluminista, a reforma protestante, o desenvolvimento do método cientifico, do modelo cartesiano e da física newtoniana. Além desses movimentos houve também o surgimento do cientificismo, a filosofia positivista de Auguste Comte, a ética utilitarista, o pensamento pragmático, o liberalismo, o marxismo e o evolucionismo de Darwin, marcas próprias do século XIX. Tudo isso forma a cultura ocidental capitalista, cabe agora tentar perceber como isso afetou e se manifestou nos indivíduos do século XX, que herdaram historicamente e culturalmente todos esses discursos da era Moderna. Na Idade Media o ser humano tinha como principal instituição criadora de “verdades” a Igreja católica, por tanto vivíamos em um modelo teocêntrico. No período da Modernidade o ser humano e deslocado para o centro e assim inaugura-se o modelo antropocêntrico. A Idade Media entendida pelos renascentistas e iluministas como um período de trevas por se basear na fé cega e nas superstições passa a ser desprezada. A radical valorização dos ideais greco-romanos traz a tona a Razão como essência humana. A Razão exaltada pelos Iluministas fortifica o espírito cientificista do ser humano transformando a Ciência na principal instituição da modernidade criadora de “verdades”. Assim inicia-se o “Império da Razão”. Os iluministas acreditavam que a luz da Razão iria iluminar todo o mundo livrando o ser humano da ignorância e permitindo-nos controlar toda a realidade ao nosso redor, apesar de serem anticlericais os Iluministas buscavam com a Razão o paraíso na terra e a salvação humana. Mas como afirmou Pascal, pensador do século XVII, existem dois excessos: “excluir a razão, não admitir senão a razão”. Os preceitos iluministas de Razão, Ciência e Civilização se espalharam pelo mundo oprimindo tudo que se opusesse a esses ideais e provocando a destruição e o massacre de outros povos com outras formas de vida (como o ocorrido com as nações indígenas na América). Mas como essa Modernidade afirma o Medo como neurose na contemporaneidade? Os humanos do século XX têm como principal herança da Modernidade o Medo. O medo do outro, o medo do diferente, o medo do desconhecido, do incontrolável, do inexplicável, portanto, o medo de tudo que foge a razão. Ao se abrirem para outros continentes os europeus se depararam com povos muito diferentes e por medo lhes impuseram de forma violenta sua forma de civilização, uma civilização racionalistas, extremamente controladora, violenta e muitas vezes desumana. Por isso o humano do século XX tomado pelos signos da Modernidade, a Razão, o Poder e o Progresso entra em conflito consigo mesmo. “O neurótico está em conflito consigo mesmo. Parte de seu ser está tentando sobrepujar uma outra parte. Seu ego está tentando dominar seu corpo; sua mente racional, controlar seus instintos; sua vontade, superar medos e ansiedades” (Lowen). Como se percebe as palavras “dominação” e “controle” estão presentes na definição do psicanalista Alexander Lowen. É como se a vontade da civilização européia de dominar e controlar os demais povos do planeta tivesse passado para o âmbito psicológico dos indivíduos do século XX, tornando-nos internamente conflituosos e assim neuróticos. O fato da mente racional estar tentando dominar os instintos fortifica a argumentação sobre o Medo, pois tal domínio dos instintos se dá exatamente por medo, pois os instintos são muitas vezes incontroláveis, inexplicáveis e totalmente irracionais. O Medo é o sentimento que está por traz de toda a busca por poder, ordem e controle da Civilização Ocidental Moderna, a neurose e a conseqüência de tal medo exacerbado. Isso se torna ainda mais claro nos versos do poeta.
Congresso Internacional do Medo
(Carlos Drummond de Andrade)
"Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,não cantaremos o ódio, porque este não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.Depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."